Uma união forçada e desnecessária

Tenho boas e más notícias sobre as duas obras estreadas anteontem na Sala São Paulo, pela Osesp. A boa é que o compositor argentino Osvaldo Golijov felizmente guardou na frasqueira a rala world music que mostrou ano passado por aqui. A abertura Sidereus foi escrita em 2010, quatro séculos após a publicação do livro de mesmo título em que Galileu noticiou ter contemplado num telescópio a Lua pela primeira vez. Excelente orquestrador, Golijov construiu uma peça instigante, que combina simplicidade com consistência musical.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

A péssima notícia é a encomenda da Osesp ao compositor popular Edu Lobo. É como pedir pamonha de Piracicaba a uma baiana com um tabuleiro atulhado de acarajés. Edu Lobo, notável compositor popular, foi pago para fazer o que não sabe: compor música sinfônica. Não tem culpa. Recorreu aos préstimos de Nelson Ayres para orquestrar seus temas. A Suíte Popular Brasileira navega no pior estilo populista e "enche de orgulho" a plateia que pensa estar gostando de música contemporânea brasileira. A música popular nada ganha; e a erudita perde mais uma vez um espaço que é seu de direito. Muitos bons compositores brasileiros anseiam e precisam sim destas encomendas. A Osesp poderia estabelecer uma residência anual para brasileiros. Eles conviveriam com a orquestra, os músicos e ao final teriam obras inéditas estreadas. Isso faria a diferença.

O problema não é a execução da Suíte de Edu Lobo, cujo frevo Pé de Vento nasceu como bis encomendado para a turnê internacional da Osesp no ano passado, mas o ato de encomendá-la - que poderia ter partido, com adequação, da Orquestra Jazz Sinfônica. Edu e Nelson são sensacionais. A música popular brasileira tem excelência mundialmente reconhecida. Não precisa de carimbo erudito para se legitimar.

Na primeira parte, o Concerto n.º 2 para Violoncelo de Haydn recebeu uma leitura entusiasmante do holandês Pieter Wispelwey. Cheio de caras e bocas, Wispelwey é instrumentista completo, modela cada frase, retira de cada uma delas o máximo. Tortelier e a Osesp estavam afinados com o solista.

Na segunda parte, a Sinfonia em Três Movimentos de Stravinski os encontrou em seu melhor momento. A pegada sinfônica do russo é memorável. Você ouve três compassos e já sente sua assinatura. Composta em 1942-45, é tão impactante quanto, por exemplo, a Sétima Sinfonia de Shostakovich, também escrita durante a guerra. As tonitruantes fanfarras dos metais, o ritmo incessante da massa orquestral, os jogos de timbres refinados entre harpa, piano e madeiras - tudo remete ao melhor Stravinski.

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