UMA RELIGIÃO POPULAR

O Jardim das Folhas Sagradas, do diretor baiano Pola Ribeiro, consagra o candomblé como seita democrática

O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2011 | 03h06

Em seu O Jardim das Folhas Sagradas, o diretor Pola Ribeiro realiza uma interessante imersão no universo místico do candomblé. Pola poderia ter feito um documentário. Preferiu a ficção para discutir um tema interno ao candomblé, a necessidade (ou não) de sacrifícios animais em alguns rituais. De certa forma, seu herói, Bonfim, prega um candomblé ecológico e preservacionista. Vegetal.

Um dos trunfos do filme é justamente a escolha deste protagonista, Bonfim (Antônio Godi). Um homem dividido, que hesita entre dar prosseguimento a uma promissora carreira como especialista em informática em um banco ou desenvolver seus dotes para o candomblé.

Bonfim é mesmo um ser heteróclito, que atende a muitos chamados divergentes. Tem um grande amigo, Castro (João Miguel), bastante íntimo. Negro, é casado com uma mulher branca, que se torna evangélica e procura converter o marido. Naturalmente, ela acha que candomblé é coisa do diabo. Bonfim tem também um mentor, com quem chega a se desentender, mas que continua a ser seu bom conselheiro, o mais experiente Martiniano (Harildo Dêda).

Essa, talvez, seja a principal discussão levada pelo filme. A dificuldade (que, parece, existe até mesmo na Bahia) em se aceitar o candomblé como uma religião e não como um exotismo de base popular. Nela, o candomblé aparece com sua faceta democrática, avessa ao proselitismo, aberta ao outro. É o aspecto mais bonito do filme.

Ao lado dele, há belos momentos de filmagem que mostram um Pola inspirado, colocando em prática seus mais 30 anos dedicados ao cinema (com muitos curtas no currículo), embora este seja seu primeiro longa.

Nem tudo funciona tão bem. Alguns diálogos parecem didáticos demais, como se a narrativa parasse e fizesse um parêntese para deixar claras as coisas para o espectador. Atravanca o andamento e às vezes corta o barato, se a expressão for cabível neste caso particular. Em outras sequências é o elenco que parece apresentar desníveis de interpretação. Por fim, falta ao conjunto a pulsão que se nota em alguns momentos isolados.

Apesar desses reparos, sobra a O Jardim das Folhas Sagradas o frescor que não se vê em produções mais quadradinhas do cinema nacional, sem erros mas também sem nenhum acerto. Jardim tem seus altos e baixos. É irregular; no entanto produz alguns momentos de pura poesia cinematográfica, inclusive em seu desfecho, aberto, ambíguo e que, de certa forma, nega o didatismo vistos em suas partes mais fracas.

O fato de ser a estreia em longas de um diretor maduro, e que o projeto tenha levado 11 anos para se concretizar, explica (mas não desculpa) também o desejo de colocar tudo no mesmo saco, como se não houvesse um amanhã.

A inspiração inicial do filme o resgata dessa ansiedade. E fica-se esperando por uma produção baiana com certa continuidade para que a angústia de resolver tudo em um único filme seja esquecida e exorcizada. Num ritual propício. Axé.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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