Uma vida sobre as curvas femininas Benicio

Gênio da ilustração teve infância pobre e poderia ter sido pianista

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2012 | 02h10

É curioso que os dois artistas gráficos que deram contornos definitivos à imaginação erótica nacional, Carlos Zéfiro e Benicio, fossem na verdade dois sujeitos tão pacatos e de vida tão regrada. Todo mundo sempre achou que fossem onanistas terríveis, mas Zéfiro era um tranquilo funcionário público e Benicio trabalhou em agências boa parte da vida e experimenta hoje a expectativa de se tornar bisavô a qualquer instante.

Nascido em 1936 em Alegrete (RS), mesma cidade do poeta Mário Quintana, filho mais novo de uma prole numerosa, José Benicio era chamado pelo diminutivo do primeiro nome, José: Zezinho e, depois, Zé. Segundo conta a biografia E Benicio Criou a Mulher..., sua irmã Sinhá, nove anos mais velha, lembrou de seu temperamento em relação ao irmão ao qual era mais ligado, Juarez. "Juarez se revelou mais moleque, bastante levado mesmo, enquanto Zé se comportava como um garoto normal, embora fosse quieto, acomodado, daqueles que não dava trabalho para a mãe."

Na infância, sua iniciação se deu pelas bancas de jornal. Costumava ler a revista infantil argentina Billiken e colecionava álbuns de figurinhas em Porto Alegre, onde passaram a viver. No Natal, Benicio e o irmão dividiam o Almanaque d'O Tico-Tico. O pai (que morreu de ataque cardíaco aos 52 anos, em 1950) não estimulava a leitura, mas gostava de fazer "pequenos agrados" e a leitura era o que os filhos mais gostavam - a mãe, Hilda, era professora.

Gonçalo Júnior conta que Benicio não chegou a ser um colecionador de revistas em quadrinhos, por causa da rotina dura de família pobre. No decorrer da década de 1940, Benicio elegeu como personagens preferidos Capitão Marvel, Capitão América, Príncipe Submarino, Mandrake e Marvel Jr. e Mary Marvel, publicados em O Globo Juvenil, de Roberto Marinho, que circulava desde junho de 1937, com três edições semanais. "Meus pais não gostavam muito de comprar gibis, mas não nos impediam de ler."

Muito antes de entrar na escola, entre os anos de 1941 e 1948, Benicio já se mostrava excepcional na leitura e no desenho. Sua mãe ficava tão impressionada que chegou a guardar os desenhos do filho nessa fase. Doze deles estavam no acervo do desenhista e são reproduzidos no livro. As primeiras musas começaram a surgir em seus desenhos a partir das vedetes que via nas revista O Cruzeiro, título de maior circulação no país - chegou a 500 mil exemplares em meados do século passado.

Benicio estudou até concluir o primário no Grupo Escolar República Argentina. "Ali viveu, aos oito anos de idade, um episódio marcante e inesquecível: o dia em que conheceu Evita Perón, mulher de Juan Perón, controvertido presidente argentino. O fato aconteceu porque, ao saber que havia em Porto Alegre uma escola que levava o nome de seu país, decidiu visitá-la. Para fazer as honras de um bom e cordial anfitrião, a diretora do colégio resolveu preparar uma recepção à altura: determinou que, durante vários dias, todos os alunos se esforçassem para aprender a cantar o hino nacional do país vizinho. A homenagem emocionou Evita", conta a biografia.

O autor descreve que Benicio adotou o padrão de beleza que vigorava em sua época, recheada de mulheres mais cheinhas, voluptuosas. "Benicio realçava as coxas, afinava a cintura e caprichava no decote. Como era possível um garoto de dez anos de idade explorar daquela forma o apelo sexual de suas garotas? Décadas depois, o artista não saberia responder. Disse apenas que, desde os primeiros anos, gostava de desenhar mulheres bonitas".

A situação não mudou muito hoje em dia. Aos 76 anos, é engraçado conversar com Benicio sobre as mulheres que admira atualmente. "Tem uma que, para mim, é meio que minha musa. É a Luana Piovani. Ela tem um sex appeal dos anos 60, um corpo e um rosto que batem muito com as coisas que eu fazia naquela época", contou ontem o ilustrador.

A família muito católica, de ir todos os domingos à missa e, embora não repressora, não o autorizava a imaginar um mundo de liberdades sexuais. "Mesmo com a aproximação da adolescência e o aparecimento dos primeiros impulsos sexuais, Benicio sabia que traria um grande desgosto para a mãe se desse forma às descobertas mais ousadas que começava a fazer do corpo feminino. Seus desenhos eram para ser vistos por todos, considerava. Logo adiante, ele anota: 'Quando cresci e cheguei à adolescência, não as fazia peladas porque isso era algo ainda muito reprimido'."

Em 1946, encantou-se por um piano e demonstrou interesse em estudar. Mas era excepcionalmente dotado, e logo se tornou um músico prodígio. Um dia, estava no casamento da irmã do cunhado e viu um piano na casa. Pediu à anfitriã para tocar algo. Escolheu a Dança Ritual do Fogo, do compositor espanhol Manuel de Falla (1876-1946). "Todo mundo ficou abismado de me ver tocar aquilo, porque ninguém imaginava que eu soubesse alguma coisa."

Alguém foi correndo chamar sua mãe, que achou que o filho estivesse aprontando algo e veio correndo. "Eu sempre dando os maiores sustos à minha mãe e, naquela noite, isso aconteceu de forma positiva." Com lágrimas nos olhos, Hilda aplaudiu com entusiasmo o filho. "Quando minha mãe viu, ficou tão emocionada que providenciou de ir lá para casa o piano dela, que estava na casa de minha tia. Ela não o tocava mais e ficara meio que abandonado."

Ele formou uma banda, passou a ser um instrumentista admirado e promissor. O grupo tinha um baterista chamado Calcanhoto (que viria a ser o pai da cantora Adriana Calcanhotto). Mas o sonho da música foi abortado com a morte do pai, que forçou Benicio a procurar emprego, que conseguiu no incipiente mercado de publicidade gaúcho. Também trabalhou um ano na Rádio Gaúcha, até que uma viagem ao Rio de Janeiro mudaria sua vida.

A história é longa, o homem tem quase 80 anos e uma obra extensa. Apesar do cartel, Benicio é a humildade em pessoa. Quando se vê comparado com Zéfiro, dá risada e pergunta: "Mas eu? Que que eu fiz?".

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