Uma sombra na parede amarela

Leia um capítulo de Seria Uma Sombria Noite Secreta, novo romance do premiado ficcionista pernambucano Raimundo Carrero, programado para sair no próximo ano pela editora Record

Raimundo Carrero, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Você estava lá? Não podia ter ido, não podia ter saído, não podia ir embora. A surpresa ficou na boca. Assim, suspensa. Toda surpresa é suspensa? Nem devia haver, uma surpresa não devia haver. O olho aceso ali, espiando. Coisa incrível a surpresa. E os olhos mirando, mirando muito bem.

Ela saiu do quarto, bela. Sair do quarto significava: deixar o inferno. Vestida num robe, é aquilo que se chama robe? O robe sobre a camisola, bem claro o robe, e azul, e tinha as pernas longas, longas e macias, não estava preparada para amar, não estava pronta para o amor, ela nunca estava pronta, aquela mulher ? o amor ficara para trás, o amor ficou na cama, entre lençóis e travesseiros. E não parou para presenteá-lo. O gesto que ela fazia sempre e que agora ele estava de boca aberta. Aberta e suspensa.

Uma mulher, Raquel era a chama da morte. Fulminante.

As mulheres se transformam em chama da morte quando ficam plenas de encantamento, tomadas pelo crepúsculo. Ele queria pensar, as palavras se formavam, dividido entre mulheres, chamas, morte. Melhor assim, uma palavra pronta, uma frase certeira. Crepúsculo? Sabia disso. Sabia disso repetindo, repetindo, repetindo. Crepúsculo, uma visão inquieta e triste. Plenas, as mulheres, plenas. E fascinantes. Sobretudo aquela, na verdade esta mulher que desce a escada, tão leve, uma pluma plena. Uma mulher.

Vinha, ela vinha naquele instante revestida de beleza, uma criatura real e imaginária, uma criatura a quem a noite torna ainda mais misteriosa e mais densa. Mesmo que tivesse de buscar luzes para defini-la. Luzes ou palavras? Sombras. Sempre, sempre diante dela a qualquer momento, mas naquela hora era como se o corpo anunciasse a armadilha de angústia, e que ele nem sabia o nome. Por isso mesmo recorria à sombra. E a sombra se estendia por todos os cantos da casa, cheia de surpresas.

Então ela abriu a porta.

Nunca, ela abriria a porta ? a porta, sim, a porta é que se abriria, não precisava sequer do toque das mãos. Você não viu, viu? A decepção ali na porta, resfolegando. Caminhou até a escada, segurava de leve, com os dois dedos delicados, delicadíssimos, a seda do robe azul à altura do joelho, robe de azul bem claro, cuja borda teimava em cobrir os pés. Os pequenos pés de Raquel. Pequenos, meigos, encantados. Para sustentar a roupa com os dedos longos precisou baixar a cabeça, mansa, acompanhando os movimentos dos braços e das pernas no começo íngreme da escada. E os cabelos negros, também longos e negros, se soltaram sobre os ombros, pelos ombros ? uma mulher toda entregue ao seu prazer e aos prazeres dos olhos.

Era o que costumava chamar de pássaro solitário, as asas abatidas, resplandecente, e ele feliz quando conseguia formular algum pensamento. Pássaro? É assim um pássaro? Um pássaro tem que ser Raquel, cujas asas estão sempre abertas em voo, abatidas e resplandecentes. Abatidas? Nunca entendeu mesmo o que era um pássaro, mas devia ter sempre as asas abatidas em direção ao crepúsculo, encantadoras, porque as pessoas falavam: abatidas. Por algum motivo, porém, era uma ave, uma ave velha, asas abatidas, resplandecentes, voando em direção ao crepúsculo, sangue vivo. A sensação de uma vida inteira. Sempre velha. Elegante, fina, discreta. Não uma velhice comum, a velhice que se encontra nas esquinas, nas ruas desertas ou melancólicas. A velhice que se pretende eterna. Sóbria. Amadurecida e eufórica. Como é que se diz mesmo? Pássaro solitário e ave velha. Tudo a mesma coisa. Tudo uma coisa só. Linda como um pássaro velho. Ave estranha e bela.

Deixar que ele ficasse de boca aberta e suspensa era uma decepção, se chama mesmo decepção?, ali em cima, quando ela desceu a escada, funcionou. É isso, é isso. Alvarenga ficou no chão, na ponta dos pés, bailarino inútil, a cabeça deitada, a boca aberta, os olhos inquietos. A decepção é a mancha de Raquel, não é? Sim, fica a mancha. Ela mesma, a decepção que por muito tempo trava na garganta, feito soluço. Disse mesmo soluço?, disse? A decepção corre pelo sangue, agita as dobras dos nervos, e aí ele percebeu que havia o olhar. Só um pouco, só rapidamente, e nunca mais esqueceria que a decepção é a forma ideal do amor. De pé, parado, suando: o que é que significa a forma ideal do amor? É assim que se diz? Conseguira um pensamento? Seria verdade?

Refeito, não demorou muito tempo para se refazer, sentiu que a dor provocada pelo gesto de Raquel ? ela não parou para colocar em sua boca o peixinho dourado de chocolate, e ele já estava na ponta dos pés, tão gordo, todo expectativa, expectativa e paixão, decepção e amor, o sangue inquieto nas veias ? o deixava envergonhado. Merecia ficar de boca aberta o resto da noite, todo o resto da noite para que as pessoas o vissem patético. Agora sentia a vontade de se humilhar. Não importa o que venha a ser a humilhação, não importa, restava o insulto de se humilhar. E a dor e a angústia estavam ali, respirando no seu rosto. Bem diante do nariz, da boca, do queixo.

Esperava o gesto, o peixinho dourado na boca, em agradecimento, e o que fez? O que ela fez? Tão encantada nos cabelos negros, negros e longos, iguais às pernas, semelhante às coxas banhadas pelo robe de cetim ? cetim? seda? opala? ? e semelhante aos dedos das mãos que levantavam o tecido nas pernas, à altura do joelho e descobriam os pés ? aqueles pés cheios de delicadeza, a delicadeza amparada pelas pequenas e leves sandálias. Seriam sandálias? E o que era aquilo que deixava os dedos de fora, e as tiras que cruzavam os pés? Ele podia ver, elas permaneciam expostas. Além das unhas pintadas, um esmalte que combinava com a carne, aliás, com a pele, a pele sutil de quem se veste de lã e pluma. Pássaro e ave.

Por que o deixara de boca aberta, esperando o peixinho, na ponta dos pés, expectativa e tensão, a barriga grande, o peito magro, o desejo, foca treinada?

Pesado, as pernas trêmulas, atônito. Daí que por um triz ela não chutava o rosto de Alvarenga. Jamais devia esquecer ? aquela marca no sangue ? que Raquel saiu do quarto, desceu a escada, no passo brando de mulher, embora apressada, e não falou com ele. E sem lhe dar a prenda, não podia esquecer, o peixinho dourado. O gesto repetido tantas vezes à noite; e às vezes ao dia. Ele esperara, ele esperara tanto, era assim que ela sabia agradecer e que lhe acostumara. Sempre lhe dava chocolate para agradecer o chamado dos homens. Prostituta de corpo social, ela era. Devia compreender desde cedo, desde muito. Não, compreender, não. Sem compreender. Mas amando. Amando sempre. Amando mais. Alvarenga tocava a corneta na calçada da pensão e os homens já sabiam que Raquel estava pronta, linda, para a noite de festa. E ela agradecia, sempre e sempre, com o presente de peixinho, que ele esperava com a ansiedade de bicho estimado.

Não devia, era ali que não devia estar para não ser vítima e testemunha da decepção, espantado. Não escutou mais. Nem nada. A radiola nas outras salas sumiu. O som quieto e o ruído do sangue subindo dos pés à cabeça, se alojando nos ouvidos, sempre zunindo, sempre. Alguma coisa a impulsionou, a porta, tinha certeza, a porta se abriu. Alvarenga gritou, gritou para dentro, na alma. O coração quase seguro com as mãos. O desfalecimento escorrendo nas sangue. Se pudesse ver-se, ele disse, se pudesse se ver era só um copo d"água. Por que um copo d"água? Hein? Raquel ria, gostava de ouvir. Um copo d"água? Talvez menos. Um homem devastado pela ansiedade e pela dor.

O que era? Só mais tarde, sentado no meio-fio com ela, a conversa fria da madrugada, do amanhecer, soube que Raquel ? não tivesse mágoa, não guardasse decepção, nem rancor, ouvia, sim ?, no instante da enlevação, corpos nus, sentiu o toque do sexo se aproximando, quase começando o amor, aquele amor de carne e carne, abraçados, a veia sangrando, a busca da fenda e os pelos, ia começar mesmo naquele instante, a mulher ouviu o apito do homem do doce de alfinim cruzando a noite. Bobagem. Que bobagem. Ele confirmou, entendeu esforçado, tem razão. Quem mandou o homem do alfinim tocar justo naquele instante? Naquela hora? No instante exato? Quem mandou? Ficou arrepiado, ele ficou mesmo arrepiado. Acreditava? Alfinim, repetiu, alfinim, a palavra descendo na baba. Você largou o homem, a cama, os lençóis, assim?

Era o que ela queria, o doce que mais ansiava, sonhos e lembranças, o dia inteiro na espera, o dia inteiro, sentiu o sabor nos lábios, na boca, na saliva. Era certo, não havia pensado no homem, não cabia, não era hora. Num salto já estava se livrando dele, que viera de corpo leve, lábios próximos dos lábios. Não percebeu quando ele se esparramou no colchão, talvez tivesse gritado, ela não tinha ouvidos. Naquela hora, não, naquela hora ela não tinha ouvidos. O homem do doce poderia sumir, ir embora. Raquel soltou os pés e, de verdade, nem percebeu a escada. Não havia percebido Alvarenga. Capaz? Inacreditável. Raquel via no rosto dele um sinal que se esforçava para decifrar: um riso, um sorriso, uma gargalhada?

Queria explicar, ela queria explicar, o pássaro velho e gasto, queria dizer que esquecesse, estava bem, pedia desculpa, mas não a olhasse, não com a boca torta.

Gaguejava um pouco, apenas um pouco, a palavra partida ao meio, e depois continuada, partida e continuada, não, não ia perder a chance, o doce entre os dedos lambuzando. Deixou o homem na cama, a pele arrepiada, nu e nua, ou quase, somente de calcinha na rua. Grandes, grandes eram os seios de Raquel, asas abatidas, agarrados na pele branca, rechonchudos. Alvarenga, não; Alvarenga não via. E moles, os peitos grandes, rechonchudos e moles de Raquel. Os peitos grandes que se espremiam entre o busto e os joelhos, enquanto conversavam no meio-fio, apertados pelos braços. Essa era a mania de Raquel, às vezes nem trazia o robe, quando a noite terminava, para uma conversa no momento em que as primeiras luzes do dia se moviam.

Depois a mulher voltou à pensão, ao quarto, para dormir, desconfiando que o riso de Alvarenga a acompanhava. Aquele riso, nunca mais queria pensar naquilo. Qualquer pessoa podia rir dela, qualquer um, ele não, não. Ridícula, estúpida, grosseira. Aquilo era um riso? De verdade era um riso? Escondeu a cabeça embaixo do travesseiro. Perguntava o que aquele rosto imenso fazia ali, um rosto de olhos cruzados, essa boca rindo, perto, parece que deitada na cama.

E ele só, apenas só, ainda sentado na calçada, soprando a corneta, imitando o sopro no bocal, feito criança que se enfeitiça com os lábios. Era brincadeira, pequeno som borbulhante, sem necessidade, sem necessidade própria, vontade, sem chamar homens, sem função, teria também que dormir, os olhos na lembrança de Raquel, tão bela e misteriosa, descendo as escadas protegendo os pés pequenos, as tiras das sandálias, a doce Raquel. Não devia estar ao pé da escada, não devia estar tocando, mesmo de brincadeira. Não, de brincadeira, sim. Ela também brincava. Devia ter sido brincadeira.

Ela podia ir embora. Até devia. Nem se importaria se corresse, sumisse. A ausência também é prazer, hein?

Agora sentia um tremor nas carnes: podia confessar ? ser esquecido por Raquel era também uma forma de felicidade. Queria estar feliz porque fora esquecido. Uma descoberta inquietante: até mesmo a ausência lhe provocava alegria. Era isso. Mais, mais ainda, se ela lhe esquecesse para sempre, para o nunca mais, ainda assim era felicidade. Tudo, absolutamente tudo lhe causava prazer. Inclusive a ausência.

É assim, não é?

Entrou também para dormir. E nem sequer tinha um quarto. Afastou a banca do jogo do bicho, deitou-se encostado entre a parede e o móvel, na entrada da pensão, ao pé da escada. Retirou o lençol que lhe servia de cama, embrulhando o travesseiro, sem saber de onde viera o travesseiro, tão antigo, tão velho, pouco importa, pouco, e se não tivesse um travesseiro também não sentiria falta. Estar ali, vigilante, guardando-a, estar ali sempre, e apenas isso. Sem lençol, sem travesseiro, sem nada. Sem ela, sim, sem ela. Para amá-la não precisava sequer da presença. Nada já era muito. Muitíssimo. Ainda que ela tivesse ido embora, que dissesse para não acompanhá-la, zangada, aquele pássaro de asas abatidas, pedindo que não viesse nunca mais, a ave velha, velha e gasta ? que diferença faz? ?, ainda assim, só pelo prazer de cumprir o pedido, ir e não voltar, ainda assim, mesmo, seria imensamente feliz, e ficaria guardando a ausência. Sem dúvida.

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