Uma viagem aos seus últimos anos

O estudo da vida de Freud tem conotações especiais. Se há um grande número de biografias já publicadas, novas pesquisas ficam dificultadas, pois uma parte dos dados segue inacessível. O Arquivo Freud doou-os à Biblioteca do Congresso, impondo que, por questões de confidencialidade, eles só poderão ser liberados em datas futuras, que chegam até 2057. Por isso mesmo, suscita curiosidade quando aparece novo material biográfico, caso do livro de David Cohen, The Escape of Sigmund Freud (JR Books).

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Cohen propõe-se a focalizar os últimos seis anos de vida de Freud. Ater-se a esse único período não é fácil, pois é necessário remetê-lo aos muitos e conhecidos episódios da vida do criador da psicanálise. Talvez venha daí a forma um tanto desorganizada com a qual o material é exposto. Ao pesquisar sobre os parentes de Freud que imigraram para a Inglaterra e se estabeleceram em Manchester, Cohen, num golpe de sorte, encontrou na biblioteca daquela cidade as anotações do psicanalista americano Leslie Adams que, em 1952, planejara escrever uma biografia de Freud, projeto que por algum motivo abandonou, deixando lá depositadas suas anotações. Além do mais, Cohen ali pôde examinar com vagar as 258 cartas de Freud para o sobrinho Sam, filho de seu irmão Emanuel.

Por meio desses dados, encontrou pistas sobre o episódio envolvendo o oficial nazista Anton Sauerwald, de importância capital para Freud escapar de Viena em direção a Londres. Sauerwald guardou as provas, especialmente as ligadas às contas de Freud em bancos suíços, que dificultariam as negociações pela sua liberação. O episódio - que não era de todo desconhecido, pois apesar de ignorado por Peter Gay, foi mencionado por Max Schur, o médico e amigo de Sigmund, que o assistiu em seus derradeiros momentos - é mostrado por Cohen com riqueza de dados, como a retribuição de Anna Freud, cujo testemunho foi definitivo para libertar Sauerwald nos tribunais do pós-guerra.

Embora seja essa sua peça de resistência, o livro de Cohen está recheado de informações sobre a família de Freud, que, para o autor, se assemelha às atuais famílias reconstituídas após os divórcios dos pais e a convivência entre meio-irmãos. Cohen cita bibliografia a seu ver pouco recorrida por não estar traduzida do alemão, como a correspondência entre Freud e Minna, cunhada com quem teria tido intimidade suspeita aos olhos de alguns, e o texto de Anna Bernays-Freud, irmã de Sigmund, que levou 50 anos para ser publicado.

O autor se surpreende com o que considera omissão dos estudiosos de Freud no que diz respeito a Sauerwald e a Harry Freud. Harry era o sobrinho de Sigmund que se equivocou inteiramente com Sauerwald, sendo o responsável direto por sua perseguição e prisão, no que teve de ser contido por Anna Freud, que lhe explicou ter sido Sauerwald não o ladrão do patrimônio familiar e sim salvador de todos.

Cohen mostra como o fim da vida de Freud é pouco ressaltado nas biografias, o que não lhe parece justo. Apesar das circunstâncias adversas, como o caos trazido pelos nazistas e a perseguição aos judeus, o sofrimento provocado pelo câncer, os transtornos decorrentes da mudança de país, Freud continuou trabalhando, atendendo a pacientes - como a poeta Hilda Doolittle, que deixou interessante registro de suas sessões - e produzindo textos importantes como Análise Terminável e Interminável e Moisés e o Monoteísmo.

Vida e obra de Freud se confundem e continuam despertando grandes paixões. No momento, na França, o filósofo Michel Onfray ataca ambas no livro Le Crépuscule d"une Idole: L"Affabulatin Freudienne (Grasset), sendo rebatido por autores como Elizabeth Roudinesco e Julia Kristeva. Talvez seja mais fácil defender Freud dos frequentes ataques decorrentes da ignorância ou má-fé, como os de Onfray, do que defendê-lo da idealização que muitos lhe dedicam, privando-o da cota de falibilidade, imperfeições e limitações à qual, enquanto humanos, todos temos direito.

SÉRGIO TELLES É PSICANALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE VISITA ÀS CASAS DE FREUD E OUTRAS VIAGENS (CASA DO PSICÓLOGO), ENTRE OUTROS.

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