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Uma tragédia familiar

Mark Wahlberg e Christian Bale excedem no poderoso O Vencedor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2011 | 00h00

São os percalços da distribuição. The Fighter quer dizer, literalmente, O Lutador, mas o filme de David O. Russell está sendo lançado no Brasil como O Vencedor, de certo para diferenciar de The Wrestler, de Darren Aronofsky, que já havia ganhado aquele título no País. Os distribuidores devem ter se esquecido de que, em 1979, o azarão do Oscar havia sido um pequeno filme do recém-falecido Peter Yates - Breaking Away, que se chamou aqui, exatamente, O Vencedor.

Independentemente do título, o novo O Vencedor, que estreia hoje, chega com várias indicações para o Oscar e pelo menos em uma é considerado imbatível - a de melhor ator coadjuvante, consolidada agora que Christian Bale venceu o prêmio da categoria no SAG, o sindicato dos atores dos EUA. Mas O Vencedor poderia ganhar em várias outras. O filme de Russell é um acontecimento, até por resgatar o talentoso diretor de Procurando Encrenca e Três Reis.

Onde ele andava nos últimos 12 anos? O filme sobre a Guerra do Iraque, com George Clooney e Mark Wahlberg, é de 1999. David O. Russell deve ao astro seu retorno espetacular? Pois O Vencedor é espetacular - uma tragédia americana que consegue acrescentar humor e empolgação ao seu pathos. O título aponta numa direção. Como filme de ringue - de boxe -, e o personagem de Mark Wahlberg leva uma surra homérica logo de cara, O Vencedor deixa claro que o herói vai superar seus limites. Mas, para chegar a isso, ele precisa antes superar um limite muito maior, uma fatalidade histórica, a própria família. O Vencedor é uma crônica familiar como raras vezes o cinema apresentou ultimamente.

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Veja trechos de O Vencedor

O boxe, a família - tudo permite que se faça uma ponte, remota, é verdade, com Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, até porque, além da polaridade entre dois irmãos, O Vencedor trata também da mãe e ela, como a genial Katina Paxinou da obra-prima viscontiana, tem preferência por um dos filhos. A referência pode ser vaga, mas não despropositada. Mark Wahlberg, que também produz O Vencedor, conhece Rocco. Em 1999, no mesmo ano de Três Reis, ele fez Caminho Sem Volta (The Yards), de James Gray, e o cineasta, de ascendência judaico/irlandesa, é louco por Visconti. Charlize Theron confirmou, na época, para o repórter do Estado, que Gray havia mostrado Rocco e Seus Irmãos para seu elenco - e os protagonistas já eram dois amigos em conflito, Mark Wahlberg e Joaquin Phoenix.

É um tema que tem estado em pauta nos filmes que Wahlberg interpreta (ou produz). Relações familiares, amigos do peito, como se fossem irmãos, mas que as circunstâncias colocam em campos opostos. Era assim em Caminho Sem Volta, em Quatro Irmãos - remake de Os Filhos de Katie Elder, de Henry Hathaway, por John Singleton, no próprio Os Infiltrados, de Martin Scorsese. São as histórias que Mark Wahlberg gosta de ajudar a contar e ele é muito bom, é sólido como ator, mas ocorre uma coisa curiosa com ele.

Logo no começo de O Vencedor, quando está tentando levar a garçonete para a cama, o personagem de Wahlberg antecipa, detalhadamente, tudo o que terá de fazer para vencer seu oponente na luta que vai disputar. Ele vem de uma série de derrotas seguidas e não sabe que uma tramoia da mãe e do irmão, seu treinador, vai levá-lo a enfrentar um adversário muito mais duro. A garçonete é que parece saber - e diz, meio depreciativa, que ele é um escada, um lutador que está ali não para vencer, mas para servir de saco de pancada para o outro, o vencedor.

Por melhor ator que seja, Mark Wahlberg também tem sido escada para os colegas - exceto em Boggie Nights, Prazer sem Limites, de Paul Thomas Anderson, de 1997. Em Caminho Sem Volta, Wahlberg fazia a escada para Joaquin Phoenix; em Três Reis, para George Clooney; e, agora em O Vencedor, para Christian Bale. No começo, o irmão parece o protagonista. Wahlberg só vai assumir o papel mais tarde, quase lá pelo meio do filme. O irmão, ex-campeão, é viciado em crack. Lixa-se para Wahlberg como para a namorada, a quem prostitui. Só o que lhe importa é o vício, e o dinheiro para a droga. É um grande personagem, que Bale cria genialmente. Seria fácil transformar esses irmãos em duas faces da mesma moeda, o bem e o mal. David O. Russell dribla o maniqueísmo. As coisas são muito mais complicadas. Família pode ser um problema. Ele sabe. Basta lembrar de Procurando Encrenca, em que Ben Stiller busca os pais biológicos e, de família em família, viaja pelos desacertos da "América".

O VENCEDOR

Nome original: The Fighter.

Direção: David O. Russell.

Gênero: Drama (EUA/2010, 115 minutos).

Censura: 14 anos.

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