Uma revisão da arquitetura total

Niemeyer criou, sem dúvida, uma obra intuitiva e humana, porém autossuficiente, que, em vez de coexistir com a arte, a esconde

SHEILA, LEIRNER, CRÍTICA DE ARTE, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h11

Artigo

Conheci Oscar Niemeyer em 85 quando o acompanhei na visita que ele fez à 18.ª Bienal de São Paulo. Este mesmo jornal publicou meu artigo por ocasião da grande mostra dos seus 70 anos de projetos arquitetônicos na Galeria Nacional do Jeu de Paume em Paris (5 de fevereiro de 2002). Porém, não é sobre o mestre que eu gostaria de escrever neste momento em que ele nos deixou. A sua biografia, legado, ideologia e postura ética já foram bem e suficientemente analisados e descritos. Na verdade, gostaria de refletir hoje sobre a visão que, acredito, ele tinha da arte e portanto também da arquitetura.

A arquitetura, sobretudo a grande arquitetura, assim como certas artes "totais", é complexa. Quem sabe mais intricada do que o cinema, com o qual ela divide a posição de "arte total" do século 20, e o qual já no expressionismo alemão em 1919 (com O Gabinete do Dr. Caligari) atingiu o apogeu da direção "absoluta". A arquitetura é a "arte total" do século 20, da mesma forma como o foram, nos séculos 13 e 14 as visões "acessíveis a todos os sentidos", como as de Dante ou, mais tarde, as manifestações do renascimento com Leonardo da Vinci e depois Galileu. Igual ao teatro e à dança no século 18 (basta lembrar as representações megalômanas de Luís XIV em Versalhes), e a ópera no século 19, com sua função totalizadora, a Gesamtkunstwerk. A música wagneriana estava lá para provar.

A arquitetura contemporânea é herdeira da ideia investida por Apollinaire e pelos futuristas, do "homem total" inventado pelos dadaístas e do manifesto da Bauhaus, em 1919 (onde Gropius volta à carga do Gesamtkunstwerk). Foi a art déco e não a art nouveau que desempenhou, então, o papel de arte total. Em 1920, Kurt Schwitters estendeu à arquitetura, ao teatro e à poesia a sua concepção de "arte total Merz". Realizou a imensa "Coluna Schwitters" de gesso que invadiu pouco a pouco todos os espaços e andares de sua casa, a famosa Merzbau.

No século 21, é na internet que, com a mesma complexidade, também começam a se desenvolver essas expressões. Afinal, na história da humanidade, os homens sempre perseguiram a utopia de juntar todos os campos do conhecimento em um só. Por isso, a arquitetura - não apenas nunca está inteiramente ao nosso alcance, como também jamais é completamente fundada na coerência, na "perfeição", de suas partes. Mesmo que, paradoxalmente, esses campos de conhecimento não pretendam ser compartimentos estanques, uma vez que a arquitetura é justamente a arte da interação, interligação, interdependência, interinfluência e interdisciplina.

Logo, não é de nos admirarmos que o caminho de Oscar Niemeyer tenha sido cercado de controvérsias e que a sua própria figura pareceu às vezes contraditória. Para ver a obra de Niemeyer, só os arquitetos têm à sua disposição um instrumento fundamental, criado a partir da bagagem e experiência deles. Possuem a interface, ou seja, o dispositivo lógico que faz a adaptação entre todos os sistemas, desde os técnicos, materiais e estruturais até os estéticos. Para os não arquitetos, Niemeyer foi apenas o grande escultor do espaço que rompeu com os ditames dos ângulos quadrados, alguém que enriqueceu o patrimônio artístico do mundo. O que não é pouca coisa. E para os escritores ou filósofos de esquerda, Niemeyer - falecido aos 104 anos - desmente a velha crença de que a ética, a ideologia e o gosto pelas revoluções, a igualdade e os mundos melhores, passam com a idade.

Mas, infelizmente para Niemeyer, não existem apenas os escritores, artistas e filósofos simpatizantes, o público comum e os arquitetos. Há também os críticos de arte e os museólogos. Estes poderão se interrogar se ele realmente amava, respeitava e sobretudo conhecia a arte que a sua "arte total" às vezes abriga. Ou, se, talvez, rivalizava com ela. No livro de Jean Petit, Niemeyer, o Poeta da Arquitetura (Fundação Lina Bo e P.M. Bardi), o mestre afirmou que se sentia atraído pelo desafio da forma desde muito cedo: "Antes mesmo de ser arquiteto, eu já pensava em talhar esculturas no concreto armado. Sempre me senti atraído, desde jovem, pelas esculturas gregas e egípcias, a Vitória de Samotrácia; gosto das obras de Henry Moore e Hepworth, da pureza de Brancusi, das belas mulheres de Despiau e de Maillol, das figuras esguias de Giacometti".

Alguns poderão se indagar o que fazem, então, artistas como Ceschiatti e Peretti na "decoração" medíocre dos templos niemeyerianos. Por mais que, com algum esforço (não nos "anjos volantes", naturalmente), Ceschiatti se aproximasse de Maillol. Não lhe deitam sombra? Outros se perguntarão o que significam certos ingredientes tão literais, propagandistas, piegas e de mau gosto como os que estão sobretudo nos monumentos e memoriais. Outros ainda poderão se surpreender com o museu de Niterói que, em vez de revelar a arte, a esconde e esmaga ou simplesmente a ignora, desvelando apenas a paisagem. Pode a arquitetura se impor com a autossuficiência de uma escultura, recusando as regras básicas da museologia e a ética da neutralidade de um abrigo? Artistas podem fazer museus?

Neste ponto Niemeyer se aproximava de muitos de seus colegas que não compreenderam um dos axiomas fundamentais dos grandes conservadores de hoje, segundo o qual "um museu de arte é um edifício para o qual não há modelo arquitetônico". Assim como Frank Gehry (Guggenheim de Bilbao), Richard Meier (Museu de Arte Contemporânea de Barcelona), Pei (Art Institute de Boston, para citar apenas um exemplo), Hans Hollein e outros, ele produziu esculturas que se impõem como "modelos" tradicionais rígidos e esmagadores, interferindo na leitura e na percepção das obras do acervo. É bom lembrar aqui que uma "obra de acervo" pede um tratamento diverso ao da "obra de exposição", que é aberta à prática curatorial e portanto a um espaço crítico livre.

Ao contrário de Shigeru Ban e Jean de Gastines, autores do Pompidou/Metz, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, arquitetos do imponente Louvre/Lens, Adrien Fainsilber que desenhou o MAMC de Strasbourg ou de Steven Holl, que também cria esculturas extraordinárias como o museu Kiasma em Helsinque (visitei estes museus recentemente), Oscar Niemeyer não resolveu o dilema contemporâneo do "Fórum x Templo". A sua arquitetura é sem dúvida fenomenológica, intuitiva e humana, porém, quando ela se mistura com a arte, as atividades públicas coletivas infelizmente não coexistem com o silêncio necessário para a contemplação individual.

Como é que um arquiteto que não gosta, compete ou não compreende profundamente a arte, além de ser um mito, pode ser um "arquiteto total"?

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