Uma vida no palco, entre texto e música

A diretora Lívia Sabag elegeu a ópera como caminho e estreia novo espetáculo

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h12

O cenário é uma casa de campo no interior da Inglaterra, onde uma governanta cuida de duas crianças que acabam de perder os pais. Segredos, o que não é dito, ruídos, fantasmas - raramente a ópera contemplou, ao longo de sua história, o mistério e o suspense. Mas isso não impediu o inglês Benjamin Britten de transformar The Turn of the Screw, baseada no livro de Henry James, em uma de suas principais criações. A obra ganha montagem a partir de hoje no Teatro São Pedro, que relembra assim o centenário do compositor (leia abaixo). E, responsável pela concepção cênica, está a diretora Lívia Sabag, um dos principais nomes da nova geração de artistas dedicados à ópera no Brasil.

Aos 33 anos, Lívia é profissional ainda raro no Brasil: não fez da ópera uma atividade ocasional, paralela à direção teatral mas, sim, o foco principal de sua formação e trajetória. "A ópera, na verdade, foi um namoro que começou ainda na minha infância", ela conta. O pai, Marco Antônio Silva Ramos, é maestro e professor de regência da Universidade de São Paulo. E ela recorda, desde pequena, das tardes em que o acompanhava em ensaios e aulas. Adolescente, estudou violão clássico e canto; na escola, fazia teatro. E dança. "Uma coisa que sempre me chamava a atenção em espetáculos que meu pai me mostrava era o lado teatral e como, em alguns casos, faltava muita expressividade aos intérpretes. E isso ficou na minha cabeça."

Na hora de escolher um a carreira para o vestibular, ela optou por Artes Cênicas, que cursou na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. "Lá, a união de teatro e música se deu de maneira bem natural." Havia algum compositor ou período que mais lhe interessasse? "Não exatamente, mas houve um momento ali em que fiquei bastante fascinada por criações do século 20. E isso também tinha relação com essa coisa da união do texto com a música. Eu me interessava particularmente pela questão da dramaturgia contemporânea e, consequentemente, pela maneira como a música se relacionava com ela. Conheci, por exemplo, a obra do compositor francês Pascal Dusapin, que trabalhou muito com o dramaturgo Heiner Müller. Mas a verdade é que eu gostava de tudo."

"Apaixonadíssima" por Mozart, ela lembra da ópera Così Fan Tutte. "A beleza da música, o humor fino do texto, a delicadeza, o que é velado, o que é explícito - é tudo muito fascinante." Mas a diretora fala também de La Bohème, de Puccini, ou da Carmen, de Bizet. "Eu pegava esses grandes títulos do repertório e estudava, ouvia, lia tudo o que podia. E assim fui descobrindo esse mundo. No fundo, nunca tive um foco definido, o que me movia era justamente descobrir coisas novas."

Lívia conta que, depois de se formar em 2003 e dirigir, ainda na universidade, seu primeiro espetáculo, viajou pelo mundo atrás de festivais que lhe permitissem entrar em contato com o que de melhor era feito lá fora. E, na volta, saiu batendo na porta de teatros para procurar vaga como assistente de direção. E foi nessa condição que participou, entre outras, da criação de montagens como Andrea Chenier, de Giordano (direção de André Heller-Lopes), no Municipal de São Paulo, ou de Maria Golovin, de Menotti, no Festival Amazonas de Ópera (direção de Vincent Bouchard). "O trabalho de assistente é muito importante para você entender como funciona um teatro de ópera. A capacidade criativa está dentro de você, mas é preciso aprender a lidar com ela e colocá-la em prática. E a assistência dá as ferramentas para fazer isso."

Aos poucos, ela foi conseguindo espaço para concepções próprias. Em 2008, o maestro Jamil Maluf a convidou para dirigir Amelia al Ballo, de Menotti, no Municipal de São Paulo; em 2010, fez Rigoletto, de Verdi, no Teatro São Pedro. Um ano mais tarde, sua encenação de O Menino e os Sortilégios, de Ravel, venceria o Prêmio Carlos Gomes em seis categorias - entre elas, melhor espetáculo de ópera, superando concorrentes de peso, como A Valquíria, de Richard Wagner. Nesse meio tempo, dirigiu, na Manhattan School of Music, em Nova York, Falstaff, de Verdi, e Lucia di Lammermoor, de Gaetano Donizetti.

"O que gosto é de descobrir a teatralidade de cada obra e o modo como ela se dá em diferentes momentos da história da ópera, desde o repertório tradicional aos nossos dias. Variar abre suas possibilidades como diretora, como artista", diz Lívia, sobre a diversidade de seu repertório. "Textos do século 20 podem ter um tempo teatral mais familiar, mais próximo de nós do que um título do século 19, por exemplo."

De maneira geral, é possível dizer que, ao longo do século 20, as produções de ópera se dividiam entre montagens ditas "modernas", que retiravam a história da seu contexto original, e outras tradicionais, mais fiéis ao texto. Para Lívia, essa dicotomia já não pauta mais o trabalho de um diretor. "Eu acredito na possibilidade de uma terceira via, quer dizer, respeitar o texto original e dar a ele uma abordagem nova. Respeitar o texto não é necessariamente fazer uma reprodução naturalista dele. O critério, para mim, é evitar pegar um conceito externo e fazer com que a ópera se encaixe nele e, sim, fazer com que as ideias para uma montagem nasçam de dentro do texto original."

Lívia não descarta o trabalho com o teatro de prosa - e já assinou uma adaptação de O Canto do Cisne, de Chekhov. "Mas não há dúvida de que a ópera é o meu caminho. E, afinal, ela é teatro também, não é mesmo?"

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