Uma viagem para a luz com o mármore negro e Brancusi

Sergio Camargo é o nosso Brancusi. Em outras palavras, ele representa para a escultura contemporânea brasileira o que o romeno significou para a arte europeia, um mestre no uso da luz - o que pode parecer um tanto estranho em se tratando de um escultor, não de um pintor. Brancusi, preocupado com a transformação do volume pela incidência da luz, pediu ao amigo Man Ray que o ensinasse a fotografar suas esculturas tal qual foram concebidas, sem as distorções provocadas por reflexos luminosos. Na retrospectiva em homenagem aos 20 anos de morte e 80 de nascimento do artista brasileiro, o visitante terá a oportunidade de atestar como Camargo não só aprendeu as lições luminosas do amigo e mestre Brancusi (autor da peça ao lado) como avançou na rota traçada pelo romeno.

Análise: Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

É só comparar as esculturas brancas de mármore de Carrara com as negras da Bélgica: elas se complementam como a vida e a morte. As peças em negro-belga encerraram, de fato, um ciclo na história de Camargo: ao trocar o branco e opaco mármore de Carrara - que reflete uma luz difusa, dando à peça um aspecto imaterial - pelo polido fosco da pedra negra, ele escolheu um caminho de recolhimento. O preto, afinal, não tem vocação expansiva. Ele recolhe a luz. Foi o último material - resistente, duro, grave - usado por ele, que morreu de parada cardíaca um pouco antes do Natal, em 1990.

Camargo foi um escultor dos limites - da luz, da concentração de elementos, do cruzamento da fronteira entre o interior e exterior das peças. Há na mostra esculturas em que o mármore negro chega a ser cortado em ângulos de 15 graus, limite máximo suportado por ele. É a lâmina final. A partir disso, não havia mais saída no labirinto em que ele entrou, ao aceitar, em 1974, a encomenda de um amigo para que fizesse um jogo de xadrez em negro-belga. Fascinado com o material, ele o usou nas esculturas derradeiras, encontrando um meio de driblar a morte, representada pela horizontalidade dessas peças problemáticas: construiu pequenas pirâmides.

Mais uma vez, impossível não pensar na coluna infinita de Brancusi (de 1937), uma elegia ascensional ao moderno - relida numa homenagem póstuma ao romeno pelo próprio Camargo. As peças em negro-belga constituem a antítese dessa crença, como já observou o crítico Ronaldo Brito, referindo-se à observação de outro colega, o italiano Giulio Carlo Argan, sobre a crise do moderno - ou o descrédito na ideia do progresso. Contrariando a horizontalidade das peças - algumas com pequenas deformações ou ângulos insólitos, recuperando as anamorfoses da pintura medieval -, Camargo verticalizou sua escultura em ângulo secos, estoicos, como se fossem os rasgos numa tela do argentino Lucio Fontana, outros de seus mestres - ele teve aulas com o pintor argentino nos anos 1940.

Além de Fontana, outras influências ajudaram Camargo a construir o mais rigoroso exercício de escultura moderna no Brasil ao lado de Amilcar de Castro. Entre os nomes que devem ser lembrados, o belga Vantongerloo, o francês Henri Laurens e o franco-alemão Hans Arp certamente entrariam na lista. Hoje, seu prestígio internacional é igual ao de seus mestres, estando presente nas coleções de grandes museus europeus (Tate de Londres, Centre National d"Art Contemporain de Paris) e americanos (Sculptural Garden de Washington). Sorte deles.

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