Uma tradição plugada no século 21

Ao mesmo tempo em que a tradição reverbera nas guitarras malinesas de Afrocubism, novos ventos da música africana sopram com a participação de Bassekou Kouyate, instrumentista criado na tradição griot de poetas e músicos errantes do Oeste do continente.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Kouyate é um mestre do ngoni (foto), uma espécie de alaúde de quatro cordas considerado um dos ancestrais do bandolim. Na prática, o instrumento parece uma mistura de cavaco com a guitarra de Bo Diddley, ou um cabo de vassoura amplificado que, nas mãos de Kouyate, vira o emissário de uma linguagem rítmica e melódica de assombroso virtuosismo.

Nos últimos anos, o músico tem se destacado pelos conceitos vanguardistas que traz à música malinesa. Com a banda Ngoni Ba, criada por ele em 2005, renovou as possibilidades do ngoni, tirando-o da função coadjuvante de acompanhante de cantoras, para dar uma liberdade de improviso que cria vertentes fascinantes para a polirritmia africana, sem se desfazer da tradição musical milenar da região.

Nos fenomenais discos Segu Blue (2007) e I Speak Fula (2009), a banda toca com uma combinação de quatro ngonis de tamanhos variados, dois dos quais foram inventados por Kouyate para formar um leque de tessituras mais abrangente. O resultado é um contraponto rítmico ágil e estonteante que, acompanhado das melodias antigas, é impossível de ser ouvido em estado de inércia.

Koyate ficou conhecido por suas participações com os gigantes malineses Ali Farka Touré e Toumani Diabaté - este último, um dos participantes de Afrocubism - e já estava escalado por Nick Gold para a primeira encarnação do disco, em 1997. Desde então, seu estilo evoluiu para uma concepção guitarrística do instrumento: toca em pé, com a ajuda de um strap, pluga o instrumento num pedal de wah wah e, quando dá, enverga uma nota à la B. B. King.

Mas as novas bossas de Bassekou são só parte do que promete ser um grande disco. Afrocubism conta também com o genial guitarrista Djelmady Tounkara, um dos integrantes da lendária Rail Band, cujo som é emblemático da ideia do disco. Desde os anos 70, a Rail Band faz uma curiosa mescla de música africana e cubana que representa o retorno da diáspora musical à terra-mãe. Além de Djelimady, Toumani Diabaté, outro mestre malinês deixa os seus dedilhados neste encontro de culturas unidas pelo pulsar do tambor.

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