Uma sátira do outro mundo

O humor sempre foi sofisticado nas peças do compositor e dramaturgo inglês Noël Coward (1899-1973), como se pode observar na montagem de Uma Mulher do Outro Mundo, que está estreando no Teatro das Artes. Com frases de efeito e um romantismo levemente cínico, o texto mostra as agruras de um casal que é atormentado pelo espírito da primeira esposa do marido.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2012 | 03h08

"É extremamente estimulante discutir as prepotências humanas, as crenças e descrenças em suas mais variadas formas e o sarcasmo com que o acaso pode nos levar a mudar completamente", comenta o diretor Alexandre Reinecke, habituado a lidar com grandes comédias.

Uma Mulher do Outro Mundo acompanha um famoso escritor, Charles Condomine (Jairo Mattos), que, ao lado da segunda mulher, Ruth (Lúcia Veríssimo), recebe uma médium, Madame Arcati (Iara Jamra), para jantar e realizar uma sessão espírita. A intenção de Charles é colher dados para um novo livro, mas o que ele não espera é que Madame Arcati realmente tem poderes, mas, atrapalhada, acaba convocando o espírito da primeira mulher de Charles, Elvira (Adriane Galisteu). Ela, claro, passa a infernizar a vida do casal.

E, ao tentar corrigir seu erro, a médium acaba piorando a situação, aumentando o caos.

"Nessa peça, o peculiar humor inglês de Coward nos leva a refletir sobre nossas relações, nossas religiões, enfim nosso 'status' como seres humanos em uma sociedade de aparências e interesses cada vez mais individuais e escusos", observa o diretor.

De fato, Coward - que também compôs canções clássicas como Poor Little Rich Girl (1923), I'll See You Again (1929), Someday I'll Find You (1930), 20th Century Blues (1931) e Mad About the Boy (1932) - exibia uma sofisticação crítica, especialmente ao satirizar o moralismo hipócrita dos ingleses (seu alvo principal) e a tendência das pessoas a se fazer passar pelo que não são.

A comédia foi escrita em 1941 e, desde então, vem recebendo inúmeras montagens - a mais recente, de 2009, fez sucesso em Londres e na Broadway onde, por sua atuação no papel de Madame Arcati, a atriz Angela Lansbury recebeu o Tony, o mais importante prêmio do teatro americano de melhor atriz daquele ano.

"O público é levado a muitas reflexões a cada cena que, de tão bem escritas, são ligadas por referências de nossas vidas e comunidades, onde sem que se dê conta e se divertindo muito, sementes de respeito mútuo e aceitação às diferenças serão lançadas em cada espectador", acrescenta Reinecke. O elenco brasileiro é completado por Dani Mustafci, como Edith a empregada, e o ator Marcio de Luca, no papel de Dr. Bradman, amigo da família.

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