Uma simbiose com Manoel de Oliveira

O Gebo e a Sombra é o 19.º filme em que a atriz portuguesa Leonor Silveira é dirigida pelo cineasta Manoel de Oliveira. Mas, a julgar pelo rigor e pela originalidade da interpretação, parece ser a primeira. "Já é uma história de amizade que começou em 1987, quando estreei profissionalmente no cinema com Os Canibais. Desde então, criou-se uma simbiose, um acreditar entre nós dois", conta Leonor.

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2012 | 03h12

Ela veio à redação do Estado para falar sobre O Gebo e a Sombra, outro exemplo da vitalidade criativa de Oliveira, ainda na ativa aos 103 anos (completa mais um no dia 11 de dezembro). Um dos destaques da 36.ª Mostra, o filme se passa no século 19 e acompanha a triste rotina de Gebo (Michael Lonsdale) que, apesar da idade, continua trabalhando como contador para sustentar a família. Ele vive com a mulher, Doroteia (Claudia Cardinale), e a nora, Sofia (Leonor), mas é a ausência do filho, João (Ricardo Trêpa), que os preocupa. Gebo parece esconder algo em relação a isso, em particular a Doroteia, ansiosa de rever o seu filho. Sofia também espera pelo regresso do marido, ao mesmo tempo em que o teme, pois João esconde um passado obscuro - a sombra do título.

Inspirado na peça escrita por Raul Brandão, Manoel de Oliveira decidiu eliminar o terceiro ato ao escrever o roteiro. "Ele fez isso para ressaltar sua meditação sobre a condição da humanidade", comenta Leonor. De fato, Gebo é um homem cuja honestidade é constantemente testada ao manter em sua pobre casa altas somas de dinheiro, fruto das cobranças pelo qual ele é pago para fazer. "Ele vive a dualidade entre a honra e o dinheiro, e como isso pode influenciar o ser humano", acrescenta a atriz, que também trabalhou durante cinco anos no equivalente ao ministério da Cultura de Portugal.

Ao mesmo tempo, Gebo, embora não consiga oferecer conforto material para a mulher e a nora por conta do parco salário, ao menos busca oferecer um consolo psicológico por meio da mentira - ele não revela a Doroteia suas suspeitas em relação ao filho desaparecido, permitindo que ela viva em constante estado de expectativa com sua volta.

"Nesse aspecto, meu personagem equilibra as energias entre o pai, que alimenta a mentira por amor, e a mãe que não abandona o sonho da volta do filho. Sofia absorve todas as energias dos outros, que estão à volta do desencantamento da vida e surge como uma redentora diante das dificuldades, daquela violência constante pela briga pela sobrevivência."

Apesar de o filme contar com um elenco estelar (Jeanne Moreau tem uma notável participação), Leonor explica que o cineasta não faz distinções no elenco. "Costuma-se dizer que Manoel não dirige os atores - há uma marcação rígida em termos físicos, corporais, para que o elenco crie uma disciplina em relação ao texto e, em seguida, ele espera que os atores demonstrem suas reações diante daquela história", observa Leonor. "Manoel não é um diretor tradicional, que faz indicações precisas - ele apenas controla a dosagem da emoção, da tristeza."

A atriz reconhece que é uma forma particular de direção, mas o resultado sempre é espetacular. "Somos colocados em um espaço e automaticamente isso faz com que haja uma reação física, energética, em relação aos outros colegas e, de repente, o filme nasce."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.