Uma saída pela porta do banheiro

Com direção de Elias Andreatto e cenário de Carlos Moreno estréia nessa quarta-feira, no Teatro N.Ex.T a comédia Futilidades Públicas, com a atriz Patrícia Gaspar. Intérprete da Caipora na série Castelo Rá-Tim-Bum, Patrícia é também autora do texto, que flagra uma mulher presa no banheiro durante um assalto a banco.O recurso é simples e até bastante explorado na dramaturgia em suas diferentes variações. Um personagem retido por um motivo qualquer aproveita o tempo para falar de sua vida, permitindo ao autor explorar pequenos dramas e alegrias do cotidiano. No caso de Futilidades Públicas, o mote é abordado com a chave do humor. Se bem realizado, o gênero costuma conquistar imediata empatia do público.Premiada na Jornada Sesc 93 O Riso no Teatro, também sob direção de Andreatto, a peça foi reescrita para estrear no N.Ex.T. "Passaram-se sete anos, eu amadureci, o Elias também e o espetáculo ganhou em densidade", afirma Patricia, que tem outra peça no currículo, Aguadeira, também premiada em montagem dirigida por Vivien Buckup. "Não é a proposta do texto fazer uma profunda reflexão sobre a humanidade, mas tem humor e densidade, não é uma simples piada ", garante Andreatto. "A personagem fala da solidão nas grandes metrópoles, da busca de saídas para a mesquinhez do cotidiano, enfim, aqueles temas que, entra século sai século, continuam atuais. E a Patrícia é uma atriz muito interessante, com um grande domínio do humor."Opinião partilhada pelo consagrado ator Paulo Autran, que convidou Patrícia para integrar o elenco de O Dia das Mães. A peça do norte-americano Jeff Baron, mesmo autor do sucesso de público Visitando O Senhor Green, estréia em março, sob direção de Autran, no Teatro Faap. Até lá, o público pode conferir o talento da atriz, no N.Ex.T., onde Futilidades Públicas será apresentada toda quartas-feira, forma que ela encontrou de conciliar os ensaios com Autran e as apresentações do monólogo.Nele, Patrícia interpreta uma mulher de 38 anos, que vive sozinha. O motivo de sua ida ao banco no momento do assalto não podia ser mais prosaico: ela recebera um aviso de que o seu cheque especial havia sido cortado por insuficiênica de saldo médio. "A gerente diz que ela não tem potencial para ter estrelas; danada da vida, a moça vai até lá reclamar pessoalmente e acaba presa no banheiro, mais uma vez solitária."Ali, tudo o que ela quer é encontrar uma saída. "Quando um ser humano está confinado acaba sempre por investigar a si mesmo." É o que faz essa personagem, para, no fim, descobrir que existem coisas mais importantes do que ter estrelas no talão de cheques. "Ela é muito maior do que a vidinha que leva", diz Andreatto. "Acho que todo ser humano tem um mundo interior, pleno de poesia e fantasia, que muitas vezes não é descoberto por falta de tempo ou até de coragem", argumenta a autora.Fantasia - Embora tenha sido escrita muito antes do polêmico filme de Lars Von Trier, Dançando no Escuro, curiosamente a personagem criada por Patrícia tem algo em comum com a protagonista do filme interpretada pela cantora Björg. A personagem do filme, apaixonada por musicais, imagina coreografias como válvula de escape. Em Futilidades Públicas a persongem faz o mesmo com a música. "Diante de qualquer situação de angústia, como a que vive no banheiro do banco, sua reação é cantar músicas que a transportem para outro lugar."A trilha sonora do espetáculo é rica, vai do chorinho ao jazz, passando pela bossa nova, mas não há play back. Todas são interpretadas a capela - e bem interpretadas - pela atriz. "Isso é autobiográfico. Eu não consigo ir de casa ao supermercado sem uma música na cabeça. Mas é claro que exagerei bastante ao criar o texto."Futilidades Públicas. Comédia. De Patrícia Gaspar. Direção de Elias Andreato. Espetáculo-solo com Patrícia Gaspar. Quartas, às 21 horas. R$ 15,00. N.Ex.T. Rua Rego Freitas, 454, tel. 259-2485. Até 28/2. Estréia na quarta.

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