Uma visão poética de Nova York pelas lentes de German Lorca

Pioneiro da fotografia de arte no Brasil, German Lorca continua aliando precisão técnica e uma poética visão do mundo para produzir uma obra de forte cunho autoral, como mostram as imagens expostas por ele a partir de amanhã no Espaço Paul Mittchell. Nova York 1966 a 1997 reúne 30 imagens captadas pelo artista nas diversas viagens que fez à megalópole americana, além de um mosaico construído com fotos de diferentes prédios nova-iorquinos, que acabou se convertendo no convite da mostra.Lá estão cenas líricas, fruto da evidente preferência do fotógrafo por fotos externas, como aquela em que um grupo de meninos faz fila para tomar banho num hidrante; a foto de um rapaz engraxando sapatos; ou a da senhora feiosa que penteia os cabelos no parque - "dizem que é o Woody Allen", brinca Lorca.Há paisagens clássicas e belas do Central Park, dos barcos no Hudson River. Há também ensaios construtivos, como uma foto tirada de baixo para cima dos arranha-céus, produzindo a sensação de vertigem que uma cidade verticalizada como Nova York provoca nas pessoas.Mas o que, segundo Lorca, seria o principal acréscimo de seu trabalho sobre Nova York é o fato de ele evidenciar o "espírito jacobino" dos americanos. "Ele pode ser de um partido ou de outro, ter vindo de um outro país, mas quando ele assume a nacionalidade dos EUA, tem de se tornar americano", explica. Daí o fato de Lorca explorar alguns dos principais fetiches do sonho americano, como a bandeira, os prédios e a Coca-Cola.Como se brincasse com o espectador, que fica tentando entender o que reflete fielmente a realidade e o que foi criado em laboratório, Lorca brinca com elementos distintos, sobrepõe imagens de forte caráter simbólico como um morador de rua e aquele adesivo "I Love NY". Também há algo de fina ironia em seu trabalho, como quando coloca um grupo de japoneses olhando admirados para uma gigantesca nota de dólar em Wall Street. O bilhete foi acrescentado posteriormente, mas o espectador sempre fica na dúvida.As imagens criadas pelo fotógrafo falam mais do que ele sobre a grandeza e o declínio do império americano. Não deixa de ser sintomático o fato de encerrar a exposição uma foto de uma lata de lixo, que surpreendeu o autor exatamente pelo seu rico conteúdo.Outro ponto alto da obra do fotógrafo, que aos 78 anos mostra uma vitalidade física e criativa invejável, são as fusões. Por meio da dupla exposição de um mesmo negativo a duas cenas distintas, em diferentes momentos, ele cria imagens estranhas e fascinantes - que remetem às experiências surrealistas que o encantaram no início de sua carreira.Status de arte - Os reflexos se confundem com os prédios que se misturam ao redemoinho dessa cidade. As árvores tãofotografadas do Central Park ganham um novo fascínio ao ser contrapostas à imagem das folhas que cobrem o chão. Para obter essas imagens, Lorca diz que teve ter tirado umas 500 fotos nas várias visitas que fez a Nova York. Mas desse total apenas umas 70 seriam, segundo ele, aproveitáveis. Esse rigor seletivo tem reflexo em toda a sua obra. Em mais de 50 anos de carreira, ele calcula ter feito mais de 150 mil fotos, das quais apenas 700 ou 800 considera dignas do status de arte.Lorca fez suas primeiras fotos em 1947; no ano seguinte, já era um amador e passou a fazer parte do Fotoclube Bandeirantes, com outros pioneiros como Geraldo de Barros e Thomas Farkas. Fez fotos de casamento, fotojornalismo, mas durante um longo tempo teve de exercer a profissão de contador durante o dia para sustentar a família. A fotografia industrial e a publicidade é que acabaram garantindo seu sustento. Mas jamais encobriram seu lado artístico. Para quem aprendeu a nadar no Tietê, "na época em que engolir a água do Rio não matava", ele mostra uma vitalidade e um otimismo invejáveis. Há anos vem se dedicando a fazer um vasto ensaio fotográfico sobre o Ibirapuera e só aguarda um financiamento para publicar o resultado dessa pesquisa.Também continua buscando conexões entre suas várias obras. Passeando de forma irreverente entre os recortes temáticos - apesar do gosto pelas cenas externas pode-se dizer que Lorca é um generalista - e cronológicos, ele faz planos de novas exposições. Uma delas, que pretende realizar em breve, se chamará Esculturas Casuais e reunirá fotos de objetos banais que, graças ao poder mágico da câmera, adquirem a nobreza das estátuas. É o caso, por exemplo, dos manequins que fotografou nas vitrines nova-iorquinas.Serviço - German Lorca. De segunda a sábado, das 10 às 20 horas; domingo, das 10 às 15 horas. Espaço Paul Mitchell. Rua da Mata, 70, tel. 883-0300.Até 24/9. Abertura amanhã, às 20h30 para convidados

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