Metopera/Divulgação
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Uma tarde na ópera - e no cinema

Don Carlo, de Verdi, será mostrada hoje em 24 salas de 12 cidades brasileiras; em janeiro vai ser a vez de Puccini

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

No começo de dezembro, o baixo italiano Ferruccio Furlanetto preparava-se para subir mais uma vez ao palco do Metropolitan Opera House de Nova York e, caracterizado como Felipe II, encontrar-se com sua futura esposa, a herdeira do trono francês. Até aí, nada de novo: o monarca espanhol, retratado por Verdi na ópera Don Carlo, é um de seus grandes papéis - assim como o Metropolitan tem sido um dos palcos principais de sua carreira. A diferença é que, desta vez, além das quase 4.000 pessoas presentes no teatro, sua voz seria ouvida por centenas de milhares de espectadores espalhados por salas de cinema de todo o mundo.

A transmissão faz parte do projeto Met Live in HD, que nos últimos três anos movimentou o mundo lírico. A ideia é simples: ao longo da temporada, alguns espetáculos são transmitidos ao vivo para cinemas, multiplicando o público numa época em que teatros de ópera anseiam por maior espaço no cenário cultural. No Brasil, as transmissões já duram pouco mais de um ano, pelas mãos da LiveMobz, braço da Mobz especializado na exibição ao vivo nos cinemas de shows de rock, óperas e balés. Don Carlo, excepcionalmente, não foi transmitido ao vivo e chega hoje a 24 salas da rede Cinemark de 12 cidades do País; em janeiro, as transmissões voltam a ser geradas diretamente do Metropolitan, com La Fanciulla del West, de Puccini - e entre os destaques do primeiro semestre estão ainda óperas como A Valquíria, de Richard Wagner.

"As transmissões mudam muita coisa", diz Furlanetto, um dos principais cantores líricos da atualidade. "O risco da apresentação é muito maior, precisamos estar sempre prontos para uma grande performance ao vivo em um mundo de espetáculos acostumado à segurança do playback." Mas há algo maior em jogo, como sugeriu o diretor do Metropolitan, Peter Gelb, em entrevista ao Estado no começo do ano: a transmissão de certa forma é um passo adiante na redefinição da linguagem do espetáculo operístico, afinal, com tomadas arrojadas e apostas em closes, aproxima o espectador do que acontece no palco e exige maior cuidado na interpretação.

Política e sociedade. Isso é particularmente verdade em uma ópera como Don Carlo, que exige dos intérpretes não apenas força vocal, mas também talento na atuação cênica. Baseado na peça de mesmo nome de Schiller, o libreto se passa na corte do monarca espanhol Felipe II, "rei da metade do mundo" no século 16. Com personagens complexos e contraditórios, como o próprio rei, seu filho Carlo, o Grande Inquisidor, a nobre Eboli, a rainha Elisabetta e Posa, o marquês inebriado por ideias revolucionárias, que entram em choque a todo instante com seu senso de dever perante a corte, Don Carlo é uma história sobre a maneira como política e sociedade dialogam com os sentimentos mais individuais e recônditos do ser humano.

"A beleza e a dificuldade, a magia de todos os personagens de Don Carlo, de Felipe II a todos os outros, é encontrar o equilíbrio entre os diferentes aspectos de seus sofrimentos, alegrias, forças, fragilidades. Em especial quando levamos em consideração que a única ferramenta de que dispomos é a nossa voz e o alcance de seus coloridos", diz Furlanetto. "Com Felipe II acontece a mágica de uma música sensacional que Verdi usou para pintar o personagem, um texto de profundidade e o fato de que ele de fato existiu. Verdi oferece a possibilidade de trabalhar todos os muitos ângulos de alguém que foi o homem mais poderoso do mundo e, ainda assim, sentia dificuldade em lidar com obstáculos políticos, religiosos e sentimentais. No palco, o que vemos é a mistura de momentos de glória pública com outros de profunda solidão e depressão, o que é a marca do gênio de Verdi."

Além de Furlanetto, completam o elenco o tenor franco-italiano Roberto Alagna, como Don Carlo, a soprano russa Marina Poplavskaya (Elisabetta), a mezzo-soprano russa Anna Smirnova (Eboli), o barítono Simon Keenlyside (Posa) e o baixo Eric Halfvarson (Inquisidor). A importância que cada personagem tem na trama faz com que Don Carlo seja conhecida como a ópera dos seis personagens-título. Bem-humorado, Furlanetto concorda, mas apenas em parte. "Seria justo, na verdade, chamar a ópera de "Felipe II", mas, enfim, pobre de nós baixos, temos o defeito de não sermos tenores."

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