Uma vida sem riscos

Seu corpo foi tomado por uma súbita dose de adrenalina, que jamais tinha sentido

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 02h00

Teresa cresceu num ambiente saudável. Uma casa simples, com pais amorosos. Seu pai era servidor público e sua mãe cozinhava para fora. A rotina era impecável. Deitavam-se às 21h30 e acordavam-se às 7, o café da manhã sempre estava na mesa e nunca havia correria. Nunca se atrasavam para levá-la à escola, nem para buscá-la. Pagavam as contas religiosamente em dia e almoçavam frango assado todos os domingos.

Teresa cresceu sem saber o que era risco. Nada, absolutamente nada, era arriscado naquela família. Quando ela acelerava os passos enquanto criança, os pais diziam “filha, não corra, senão você pode cair e se machucar”. Teresa não corria porque aprendeu que evitar riscos era muito mais importante do que corrê-los. E assim ela viveu: estudar para tirar boas notas, ter apenas amizades seguras e namorar somente com quem representasse uma certeza antecipada.

Cresceu e tornou-se professora. Uma professora impecável. Letra redondinha, pontualidade britânica, diários sem falha alguma, cabelo preso num coque alto, sorriso sereno e dentes brancos. Chegava com 30 minutos de antecedência e entregava as notas 48 horas antes do prazo.

Casou-se com Paulo, funcionário de um banco. Homem tranquilo e simpático que, assim como Teresa e seus pais, não sabia o que era um boleto vencido, nem um par de sapatos no meio da sala. Paulo nunca gastava mais do que 70% do seu salário, colocando o restante numa aplicação bancária isenta de riscos.

 

E assim a vida seguiu. Tiveram dois filhos, que criaram da mesma forma como foram criados. Compravam tênis de velcro para evitar que os meninos tropeçassem nos cadarços. As crianças só caíram duas ou três vezes ao longo da infância, todas na ausência dos pais (que, ao saberem dos tombos, sentiram o coração acelerar de forma inédita).

Um belo dia, Teresa foi ao mercado. Comprou o de sempre: maçãs, peras, leite, ovos, manteiga e torradas. Quando chegou ao caixa, colocou, como sempre, tudo organizado na esteira. Leite primeiro, manteiga depois, maçãs e peras na sequência, torradas e, por fim, os ovos. Essa era a ordem na qual os alimentos deveriam entrar nas duas sacolas plásticas que utilizava para o transporte, evitando que os ovos quebrassem ou que o leite amassasse as torradas. Ocorre que, nesse dia, só havia uma sacola no caixa.

Teresa teve um pequeno ataque de pânico. Não era possível levar tudo numa sacola só. A sacola arrebentaria. Seu coração disparava. As compras já tinham passado pelo leitor e o funcionário garantia que era a última sacola. Não havia o que fazer. Teresa, tensa, acomodou as compras da melhor forma possível e começou a caminhar nervosa, imaginando a sacola rompendo, os ovos quebrando e as maçãs rolando pela Avenida Jussara.

Caminhou acelerada até sua casa. Quando avistou a porta, mal podia acreditar que sacola havia aguentado até lá. Seu rosto ficou corado e seu corpo foi tomado por uma súbita dose de adrenalina, que jamais tinha sentido. Teresa estava confusa. Era uma sensação boa que não podia compreender.

Começou a usar sacolas a menos de propósito, só para correr o risco do acidente. Teresa não queria admitir, mas gostava. E essa foi a porta de entrada para drogas mais fortes: começou a colocar coisas no forno e entrar no banho; a deixar o uniforme dos meninos pra lavar no domingo; a estender roupas no varal em dias que havia risco de chuva.

A família não entendia o que havia mudado. Mas era uma mãe e uma esposa mais alegre. A comida passou a ter mais tempero e os filhos podiam se equilibrar em muretas, quando o pai não estava olhando. Teresa era mais feliz correndo riscos. Seguiu fiel ao marido e sem beber muito álcool. Mas ontem foi à feira sem calcinha. Nunca se sentiu tão livre e nunca foi tão bem-humorada.

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