Uma rainha do Nilo feia? Com la Jolie?

Na entrevista que deu ao Caderno 2 em junho, durante o Sony Summer, em Cancún, Angelina Jolie confirmou que foi justamente ali, no México que, no dia anterior, acertara com a cúpula da major sua participação no próximo blockbuster sobre a rainha do Nilo. E ela disse que a sua Cleópatra seria diferente de todas as outras porque, para começar, pesquisas recentes - e o livro em que o filme vai se basear - indicam que ela não foi a beldade consagrada pela tradição, inclusive no cinema. Uma Cleópatra feia? Com Angelina Jolie?

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

O repórter brincou. Disse que então ela não era uma boa escolha para o papel. Angelina riu, chamou o repórter de "sweet", mas, independentemente dessas brincadeiras (ou ironias), é natural que ela esteja disposta a personificar Cleópatra. Angelina e Brad Pitt formam o casal top do cinema atual. São identificados pela mídia como "Brangelina". Eles são hoje o que Elizabeth Taylor e Richard Burton foram nos anos 1960. Liz foi a Cleópatra mais cara da tela, rompendo a barreira do milhão de dólares - uma cifra impensável, há 50 anos - para fazer o papel. Surpreende que Angelina queira agora ostentar o cetro e a coroa do Egito?

Cleópatra pode não ter sido bela, belíssima, mas esculpiu no imaginário do público, ao longo dos séculos, um ideal de sedução. Foi assim, sedutora, que atrizes - estrelas - em diferentes épocas e versões, desde o cinema silencioso, a encarnaram. Theda Bara, Claudette Colbert, Vivien Leigh, Liz Taylor (claro), Monica Bellucci (na série Astérix) e até uma brasileira, Alessandra Negrini, vestiram o manto para melhor servir ao mito, mesmo quando o objetivo era a desmistificação.

Liz e Alessandra Negrini são exemplares. Joseph L. Mankiewicz e Júlio Bressane fizeram praticamente o mesmo filme, com cenas similares. Mas há uma diferença entre uma superprodução de Hollywood, o filme mais caro já feito, até então, e um filme brasileiro que dá a impressão de ser caro, mas certamente não deve ter custado um centésimo do valor do outro. Os tableaux vivants de Bressane e de seu grande fotógrafo, Walter Carvalho, são permeados de inteligência. Alessandra é bela - alguma dúvida? -, mas se o júri de Brasília que superpremiou o filme queria provocar polêmica errou o alvo. Por que não ter escolhido Miguel Fallabela, como melhor ator, por seu Júlio César?

Mankiewicz já bebera na fonte de Shakespeare ao fazer seu Júlio César, nos anos 1950, com Marlon Brando no papel de Marco Antônio. Grande criador de personagens femininas, ele fez de Cleópatra uma espécie de Cinderela do Nilo. Na primeira parte, a mulher ambiciosa se eleva ao plano dos deuses com Júlio César. Na segunda, apaixonada por Marco Antônio, é reduzida ao plano de simples mortal. A triunfal entrada em Roma conclui a primeira fase. A segunda, trágica, é mais shakespeariana e termina na morte (com honra).

Muito ainda vai se falar na Cleópatra de Angelina Jolie. Quem será seu Marco Antônio? Seu César? Brad Pitt já se exercitou nos épicos da antiguidade clássica em Troia, mas é pouco provável que vista a armadura do amante. Angelina promete uma versão historicamente acurada. Poderá até ser, mas uma Cleópatra feia? Com ela? Seria, realmente, inacreditável.

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