Uma trajetória marcada pela rejeição

Avó da roqueira Courtney Love, ela foi abandonada pela mãe, deu a filha em adoção - e contou tudo em seus romances

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

A vida da escritora norte-americana Paula Fox parece um romance de Paula Fox, repleto de personagens rejeitados na infância, parentes cruéis e casamentos fracassados. Paula é a avó da roqueira Courtney Love, a mulher de Kurt Cobain, líder do grupo Nirvana, que teve igualmente uma infância problemática e uma vida adulta pior ainda (presa várias vezes por porte de drogas, a cantora perdeu a guarda da filha). Paula só a conheceu há 20 anos, quando sua filha Linda Carroll, que a escritora deu para adoção, apareceu do nada e lhe apresentou cinco netos, entre eles Courtney Love. Nada estranho para uma escritora que, criança, passou de mão em mão até ser adotada por um padre. Rejeitada pela mãe ao nascer, Paula teve uma infância turbulenta passada entre os EUA e Cuba, onde morava a avó. Só foi reencontrar a mãe aos 5 anos e ainda assim recebida com alguns palavrões e um copo espatifado em seu braço.

Não sem razão, seus livros infantis, que a tornaram conhecida, exploram temas como abandono familiar, doença, paralisia e morte, elegendo crianças outsiders como personagens. Por muito tempo identificada como autora de livros infantojuvenis, Paula Fox só escreveria seu primeiro livro para adultos aos 44 anos, Pobre George (1977), lançado há dois anos pela Editora Record. É uma obra comovente sobre um professor de escola particular que se muda com a esposa para uma casa suburbana e sucumbe ao tédio de seu casamento falido. Sua vida se transforma quando um adolescente do bairro, que gosta de espionar os vizinhos, invade sua casa. A mulher quer que o marido entregue o garoto à polícia, mas o pobre George do título, compadecido, começa a dar aulas para o delinquente, atraindo a ira da esposa, que o acusa de se sentir atraído por Ernest.

Pobre George teve uma recepção fria quando lançado, destino de outros livros adultos de Paula Fox. O terceiro romance, A Costa Oeste (The Western Coast, de 1972), que ela considera seu melhor trabalho (publicado no ano passado pela Companhia das Letras), foi rejeitado por 12 editores. Mas foi um bom editor que fez Jonathan Lethem ler seu segundo romance, Desesperados (Desperate Characters, 1970), lançado em 2007 pela Companhia das Letras. Prefaciado por Jonathan Franzen (Freedom) em seu relançamento americano (1999), o livro não só atraiu a atenção de Lethem como de outros jovens escritores hoje pertencentes ao mainstream da literatura americana.

Franzen diz que Desesperados lhe parece claramente superior a qualquer romance dos contemporâneos da escritora, incluindo John Updike, Philip Roth e Saul Bellow. Pode parecer exagerado, mas a força do livro é inegável. Nele, uma mulher de meia-idade, vivendo com o marido (também num casamento fracassado) no Brooklin e tendo como vizinhos pobres de origem hispânica ou negra, vê sua vida afetada por um episódio banal, a fúria de um gato de rua que morde sua mão quando a ex-tradutora lhe oferece leite, implodindo seu mundo familiar.

O mais autobiográfico dos livros de Paula Fox ainda é A Costa Oeste, sobre uma garota de 17 anos, órfã de mãe e abandonada pelo pai alcoólatra (o da escritora, Paul Harvey Fox, foi igualmente um roteirista medíocre e ignorou a filha). Em março do próximo ano a Companhia das Letras lança The Widow"s Children (1976), vigoroso e poético acerto de contas com suas origens na forma de um romance realista sobre imigrantes cubanos de meia-idade. E em crise, como, de resto, convém aos trágicos personagens de Paula Fox.

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