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Uma relação muito delicada

Drama familiar que vem sendo gestado desde 1996, resulta em filme ambíguo e desconcertante

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2011 | 00h00

No início, era um projeto do produtor Jean-Louis Livi, que o encaminhou para Jacques Audiard, bem antes de O Profeta. "Jean-Louis havia lido o artigo de Emmanuel Carrère em L"Événement du Jour. Je la Recherche, Je la Tue, Je l"Aime ou La Disparition de la Mère. Ficou tão impressionado que convocou Jacques para fazer a adaptação. Isso foi em 1996 e o projeto foi sendo empurrado. Depois que Jacques desistiu, envolvendo-se em outros filmes, Jean-Louis pensou em meu pai e foi Claude (Miller) quem me convidou para escrever Feliz Que Minha Mãe Esteja Viva com ele."

As informações são prestadas por Nathan Miller, que, de corroteirista, passou a codiretor, assinando o filme que estreia hoje com seu pai. Nathan desfia essas histórias num encontro com o repórter em janeiro, em Paris, durante o tradicional Rendez-Vous du Cinéma Français. Faz frio, mas não neva. Nathan toma montes de café preto. "É para despertar", revela. "Meu filho teve pesadelo, não conseguiu dormir à noite e nos obrigou a uma vigília." Ele conta, sem se queixar - "Faz parte da vida familiar. Tenho certeza de que meu pai teria histórias como essa para contar."

Nathan é filho de Claude Miller. O cinéfilo brasileiro pode até nem se lembrar do nome do ex-assistente de François Truffaut, mas com certeza se lembra dos filmes que ele fez - Ronda Mortal, Ladra e Sedutora (sobre um roteiro de Truffaut), A Acompanhante, Un Secret. Quando Jean-Louis Livi contactou Claude Miller, ele estava em plena rodagem de Un Secret. "Eu fazia a segunda câmera", lembra Nathan. "Estava empenhado em montar um projeto de longa, mas era uma produção complicada e não deu certo. Fazia tempo que não dirigia curtas. Minha carreira pessoal estava parada, o que era, claro, motivo de frustração. Claude foi muito generoso. Me convidou primeiro para reescrever o material abandonado por Jacques (Audiard). Não se pensava em absoluto numa codireção. Essa ideia surgiu mais tarde, e de forma natural. Claude e eu nos entendemos muito bem na vida, no trabalho e no cinema em geral. Veio dele a proposição, aceita por Jean-Louis (Livi)."

Um filho adotivo busca sua mãe biológica. Para esclarecer sua origem, para matá-la, para amá-la? Ele termina por se sentir próximo dessa mãe. Cria-se um vínculo, o que repercute na família adotiva. O caso vai ao tribunal. No início, Livi queria que o próprio Emmanuel Carrère fizesse a adaptação. O autor trabalhou alguns meses no projeto, até desistir. Jacques Audiard também trabalhou um tempo, mas desistiu. Feliz Que Minha Mãe Esteja Viva começou a adquirir a aura de filme maldito. O que o tornou atraente para Nathan? "Me interessaria qualquer coisa que me ajudasse a esquecer meu grande filme frustrado. Foi Claude quem me deu uma outra perspectiva da história."

Un Secret (Um Segredo em Família)retoma o tema do Holocausto por meio de uma mãe que sacrifica o próprio filho. "Feliz não deixa de propor outra abordagem do tema e vai adiante, propondo uma reunião entre mãe e filho que era impossível em Un Secret." Desde o início, ficou claro para Claude e Nathan que o filme tinha de ser ambíguo e até desconcertante. A escolha da atriz foi fundamental. "Sophie Cattani se revelou melhor do que pensávamos. Evitando todo clichê, ela cria sua mãe indigna com uma tal credibilidade, até brutalidade, que a personagem fica quase insuportavelmente humana. É um mérito der Claude. Ele tem mais experiência do que eu na condução do elenco."

FELIZ QUE MINHA MÃE ESTEJA VIVA

Nome original: Je suis Heureux que ma Mère Sit Vivante. Gênero: Drama (França/2009, 90 min.). Censura: 14 anos.

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