Mohd Rasfan / AFP
Mohd Rasfan / AFP
Imagem Gilberto Amendola
Colunista
Gilberto Amendola
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Uma vida para depois

A covid é a desculpa que eu não queria. Mas é real. É a desculpa que eu tenho. A desculpa que todos devemos ter para não sair de casa. A desculpa ideal para proteger vidas e esperar a vacina chegar nos nossos braços

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2021 | 11h22

Sou um acumulador de compromissos. Expressões como "vamos marcar", " me liga", "um dia a gente se vê", "a gente resolve depois" ou "a gente combina" sempre fizeram parte do meu repertório. 

Antes da covid esse eterno postergar era motivo de severas críticas. Sempre fui um incompreendido -  mas, talvez, na verdade, merecesse uma medalha pelo mérito de saber jogar sempre para a "semana que vem".

Toda essa experiência em "hoje não posso" tem me ajudado neste momento pandêmico. Conheço os atalhos e o timing certo para o "talvez depois de amanhã". 

 Hoje, adiar compromissos  é uma questão de bom senso.

Como era boa e inocente aquela época do "amanhã acordo cedo", "trabalho até mais tarde", "acordei gripado", "tenho visitas de parente em casa"... Hoje, o que nos resta é um triste e duro "não quero morrer". E ponto.   

A covid é a desculpa que eu não queria. Mas é real. É a desculpa que eu tenho. A desculpa que todos devemos ter para não sair de casa. A desculpa ideal para proteger vidas e esperar a vacina chegar nos nossos braços.

Vivemos uma situação extraordinária. Meus adiamentos não estão mais sob meu controle. Meu papel de "furão" foi atropelado por um contexto maior.     

O resultado é que tenho uma agenda cheia para depois do fim desse inferno. Tenho me comprometido com muitas coisas para quando o terror da covid der uma trégua e uma janelinha de possibilidades se abrir. Estou enlouquecendo com tantas promessas e eventos projetados para o futuro.

É como se eu estivesse de olho em um dique prestes a estourar. Vejo alguns furinhos aqui e acolá, mas quando a coisa vier abaixo, vou precisar me organizar ou correr. Estou ansioso.

Olhando daqui, de uma distância razoável, minha vida também parece o estoque de uma loja de departamentos.  Daquelas bem grandes (sou do tempo do Mappin, da Mesbla, da Sears...). No meu galpão de eventos pós-covid tem barzinho, viagem, cineminha, romance, tomar uma coisinha em casa, aulas presenciais, curso disso ou daquilo, sexo casual, reunião de trabalho, cafézinho, projetinho para tentar levantar um troco, abraço coletivo e outros que tais. 

É um tsunami de restos a pagar. É uma vida inteira que ficou pra depois. Uma vida em compasso de espera. Uma vida que está para acontecer. Uma vida economizada, guardada no cofre, no banco ou na gaveta das meias. Tenho vida para passar no crédito e no débito.     

Vou precisar respirar, colocar tudo em uma planilha, escalonar. Acho de bom tom comprar uma agenda. Espalhar post-its pela casa. Programar alarmes. Fazer contas. Me virar.

Me assusta.         

Mas  não quero ser mais um acumulador de compromisso. Já adiei coisas demais. Abro mão dos meus poderes mágicos, abro mão do controle do tempo. Estarei disponível. Não sempre. Mas com mais frequência.

Vou querer o agora. Mesmo que o agora seja para amanhã ou depois de amanhã. Que a gente finalmente se veja , que a gente se ligue,  que a gente combine um dia desses... Vai rolar, tenho esperança.

Tudo o que sabemos sobre:
coronavírustrabalhoturismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.