Uma reflexão ácida sobre a natureza humana

A exposição Eyegoblack (termo repleto de significados que provém do Finnegan´s Wake, de James Joyce), em cartaz a partir de amanhã, dia 13, à noite, na Pinacoteca do Estado, possui uma estranha e fascinante coerência. Apesar de cada um dos membros do grupo realizar um trabalho extremamente personalizado, eles têm em comum uma certa acidez e principalmente a necessidade de vigiar e refletir criticamente o mundo à sua volta. O quinteto, que se uniu há um ano e meio, vem realizando mostras coletivas em várias partes do mundo. Seu próximo compromisso é a 7.ª Bienal de Havana, que começa na sexta-feira.Essa crítica pode ser de cunho social e político, como faz Marco Evaristti, (responsável pela união do grupo e que na verdade nasceu no Chile), que criou uma instalação ao mesmo tempo seca e violenta sobre o drama do tráfico de órgãos. Altamente provocativo, ele desenha contornos de cadáveres de criança sobre sacos de guardar corpos, sugerindo o drama dessas vítimas. E ao escrever o hino nacional sobre um fraque (simbolizando mais uma vez a morte), ele deixa evidente quão política é essa questão. Niels Bonde também lida com a questão do controle da sociedade sobre o indivíduo, fazendo uma leitura irônica do programa Big Brother, uma espécie de No Limite que fez grande sucesso entre os europeus.Erik Frandsen e Christian Lemmerz parecem mais atraídos pelos dramas íntimos, abordando questões relacionadas à família, à identidade, à casa. Lemmerz resolveu trabalhar com sua própria imagem, sem interferir diretamente no processo. Ele pediu a dez pessoas que o conheciam que fizessem um retrato falado seu usando os mesmos programas utilizados pela polícia. O resultado é surpreendente, tamanha a disparidade entre os dez retratos falados e o próprio artista. Seu próximo projeto é pedir que dez padres façam o retrato falado de Judas. Uma maneira perversa de investigar clichês. A obra de Frandsen é mais delicada só aparentemente. Ao retratar e pintar sua família (num interessante diálogo entre fotografia e pintura), o artista está na verdade fazendo um retrato melancólico da vida privada.Sem sombra de dúvida, o trabalho mais impactante é o de Michael Kvium. Exibindo uma grande qualidade técnica, ele vai fundo no que poderíamos chamar de lado feio do ser humano e da natureza. "São como um mergulho profundo num pesadelo", explica o pintor, acrescentando que a reação das pessoas ao verem quadros povoados por estranhos monstrengos hermafroditas decorre do fato de que todas elas conhecem essas imagens - apesar de não quererem reconhecer isso. O barroco é uma das principais fontes de inspiração do artista dinamarquês. "O barroco foi concebido especificamente como uma linguagem, um conjunto de truques usados para que as pessoas entendessem a religiosidade; eu uso esses mesmos truques", explica ele. Aliás, outros artistas que retratam esse lado mais negro do ser humano, como Francis Bacon, também demonstram um certo fascínio pelo universo barroco.Serviço - Eyegoblack. De terça a domingo, das 10 às 18 horas. R$ 5,00 (5.ª, grátis). Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2 - São Paulo, tel. (11) 229-9844. Até 17/12. Abertura, dia 13/11, às 19h30.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.