Uma tradição ao pé da letra

CAETANO W. GALINDO

CAETANO W. GALINDO É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, TRADUTOR. VERTEU PARA O PORTUGUÊS O CLÁSSICO ULYSSES, DE JAMES JOYCE (COMPANHIA DAS LETRAS), ENTRE OUTROS TRABALHOS, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h08

O Natal é uma época muito triste.

É assim que se abre um dos 28 contos de John Cheever. Um conto que ainda por cima se chama O Natal É uma Época Triste para os Pobres.

E convenhamos que se trata de uma sensação recorrente para muitos. De nós. "Seja rico ou seja pobre..." O que na verdade pode parecer estranho, porque o Natal, diz o senso comum, é uma época de alegria.

Já antes mesmo de virar tradição cristã, o Natal era uma data de triunfo. O que se celebrava naquele tempo era o dies Natalis solis invictus. O dia do nascimento do sol invencível, deus dos romanos do fim do Império. (E a Igreja cristã não perdeu muitas oportunidades de sincretizar as suas festas com ritos 'pagãos', como forma de lhes conferir uma popularidade automática).

Por outro lado, a celebração e o triunfo sempre relegam a um canto escuro do palco os vencidos, os que lamentam. Não há uma coisa sem a outra.

O Natal, como nós o celebramos, é tempo de reunião, de família. Tempo, também, em que a solidão dói mais. E não só a solidão de quem está sozinho, mas a que muitas vezes aparece exatamente em meio a um grande grupo. A de verdade.

Natal é tempo de fantasmas.

Se é o momento da ceia que celebra a fartura, é também o dia em que a falta mais pesa.

O Natal é o mais triste dos dias alegres.

O problema é que onde nós, eu e você, vemos êxtase e caos, exultação e pranto, a literatura vê tema. A literatura vive disso. E uma festa dessas dimensões, com esse potencial dramático, não pôde deixar de criar uma (pequena) tradição literária à parte.

A bem da verdade, há quem diga que a moderna festa do Natal é, senão invenção, ao menos consequência parcial da literatura.

Um tema das letras que as mesmas letras geraram.

Segundo o historiador Ronald Hutton, da Bristol University (em The Stations of the Sun), o responsável teria sido Um Conto de Natal (1843), de Charles Dickens. Teria sido ele, por exemplo, a estabelecer o peru como prato principal da ceia, seguido pelo icônico pudim de Natal, outro elemento que, a partir daí, não saiu mais das mesas e da imaginação do mundo inglês.

A abundante ceia da família Cratchit, a superação da pobreza, a generosidade caridosa de um regenerado Ebenezer Scrooge, tudo isso teria consolidado certos temas não necessariamente religiosos que, a partir daí, germinaram na nossa ideia moderna de um Natal em família. Um Natal laico, de presentes e alegria.

Fora o fato de que foi a partir dali que se passou a dizer "Merry Christmas", em inglês. E fora o fato de que 'scrooge' hoje está dicionarizado como sinônimo de 'avarento.'

Não é pouca coisa.

Mas mesmo que se queira contestar esse eventual papel 'fundador' de Dickens, Um Conto de Natal continuará sendo o maior dos clássicos de um gênero que, na verdade, ele inventou. Com esse texto, Dickens percebeu o potencial, digamos, mercadológico das narrativas de Natal e, nos anos seguintes, publicou outras histórias (The Chimes, The Cricket on the Hearth, The Battle of Life, The Haunted Man and the Ghost's Bargain) para tentar igualar aquele primeiro sucesso de vendas.

Capitalizar mesmo.

Mais ainda, Um Conto de Natal continua sendo a mais adaptada, citada, filmada e recriada de todas as histórias de Natal. Da versão de 1983, com o Tio Patinhas (que se chama Uncle Scrooge, em inglês), e que muitos de nós assistíamos na Disneylândia em sucessivos meses de dezembro, até Os Fantasmas de Scrooge, animação com Jim Carey que chegou aos cinemas em 2009, a obra já foi adaptada como teatro, ópera, oratório, filme, peça de rádio, e sei lá mais o quê. São mais de cem versões, tributos e paródias nesses cento e poucos anos.

Os famosos fantasmas dos Natais passados, presentes e futuros ainda parecem ter muito o que nos dizer.

O sucesso e a influência da obra de Dickens só encontrariam um rival (e põe rival nisso!) quando a imaginação aloprada de Theodor Geisel, mais conhecido como Dr. Seuss, inventou a figura do Grinch.

O monstrengo esverdeado criado por Seuss, possivelmente o mais brilhante autor infantil a surgir depois de Lewis Carroll, representava toda aquela tristeza natalina, mas agora assumida como ressentimento, encarnada em mesquinharia. Porque o Grinch, ora bolas, quer acabar de uma vez com a festa em Como o Grinch Roubou o Natal, de 1957.

Ele quer é que ninguém mais seja feliz.

(Isso, claro, até se ver tocado pela sinceridade dos pequenos Quens - de onde vem o nome da banda The Who, aliás - e se converter à celebração, gesto que é prontamente acolhido e coisa e tal...)

Se em Dickens tínhamos o avaro que se convertia à caridade num processo em que o instrumento da conversão era tanto a piedade quanto o medo, o puro e simples medo de morrer sozinho, em Seuss é o ressentimento que se converte em aceitação. E o que opera a conversão é agora a curiosa descoberta de que, apesar de ele ter roubado todos os presentes e os enfeites de Natal, os Quens continuaram celebrando o 'espírito' da festa da mesma maneira.

O roubo do elemento material era insuficiente.

O Natal estava mais forte 113 anos depois de Dickens.

Ou éramos, com Seuss, apenas mais ingênuos.

E toca, de novo, adaptar o clássico. Dezenas de vezes, das quais as mais famosas terão sido a animação de Chuck Jones em 1966 (que tipo todo mundo já viu) e, curiosamente, o filme O Grinch, de 2000, com o mesmo Jim Carey.

Estranho...

Agora, tudo bem, esses são dois casos de textos que não apenas tematizam o Natal como se constroem integralmente como comentários, como glosas da festa, do tempo, do dia e do dito espírito natalino.

São textos de Natal e textos para o Natal.

Mas aquela situação toda, aquele potencial todo, toda aquela simbologia de renascimento em meio à morte (a festa do solis invictus era parte das celebrações do solstício de inverno no hemisfério norte), de redenção em meio ao caos (o nascimento do Salvador, o nascimento da caridade e do amor...) curiosamente não gerou a tradição de literatura de tempos de Natal que se podia esperar.

Quer dizer, gerar, até gerou. Mas parece que foi pouco.

No mundo estritamente natalino, fora do campo das memórias de infância (A Child's Christmas in Wales, grande sucesso de Dylan Thomas) e dos textos efetivamente voltados para as crianças (Cartas do Papai Noel, de J.R.R. Tolkien, aquele mesmo, de O Senhor dos Anéis, lançado agora pela WMF Martins Fontes), ainda a literatura fica a dever.

Estranho...

Uma das razões para isso pode ser o fato de que o tal culto pleno como o vemos hoje é tremendamente recente. Afinal, o Papai Noel que nós concebemos nos nossos dias parece ter nascido em 1902! E também num livro: The Life and Adventures of Santa Claus, escrito por L. Frank Baum, mais conhecido como o criador do Mágico de Oz.

Um outro motivo para essa relativa escassez pode bem ser a recusa de uma parcela mais radical do mundo protestante (fonte de grande parte da literatura canônica do último século), que parece ter tratado com certa desconfiança essa celebração dos papistas.

Agora, a não centralidade de um imaginário definitivamente voltado aos temas cristãos específicos do Natal não impediu outras tradições de se apropriarem daquilo que a temática natalina tem de mais "ecumênico", num processo que, afinal, retoma a secularização da festa (e a própria criação da "festa") operada lá desde Dickens. A família reunida, as tensões à flor da pele, a emotividade despertada, para bem e para mal, a troca de gentilezas e de farpas, o símbolo da reunião anual de renascimento... mas renascimento de quê?

Nos Estados Unidos, por exemplo, o culto do Dia de Ação de Graças praticamente oblitera as temáticas natalinas e, este sim, rendeu pilhas de livros e filmes centrados naqueles mesmos temas, na ideia da reunião das famílias, nas revelações provocadas pela volatilidade emocional da festa e da congregação.

Em certas outras partes, a Festa da Epifania (o Dia de Reis do nosso calendário) continuou por muito tempo a ser a data central dessas reuniões e celebrações. E é dessa tradição que surge um conto como Os Mortos, de James Joyce (brilhantemente adaptado por John Huston em seu último filme, Os Vivos e os Mortos), que triunfa como muito poucas obras na exploração dos temas da solidão, da revelação, do renascimento e da morte.

Do Grinch para cá, John Lennon nos deu Happy Xmas War is Over..., regravada por deus e o mundo.

Bob Geldof e Midge Ure fizeram Do They Know it's Christmas?

Ainda antes disso Irving Berlin tinha inventado a lindíssima White Christmas (que o Guinness diz ser o compacto mais vendido da história da música, e que entre nós virou "lá.... fora a neve cai... Sinos...").

O cinema nos deu duas versões de Milagre na Rua 34 (a primeira, significativamente, traduzida no Brasil como De Ilusão Também se Vive) além de incontáveis outras estórias infantis e de um clássico como A Felicidade não se Compra, de Frank Capra.

E nesse período todo, no entanto, mesmo no campo das fábulas e parábolas, a única obra mais recente a rivalizar com Seuss não é um livro, um conto, ou um poema, mas provavelmente outro filme, o bizarro e belo O Estranho Mundo de Jack, de Tim Burton, que não deixa inclusive de ser uma reelaboração do mesmo tema, da mesma ideia... Uma reinvenção formal.

Já no campo da literatura propriamente dita (cinema é meio literatura, não?), com exceção de poucas obras isoladas (aquele conto de Cheever, um outro de Gogol, alguma coisa de Chekhov), não surgiu tanta coisa. A não ser que você inclua O Natal de Hercule Poirot, de Agatha Christie, que, apesar de contar com a devoção deste que vos escreve, está longe de ser uma unanimidade nos altos círculos literários. Ou o anticlimático Esquecer o Natal, de John Grisham.

Entre os livros, o Natal continua parecendo uma época meio triste. Um tempo de certa carestia em meio à abundância...? Uma data de que apenas a cultura pop, mais etimologicamente católica, soube se aproveitar com plena fertilidade?

Continua sendo algo estranho...

Mas, quer saber?, em todos aqueles clássicos aquela época feliz acaba imperando, acaba vencendo. Scrooge quer ignorar e não consegue. O Grinch quer derrubar e cai de quatro.

Em vez de reclamar, então, fique você com uma algo otimista afirmação do espírito natalino, retirada de um outro grande clássico moderno.

"Vamos só dizer que nesse dia, milhões de anos atrás, nasceu um carinha que uma galera acha que era superespecial. Mas também tem quem não ache, e não tem problema. Mas a gente provavelmente está certo. Amém." Homer Simpson

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