Uma visão adulta sobre os bastidores do mundo da política

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2012 | 03h10

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

O Exercício do Poder, de Pierre Schöller, começa com uma tragédia. Um acidente rodoviário, no qual morrem muitas pessoas. O ministro dos transportes, Bertrand Saint-Jean (Olivier Gourmet) é chamado a assumir a crise. Acidentes são dramas humanos. Podem ser também instrumentalizados e transformados em fatos políticos.

A partir desse acidente, abre-se a visão do filme sobre a política francesa contemporânea, tendo por pano de fundo a tentativa de privatização das estações ferroviárias do país e seu jogo de interesses. Ao contrário do que possa parecer, isso não torna a trama árida. Pelo contrário. Revela o que pode haver de sórdido, mas também de fascinante, nos bastidores da ação política.

Muito do encanto do filme se deve a Olivier Gourmet, ator predileto dos irmãos Dardenne, produtores do filme. Ele contracena com outro gigante, Michel Blanc, este no papel do seu fiel secretário Gilles. Os dois são amigos. Íntimos, aliás, mas a política obedece a outra ordem de razões, como mostrou, faz muitos anos, um escritor florentino chamado Nicolau Maquiavel. Não é que a política seja "maquiavélica", no sentido bisonho do termo. Apenas obedece a uma lógica própria, que nem sempre é aquela dos atos humanos.

Isso para dizer que, estruturado como se fosse um filme policial, ou de suspense, A Experiência do Poder é um corte vertical - e adulto - no mundo da Realpolitik. Sem mais nem menos. Na lógica de Saint-Jean, como na de todo homem político, importa manter-se no poder. Mesmo que para isso seja obrigado a atos que o envergonhariam ou alianças que jamais faria. Amizade, amor, lealdade são palavras vazias, ou protocolares, nesse mundo que obedece a leis próprias.

Têm vindo da França os melhores filmes recentes sobre a política. Carlos é a obra-prima de Olivier Assayas sobre a ação terrorista, tendo a Guerra Fria como pano de fundo. Claude Chabrol, em uma de suas últimas obras, A Comédia do Poder, ironiza esse mundo de maneira devastadora. Agora, com A Experiência do Poder, Pierre Schöller mostra como é possível lançar um olhar crítico, e nada ingênuo, sobre esse mundo opaco, cujo mecanismo escapa à compreensão dos comuns mortais. Não por acaso, inexistem, no cinema brasileiro recente, bons filmes sobre o tema. Após duas décadas de ditadura, nossa relação com a política tornou-se completamente infantilizada. Vemo-la com a profundidade de um blockbuster americano.

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