Uma ruptura na modernidade

Sociedade de Risco, do pensador alemão Ulrich Beck, discute reconfiguração no plano social

Maria Helena Oliva Augusto, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Deve ser saudada a edição brasileira de Sociedade de Risco, apesar do longo período que a separa de sua publicação em alemão, em 1986! Trata-se de uma já clássica reflexão sobre as características atuais da vida social no ocidente. A atualidade das questões apresentadas e a forma vigorosa e séria com que são debatidas, ao lado de estimularem a discussão, exigem considerações atentas e tomadas de posição consequentes a respeito.

Baseado em escritos de outros autores e em observações colhidas em seu país de origem, ainda dividido pelo muro que viria a cair três anos mais tarde, Ulrich Beck focaliza temas relevantes, referentes a processos inicialmente mais perceptíveis nos centros de maior desenvolvimento, cuja discussão central, na medida em que se amplia o âmbito da globalização, oferece em intensidade crescente pistas para a compreensão de questões importantes também para países como o Brasil.

Sustenta estar em curso uma ruptura no interior da modernidade, dando origem a outra configuração social, a "sociedade (industrial) de risco", em que a ideia de risco refere-se à "forma de lidar com os acasos e inseguranças induzidos e introduzidos pela própria modernização". Seu resultado é uma sociedade catastrófica, na qual o estado de exceção ameaça converter-se em normalidade.

Afirma ainda que, ao lado da crescente capacidade de opções técnicas, ocorre a ampliação da dificuldade de cálculo quanto às consequências ameaçadoras que seu uso pode provocar, envolvendo perigos - invisíveis, imprevisíveis e irreversíveis - que atingem toda a humanidade, como a fissão nuclear ou o estoque de lixo radiativo, e ameaçam as condições naturais da vida no planeta em todas as suas formas.

A partir desse argumento central, os vários capítulos focalizam domínios diversos, cuja dinâmica atual incide sobre as visões de realidade e as normas de conhecimento: o desenvolvimento da ciência e da técnica e suas consequências, envolvendo modificações e tensões na compreensão e entendimento do significado da racionalidade; as alterações presentes na política e na vida pública, que abarcam as estruturas de poder e de influência e atuam nas formas de repressão e de participação políticas; as mudanças nas características da sociedade e nas biografias das pessoas; as transformações profundas na organização e nas relações de trabalho, as questões envolvidas na nova configuração da vida privada, que abrangem a posição feminina, as relações conjugais e a vida em família, as transformações nas caracterizações de gênero, nos estilos de vida e nas formas de amor. Como pano de fundo ressalta a ameaça ao meio ambiente e a possibilidade (iminente) de sua destruição.

Todas essas mudanças, do ponto de vista de Beck, conduzem à suspensão dos fundamentos que até então sustentavam a vida social e à dificuldade de utilização de categorias com as quais o mundo era olhado habitualmente, entre elas espaço e tempo, trabalho e ócio, empresa e Estado nacional. Do mesmo modo, ainda que permaneça a desigualdade social, tornam impossível abarcar e conceber a dinâmica societária em termos de classe. Fronteiras e diferenças sociais são relativizadas, na medida em que, dentro de seu raio de alcance e entre as pessoas por ele afetadas, os riscos produzem um efeito equalizador - em prazo menor ou maior, todos são (serão) atingidos por seus efeitos.

A maneira como essa nova dinâmica interfere na compreensão sobre o processo de individualização deve ser destacada. Se as mudanças operadas na e pela sociedade de/do risco são tão profundas, como indica o autor, isso significa que, por esse processo, a compreensão do mundo e da vida já não é o mesmo, provavelmente tendo sido atingidos os próprios conteúdos qualificadores do ser humano. É necessário considerar, todavia, que "individualizar" nem sempre significa tornar individuado, singularizar, emancipar, formar a personalidade.

Aliás, são ambíguas as condições gerais desse processo: ao mesmo tempo em que libertam e apresentam oportunidades de crescimento, tornam a autonomia individual crescentemente impossível. A individualização é intensificada, mas também está presente um destino coletivo associado à ameaça, no interior do qual se nasce e do qual nem todo esforço permite escapar, confrontado por todos de modo similar. Nesse contexto, dificilmente a possibilidade de escolha individual se sustenta.

O reconhecimento de todos esses percursos não leva, porém, o autor a sucumbir diante deles, nem a apresentá-los em tom fatalista - é perceptível um incitamento à ação, no sentido de que, tanto no âmbito da ciência quanto na esfera da política o reconhecimento da conjuntura implique a busca por sua transformação.

Como diz Marco Aurélio Nogueira nas capas internas da edição brasileira, "o convite feito nesse livro luminoso e contagiante não se dirige aos que pensam que o mundo está acabando, mas aos que sabem que a vida segue, sempre".

Uma observação. De modo geral, a tradução permite perceber a riqueza e os detalhes da reflexão do autor. Entretanto, há passagens que apresentam diferenças em relação às versões em inglês (Sage, 1992) e espanhol (Paidós, 1998), às vezes positivando (ou negativando) o que nessas versões aparece negativado (ou positivado). Essas diferenças sugerem a conveniência de que, para as próximas tiragens, o texto seja revisto. Da mesma forma, a utilização reiterada de neologismos, que poderiam ser substituídos por palavras já existentes acabam prejudicando a fluência e a beleza literária do texto.

MARIA HELENA OLIVA AUGUSTO É PROFESSORA DO DEPTO. DE SOCIOLOGIA DA FFLCH-USP

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