Uma reflexão estimulada pelo humor

Desmontando fórmulas de pensamento para abrir novas

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h15

Sérgio de Carvalho transita por terreno conhecido em O Patrão Cordial, não só dando continuidade à encenação de obras de Bertolt Brecht como por ambientar a história numa região familiar - o Vale do Paraíba, onde seus avós moraram. Ao mesmo tempo, essa montagem da Companhia do Latão lança desafios, como o de produzir uma dramaturgia a partir de O Senhor Puntila e Seu Criado Matti, de Brecht, propondo distanciamento geográfico e temporal.

A localização da peça no Brasil das últimas décadas suscita comparação com os dias de hoje, marcados pela diminuição de uma elite mascarada, que procurava dominar pela cordialidade. A reflexão é estimulada pelo humor, a julgar pela habilidade de Brecht em se valer da comédia clássica, evidenciada nesse texto que ganhou a cena, em 1966, com direção de Flávio Rangel, tendo Ítalo Rossi e Jardel Filho nos papéis centrais.

Por que decidiu adaptar O Senhor Puntila para o Brasil?

Enxerguei parte da paisagem finlandesa no Vale do Paraíba, uma região ligada a um certo tipo de fazendeiro culto, deslocado, saudoso de uma época áurea. Puntila é um fazendeiro atípico. Seu comportamento é de certa cordialidade, próprio de alguém que deseja criar uma intimidade permanente. Ele luta contra a função da exploração. Mas é uma luta falsa, que não se dá na realidade dele, de homem ligado ao mundo do trabalho. Ele é funcionário do capital.

Você considera essas relações informais de trabalho próprias do Brasil?

Não só do Brasil. Mas dizem respeito à periferia do capitalismo. Em todo caso, o recente escravismo brasileiro ajuda a criar percepção fraca de determinados conceitos, como o de indivíduo, a ponto de um sociólogo como Chico de Oliveira dizer que não existe, ou não havia até pouco tempo, indivíduo como categoria social.

A decisão de transportar a ação para a década de 70 está ligada a uma descrença na permanência da figura do patrão cordial nos dias de hoje?

Acho que o patrão cordial ainda existe. Na verdade, hoje as pessoas falam francamente sobre o motivo econômico. Já não têm tanta vergonha em expor o caráter mercantil. E, ao localizar a ação nos anos 70, fica mais fácil perceber o contexto atual. É uma operação ligada, inclusive, à estratégia brechtiana: recuar um pouco para observar.

Em O Patrão Cordial, a música tem função dramatúrgica?

O fato de Martin (Eikmeier) ensaiar conosco todos os dias torna a música dramatúrgica. Ela narra e muda de função ao longo do espetáculo: cria comentários paralelos, conexões entre aspecto interiorano e mundial. É utilizada na contramão das convenções. Martin não tem medo de sacrificar a beleza da música em favor da verdade da cena.

O Latão já encenou algumas peças de Brecht. O olhar do grupo em relação ao dramaturgo mudou ao longo do tempo?

Fomos entendendo cada vez mais o sentido dialético de Brecht. De início, nós nos debruçamos sobre o uso que Brecht fazia do teatro clássico para estranhar o material naturalista. Depois percebemos que essa abordagem formal era insuficiente. Não se trata de estilo, de técnica, mas de usar diversos procedimentos formais para aprofundar contradições do material.

Quais as trocas que o grupo estabelece em apresentações fora do espaço institucionalizado do teatro, como assentamentos e escolas públicas?

São ocasiões em que aprendemos mais do que oferecemos. Você muda a força do debate após uma apresentação teatral. São experiências que desmontam fórmulas de pensamento para abrir novas. O conceito-chave do Latão não é o de obra, mas o de trabalho.

Acredita no poder do teatro como instrumento de transformação, considerando, até mesmo, os protestos atuais no Brasil?

O poder do teatro é pequeno, mas profundo. As experiências teatrais radicais - no sentido de vivas - são decisivas, formadoras. Nos anos 60, o teatro contaminou o cinema, mudou padrões da TV e dos veículos de massa. Atualmente, é difícil estabelecer elos porque passamos a lidar com determinadas separações - como entre trabalho intelectual e braçal. O teatro, pelo menos o coletivizado, exige conexões. Não é à toa que aqueles que experimentam o teatro percebem que há possibilidades diferentes em relação às formas tradicionais de trabalho no mundo mercantil. O mais radical dos teatros não necessariamente mobiliza alguém a ir para a rua. Isso depende de outros fatores. Mas esse teatro pode se conectar a esses fatores. Hoje há um estado meio mortificado, feito de generalizações difusas. / D.S.

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