Uma rainha maternal

A rainha Silvia, metade brasileira e metade sueca, acolhe muitas e muitas crianças do mundo todo

Keila Bis/ESPECIAL PARA O SF ,

13 de dezembro de 2010 | 07h00

 

 

 

 

 

A rainha Silvia Renate Sommerlath, da Suécia, tem estudado a língua dos sinais. Ela pretende se comunicar perfeitamente com os portadores de deficiência auditiva. Nascida na Alemanha, no dia 23 de dezembro de 1943, filha de pai alemão e mãe brasileira, ela também tem andado muito envolvida com a publicação do livro Go For It, que traz lições de esporte e outras atividades para jovens com deficiência.

 

É que a rainha, mãe de Victoria, Carl Philip e Madeleine, preside o Royal Wedding Fund, uma organização que se dedica a fazer pesquisas em esporte para jovens deficientes. A bela majestade também concentra energias na fundação que idealizou: a Silvia Home, localizada em Drottningholm, onde ela mora desde 1982, no Palácio Drottningholm, junto com o marido, o rei Carl XVI Gustaf. A fundação promove pesquisas científicas e oferece educação, treinamento especializado e cuidados no campo da deficiência mental.

 

Mais: a rainha preside o Queen Silvia Jubilee Fund, projeto que envolve pesquisas com foco em crianças deficientes. É membro honorário do International Mentor Foundation, que promove a prevenção do uso de drogas. Apoia inúmeras organizações e sociedades, como a Children’s Cancer Foundation of Sweden and Save the Children Sweden. E, incansável, fundou, em 1999, a World Childhood Foundation, um projeto grandioso que abrange 15 países e tem a missão de proporcionar melhores condições de vida às crianças do mundo todo. Como boa brasileira que é – e em homenagem aos tempos em que viveu no Brasil, entre 1947 e 1957, com os pais e irmãos –, a rainha Silvia criou a Childhood Brasil. Missão: trabalhar pela proteção da infância contra o abuso e a exploração sexual.

 

Para falar sobre esse trabalho, a rainha concedeu, com exclusividade, ao Feminino, a entrevista abaixo.

 

 

Por que Vossa Majestade fundou a Childhood?

 

Toda criança tem o direito de ser criança. Sempre fui sensível à causa da infância e isso se intensificou no momento em que me tornei mãe. Por isso, como mulher, cidadã, mãe e chefe de estado, decidi colocar a minha imagem e trabalho em favor desta causa.

 

 

Por que Vossa Majestade decidiu implantar a Childhood no Brasil?

 

Nasci na Alemanha, filha de mãe brasileira com pai alemão. Vivi vários anos da minha infância e adolescência no Brasil, e pude ver a alarmante realidade das crianças e jovens em situação de vulnerabilidade no País. Tenho um grande carinho pelo Brasil, onde moram meus parentes e muitos amigos. Por isso, decidi fundar a Childhood simultaneamente na Suécia e no Brasil.

 

 

Vossa Majestade está feliz com os resultados alcançados pela Childhood no Brasil?

 

A Childhood Brasil tem alcançado bons resultados na proteção da infância contra o abuso e a exploração sexual, trabalhando em parceria com empresas, governos e a sociedade civil organizada. Exemplo disso é o programa Na Mão Certa, voltado para o enfrentamento da exploração sexual infantojuvenil nas estradas. Participei do lançamento do Pacto Empresarial do Na Mão Certa na sede da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) em 2005, e hoje já são 760 empresas e entidades empresariais signatárias. Os caminhoneiros são o principal público-alvo do programa, pois podem ser sensibilizados e formados para atuarem como agentes de proteção de crianças e adolescentes nas estradas.

 

 

Os resultados alcançados pela Childhood no Brasil são bons quando comparados aos de outros países?

 

Avalio que a Childhood vem alcançando resultados muito satisfatórios nos diferentes países onde atua. Como estamos tratando de diferentes cenários, os resultados e conquistas naturalmente variam de país para país. Aliás, aproveito a oportunidade desta entrevista para ressaltar que, ao contrário do que muitos ainda possam pensar, a violência sexual contra crianças e adolescentes não está restrita às fronteiras de um país, tampouco a uma classe social, e não pode ser traduzida em meras relações de causa e efeito. É um problema multicausal que engloba fatores culturais, sociais, econômicos e ideológicos, e que apresenta diferentes facetas em diferentes partes do mundo.

 

 

Qual projeto a deixa muito feliz?

 

São mais de 500 projetos em 16 países e fica muito difícil eleger um único. Vou citar um exemplo pernambucano, que conheci pessoalmente e me chamou a atenção por ter começado embaixo de uma árvore. Estou falando da Associação das Mulheres de Nazaré da Mata, fundada pela empreendedora social Eliane Rodrigues Ferreira, que, com poucos recursos financeiros, mas determinada a trabalhar pela melhoria da condição da mulher em Nazaré da Mata e região, fazia reuniões embaixo de uma árvore até conseguir uma sede para a Associação. Atualmente, a Childhood Brasil apoia o projeto "Dando a volta por cima", da Amunam (Associação das Mulheres de Nazaré da Mata), que atende 80 crianças e adolescentes em situação de risco, com ações complementares à escola e acompanhamento psicossocial estendido às famílias, com o objetivo de prevenir e enfrentar a violência doméstica e sexual.

 

 

Qual a maior preocupação de Vossa Majestade no que diz respeito a às crianças em situação de vulnerabilidade?

 

Minha preocupação é de que, para esta questão, seja dada pouca ou nenhuma prioridade nas agendas dos países e fóruns internacionais, o que abre espaço para que as situações de abuso e exploração sexual, e outros crimes contra a infância, continuem se perpetuando. E me preocupo com o universo virtual e novas tecnologias, que, é claro, trazem uma série de benefícios, mas também perigos reais. Há cartilhas de orientação no site da Childhood Brasil (www.childhood.org.br) e dos nossos parceiros locais da Safernet (www.safernet.org.br), e diferentes aplicativos de segurança que podem ser instalados. Mas nada dispensa o acompanhamento e o diálogo entre pais e filhos.

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