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Uma temporada no inferno

O ilustrador Eric Drooker fala de sua colaboração com o poeta Allen Ginsberg na graphic novel 'Uivo', a versão em HQ do poema que instaurou uma nova era na literatura dos Estados Unidos

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2012 | 22h00

Corria o ano de 1988, e a vizinhança do Lower East Side de Manhattan se reuniu para protestar em Tompkins Square Park contra o desemprego, a guerra, o consumismo, a falta de perspectivas sociais. Começaram a aparecer pelos postes, muros, orelhões e extintores da região pôsteres de apoio às reivindicações que chamaram a atenção do poeta Allen Ginsberg. Ele começou a arrancá-los e colecioná-los. Achava que tinham uma curiosa sintonia com obras que evocavam sua infância, ilustrações de livros dos anos 1930, romances de Frans Massereel e Lynd Ward.

Um dia, descobriu que conhecia o artista dos postes, Eric Drooker, seu vizinho ali na East 10th Street - a mãe de Drooker, muito mais novo que o poeta, os tinha apresentado em um ônibus quando ele contava apenas 9 anos. Viraram amigos e Ginsberg o convidou para ilustrar Poemas Iluminados (Illuminated Poems, 1996), que continha o seu mais famoso trabalho, Uivo, de 1955. Planejavam outras colaborações, mas Ginsberg morreu em 1997.

Em 2010, Hollywood resolveu fazer uma versão de Uivo para o cinema, e os produtores foram até Drooker pedir que ele criasse uma sequência de animação do poema que servisse de guia para o filme. O resultado tornou-se a graphic novel Uivo (Editora Globo), que está sendo lançada agora no Brasil e já é best-seller nos EUA. É uma versão com certo cuidado didático, às vezes até excessivo, e com cores mais “domesticadas”.

“Naquela época, era OK ser mais literal”, disse ao Estado, em entrevista por telefone, o ilustrador Eric Drooker, falando de sua casa em Berkeley, Califórnia. “Mas a maior parte do tempo eu tentei ser metafórico, embora buscando sempre não causar uma distração do poema. Quis criar algo com o mesmo sentimento, a mesma vibração; não se trata simplesmente de ilustrar, mas de abrir outras dimensões. Entendo que a ilustração pode ajudar a dar uma compreensão mais profunda do poema.”

Segundo o ilustrador, “na maior parte” da versão cinematográfica de Uivo sua animação é boa, mas outra parte (feita na Coreia) não ficou tão entusiasmante, embora ele diga que entende o resultado. “O problema é que uma animação cinematográfica requer muita gente, um estúdio inteiro, e lida com outros conceitos de iluminação e movimento. É um arte de outra natureza, é colaborativa. É como ser um músico numa banda.”

Allen Ginsberg enxergava na obra de Drooker uma relação com as denúncias gráficas que caracterizaram a arte da República de Weimar. “Ele via paralelos com o desemprego, o nacionalismo, os problemas sociais, a escalada antissemita, que hoje é dirigida também ao islamismo. Havia muitos paralelos com o que vivíamos naquele tempo e vivemos de forma muito mais catastrófica agora.”

Drooker veio da arte de rua (num tempo em que os expoentes eram apenas Basquiat e Keith Haring) e continua de olho no que ela pode proporcionar de democratização e politização da atividade artística. “Creio que a arte de rua atual é um tanto fraca. Gosto de Banksy, porque ele tem um conteúdo social, é inteligente e faz crítica social forte. Mas, no geral, apesar de ser uma poderosa forma de arte, o que se vê hoje é pouco contundente.”

Para Drooker, o movimento Occupy, que carreia legiões de jovens há mais de seis meses para as ruas dos centros das principais cidades do mundo, tem se tornado um pretexto interessante para o ressurgimento de uma street art de respeito. “É uma continuação daquele tipo de movimento de protesto, que torna desconfortável a vida dos atores da opressão quando se aproxima deles. É um evento muito inspirado e encorajador. Por meio dele, a arte de rua está de novo se tornando importante.”

Em seu estúdio, em Berkeley (após a vida toda em Nova York, mudou-se para longe, como Will Eisner), Drooker continua preocupado com as demandas sociopolíticas do mundo. “Vejo tudo que está acontecendo como sinais de avisos em minhas pinturas. A crise econômica na Grécia, na Espanha. Acho que é preciso estar atento ao nascimento de um novo fascismo, seja na Europa ou no Oriente Médio. Os governos usam as crises como pretexto para atentar contra direitos, como assistência social, médica, educação, tudo com a desculpa da austeridade.”

Três meses antes de morrer, o poeta Allen Ginsberg ligou para o amigo Drooker e o convidou para jantar. Depois, foram ao apartamento do escritor em Nova York e Ginsberg lhe falou de uma descoberta recente, a obra O Triunfo da Morte, de um mestre do século 16, Pieter Bruegel the Elder.

“Ao morrer, Ginsberg teve muita atenção da mídia. Foi primeira página do New York Times. Mas foi a vida toda controverso, crítico do governo, do consumismo, das políticas ambientais. Isso o colocou para sempre nas listas negras, ao mesmo tempo em que o tornou famoso”, conta o ilustrador.

O Uivo de Allen Ginsberg ressoou pela primeira vez em 7 de outubro de 1955, quando um grupo de jovens escritores americanos se reuniu para uma leitura de poesia num galpão de São Francisco (a lendária Six Gallery, uma oficina mecânica transformada em galeria de arte por jovens discípulos de Mark Rothko). Entre os poetas daquela noite estavam, além de Ginsberg, Gary Snyder e Michael McClure. O escritor Jack Kerouac, da plateia, gritava incentivos aos poetas. Ginsberg leu pela primeira vez seu poema Uivo, que mudaria a face da poesia americana moderna.

“Ginsberg é ao mesmo tempo trágico e enérgico, um gênio lírico e um antagonista extraordinário, provavelmente a maior influência individual na dicção poética norte-americana desde Whitman”, disse Bob Dylan.

Além da poesia, sua influência foi fundamental para aquilo que ficou conhecido como Geração Beat, poetas, escritores e intelectuais que rompiam com regras acadêmicas, publicavam em revistas próprias, vadiavam pela América de carona, moravam de favor e viviam de bicos com qualquer tipo de trabalho: carpintaria, mecânica, colheita de maçãs, poda de árvores.

Elogiado por gente como Art Spiegelman (Pulitzer de Literatura com Maus), Drooker concorda que seu trabalho é muito mais otimista do que a leitura que Ginsberg fez da sociedade. “O desafio não é só ser um grande artista, mas também ajudar a achar uma saída”, ele pondera. “Não é só dar uma dimensão exagerada à feiura e à violência, mas buscar o que de melhor a humanidade tem a oferecer”, acredita. E conclui: “Acho que essa é uma das funções da arte em qualquer cultura. A arte também pode ser feita com funções de maldade. Adolf Hitler achava que era um artista, usava a arte como parte da propaganda nazista. Mas era uma arte fria e alienada, não trazia inspiração. Eu não preciso de muito dinheiro, não quero ter helicóptero ou avião. O que me dá satisfação é relembrar, por meio do meu trabalho, que a vida vale a pena de ser vivida.”

TRECHO

“Batalhão perdido de debatedores platônicos pulando das sacadas das escadas de incêndio dos parapeitos do Empire State da Lua, tagarelando gritando vomitando sussurrando fatos e lembranças e anedotas e espasmos oculares e abalos de hospitais prisões e guerras, intelectos inteiros regurgitados em completa rememoração por sete dias e noites com olhos radiantes, carne para a sinagoga caída na calçada, que sumiram numa nada zen Nova Jérsei deixando uma trilha de obscuros cartões-postais da prefeitura de Atlantic City”

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