Uma viagem no tempo em 270 anos de São Paulo

Antes mesmo do lançamento ? às 19 horas de hoje, no saguão do Edifício Altino Arantes, mais conhecido como Prédio do Banespa, na Rua João Brícola, 24, no centro ?, é um sucesso o livro de fotos São Paulo de Piratininga: de pouso de tropas a metrópole. ?Tivemos de repor o estoque em várias livrarias?, exulta Mary Lou Paris, da Editora Terceiro Nome, que publicou o livro com o Grupo Estado. Depois de admirar as fotos dezenas de vezes, ela agora as vê aumentadas, com a ajuda de uma lupa. ?Estou descobrindo detalhes inacreditáveis, que não havia percebido antes?, conta a editora. Observar cada uma das 270 imagens do livro equivale a fazer uma viagem no tempo. Em preto-e-branco. Textos e legendas, baseados em intensa pesquisa, vão contando a história da cidade, que fez 450 anos em 25 de janeiro. As fotos foram encontradas por acaso, em meados de 2000, durante reforma no Centro de Documentação e Informação do Estado. Alguém resolveu abrir um grande pacote embrulhado em papelão. Lá dentro havia seis álbuns com cerca de 700 fotografias em ótimo estado, feitas entre 1860 e 1930, justamente a fase de transição da cidade de pouso de tropeiros para metrópole. ?Estavam impecáveis, maravilhosas, super-bem guardadas?, diz Mary Lou. ?Com certeza, é a mais importante coleção fotográfica sobre a cidade de São Paulo descoberta nos últimos tempos.? Desorganizado, o material só trazia a identificação dos lugares. Por exemplo: Largo da Memória, Rua Líbero Badaró. E nada de data ou autor. Essas informações foram obtidas com a consultoria do historiador José Alfredo Vidigal Pontes, estudioso há mais de 30 anos da memória visual da cidade. ?Ele sabe tudo, foi o nosso grande consultor?, conta Mary Lou. Montado o projeto pela Lei Rouanet e obtido patrocínio do Santander Banespa, a primeira providência foi contratar o arquiteto e museólogo Julio Abe Wakara, um dos maiores colecionadores particulares da iconografia paulistana. Ambos contaram com a colaboração da especialista Ivany Sevarolli, que ajudou a identificar as imagens. Diante de tão vasto material, optou-se por abrir o livro com uma imagem do Pátio do Colégio, onde tudo começou, e dali para o Vale do Anhangabaú, a Luz, Liberdade, Glória, Brás, Campos Elísios, Bom Retiro e arredores. ?Isso permite que se caminhe pelo passado e se compreenda melhor a cidade?, diz Vidigal Pontes. Mais do que a arquitetura da cidade, na seleção das fotos interessou a presença dos seus habitantes. Lá estão eles, numa procissão na Rua Marechal Deodoro, em 1912. Participando de um desfile de carnaval na Rua Direita, em 1905. Lotando as ruas para ver a passagem do presidente Prudente de Moraes pela Rua 15 de Novembro, no mesmo ano. Costumes - Muito bem-vestidos, homens de terno, gravata e chapéu, mulheres com trajes longos, acinturados, passam em ruas impecavelmente limpas onde circulam carros de boi, charretes, bondes. Os diferentes tipos humanos que, com seu vestuário e comportamento tanto revelam sobre a cidade, como explica o historiador Vidigal Pontes, podem ser vistos na Ladeira de São Francisco e passando pela Rua Wenceslau Brás, em 1910. No cruzamento da Rua Direita com a São Bento, em 1887. No Viaduto do Chá, em 1911. Na escadaria do Viaduto Santa Ifigênia, em 1920. Na frente de uma chapelaria na esquina da Rua Direita com a Líbero Badaró, em 1912. E até lavando roupas e colocando-as para secar em varais, na beira do Rio Tamanduateí, ao lado da Várzea do Carmo, em 1900. Para os editores (e agora, para os leitores), foi a descoberta de uma cidade que julgavam conhecer. A começar pelo nome: São Paulo de Piratininga. ?Piratininga quer dizer peixe que seca ou que fica preso nas margens de um rio, secando ao sol depois de um transbordamento, como acontecia com os que viviam no Piratininga?, explica o jornalista Ruy Mesquita Filho, editor do livro. ?Esses peixes atraíam formigas que, por sua vez, atraíam os tamanduás ? e dos tamanduás veio o nome Tamanduateí, como passou a ser chamado o Piratininga, o rio que emprestou seu nome à cidade e que hoje é quase esquecido até nos livros escolares.?

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