Uma vida partida ao meio pela cidade

O irlandês Colm Tóibín, de quem está chegando ao País o romance 'Brooklyn', fala sobre a experiência da imigração

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

NOVA YORK - O romancista Colm Toíbín não usa sua identidade irlandesa na manga. Aliás, ele foge de estereótipos, a maioria elogiosos, sobre o país de monumentos como James Joyce, Samuel Beckett e Oscar Wilde. Não importa se é chamado de um dos maiores escritores da Irlanda. Não importa se seus "erres" cantam como os de seus conterrâneos do belíssimo condado de Wexford, no sudeste irlandês. E se, quando comparado ao grande John McGahern, morto em 2006 - um parente literário evidente no apuro artesanal com que resgata vidas ordinárias em prosa sublime - esvazia as afinidades, admitindo apenas que "nós conversávamos". E conversar é o outro talento - perdão, perdão - irlandês de Colm Toíbín. Mas não tente fazer associações com a origem dele. Mesmo sabendo que Toíbín, 55 anos, pediu para, quando morrer, jogarem cimento na porta do estúdio que usa em Dublin para aprisioná-lo com seus pertences literários.

Depois de marcar o encontro no apartamento que ocupa parte do ano no East Village, comentei casualmente que tinha passado um dos melhores domingos musicais da minha vida em Wexford, onde fica Enniscorthy, onde ele cresceu - e o silêncio da reação foi ensurdecedor.

O romance Brooklyn, de Colm Toíbín, chega ao Brasil precedido de enorme sucesso crítico e de uma importante distinção literária, o Costa Award, concedido a autores ingleses e irlandeses. Apesar do título, o livro que examina a experiência imigrante na pele de papel da protagonista Eilis Lacey não faz turismo em Nova York. A cidade é o cenário coadjuvante da delicada história de uma mulher. Colm Toíbín recebeu o Estado com exclusividade para falar sobre Brooklyn, seu ofício e - viva Joyce e Molly Bloom - a importância de descrever sexo sem floreios.

O romance Brooklyn reflete, além das suas preocupações com os irlandeses que partiram, o fenômeno mais recente do influxo de imigrantes para a Irlanda?

Sim, mas nada genérico ou político se transforma num personagem. Isso pode ecoar com o que chamamos de a história secreta da Irlanda, que é parte de toda família e de toda geração - as pessoas partiram e não voltaram. Ou voltaram transformadas. Como romancista, eu precisava me concentrar na personagem como se fosse apenas uma que emigrou, mesmo que tenham sido milhões. O meu papel é pensar numa só. E me concentrar tanto na personagem que preciso perguntar se "os degraus estavam rangendo quando ela subiu as escadas" em vez de pensar em 150 anos de história. Por outro lado, na década que antecedeu ao livro, pela primeira vez na história da Irlanda as pessoas estavam chegando em busca de trabalho. As ruas de Dublin estavam cheias de chineses, nigerianos, poloneses. Uma coisa que notei é que eles sentiam falta tanto da Polônia, da Nigéria e da China como da Irlanda. Eles não tinham um bar ou parque favorito na cidade. Dublin era um mistério para aquelas pessoas. Elas se amontoavam num quarto e trabalhavam duro. Mas sentiam saudades de casa. Ficavam no meio de dois lugares. Então, me interessei por essa ideia - da personagem que fica no meio; o que acontece com certas coisas na vida dela, como amor, lealdade e até sua identidade.

O romance trata também da diferença cultural no domínio privado.

Sim. Eu acho que, no relacionamento entre uma moça irlandesa, nos anos 1950, e um ítalo-americano, uma coisa que me preocupou foi a questão do charme. Na Irlanda, se alguém joga charme demais, logo desperta suspeita; você quer saber como a pessoa se comporta quando está bêbada ou com raiva. Você desconfia. A personagem Eilis fica espiando e esperando algo ruim acontecer. Tony é sincero - e ela fica intrigada.

Embora tenha vivido em vários países, a vida em uma pequena cidade da Irlanda continua sendo uma referência muito forte para você?

Sim. Acho que, para certas pessoas, que cresceram numa cidadezinha irlandesa, qualquer cidade - especialmente cidades americanas - representa um alívio enorme. Ninguém sabe quem você é. Mas o fato esquisito é que os irlandeses têm uma tendência a frequentar uma igreja irlandesa, um pub irlandês para manter certas lealdades. Então, você relaxa de certas coisas, mas não de outras. No entanto, certamente é verdade que uma pequena cidade irlandesa é, ao mesmo tempo, aconchegante e restritiva.

É possível, às vezes, se sentir tão livre e desapegado de uma identidade em Nova York que dá vontade de voltar para casa para lembrar quem somos?

Suponho que sim. Porém, minha experiência de Nova York é diferente da maioria da experiência imigrante sobre a qual já li. Eu passo uma grande quantidade de tempo sozinho aqui. É um lugar ótimo para trabalhar, como se eu estivesse no campo. Tudo o que está lá fora, está lá se você quiser ir atrás. Mas, na maior parte do tempo, eu não quero. É muito fácil ficar sozinho aqui. Sei que é estranho dizer isso porque não é o que a maioria fala sobre Nova York.

Por que você disse que a protagonista Eilis, de Brooklyn, é próxima de Isabel Archer, a heroína de Henry James em Retrato de Uma Senhora?

Acho que estava interessado na ideia, do século 19, de como certas protagonistas mulheres foram criadas, especialmente por Jane Austen e Henry James. Talvez Eilis seja mais próxima de Fanny Price, de Mansfield Park, romance de Jane Austen. Mas também tem proximidade com Isabel Archer - ela não é tão inteligente ou grandiosa quanto Isabel em suas aspirações, contudo há aqui a ideia de que certos homens a desejam e o fato de que ela não está no seu país. E também de que ela está num confronto com o seu destino. Mesmo que seja numa escala menor - afinal, Isabel Archer herda muito dinheiro.

O grande romancista e contista irlandês John McGahern, morto em 2006, que é pouco conhecido no Brasil, foi seu amigo. Seria justo dizer que vocês têm uma voz em comum?

Acho que viemos do mesmo mundo. Famílias grandes, sua mãe professora, meu pai professor. Ele era 20 anos mais velho, mas tínhamos muito em comum.

É verdade que ele lhe sugeriu não ser negligente com personagens que aparentemente não têm importância no mundo?

Como viemos de cidades pequenas, nós olhávamos as pessoas como merecedoras de grande atenção, até as que ostensivamente não eram importantes. Não acho que herdei isso dele, porém falamos sobre o assunto.

Um jornal inglês fez uma reportagem recente sobre a dificuldade de escrever cenas de sexo em ficção e, quando lhe pediram um depoimento, você chamou atenção para o fato de que o leitor contemporâneo vai ironizar e rejeitar qualquer tentativa de metáfora ou de evocar sentimentos no ato sexual.

Se você usar o símile, se tentar dizer algo, do tipo "foi como as ondas do mar", o leitor já dirá: "Ih..."

Por quê?

Porque simplesmente não é assim. É uma questão de fidelidade ao fato. E o leitor tem o direito de dizer "isso é algo que experimentamos de maneira tão exata, e o escritor não sabe!? A melhor maneira de descrever sexo é não descrever- ou descrever mecanicamente e deixar o leitor trazer suas emoções. Mas, vir com essa conversa de "foi como se asas de borboleta tocassem no seu corpo..." Dá um tempo!

É verdade que você consultou uma amiga para construir a cena de sexo muito terna na qual Eilis perde a virgindade em Brooklyn?

Sim, mas não apelei para nenhum símile! A palavra "como" não foi usada como preposição. Eu queria entender como seria para uma moça irlandesa fazer sexo pela primeira vez nos anos 1950. Nem precisei anotar; o que ela me disse foi memorável.

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