Uma questão simples

NEW JERSEY - Laços de sangue ou elos culturais? Tribalismo ou cosmopolitismo? Estava tomando um drinque com um amigo meu em sua casa, que fica na mesma rua em que moro, quando a conversa se voltou para os judeus americanos e Israel. Em tom de ironia, perguntei ao meu amigo, que é judeu - assim como eu -, se ele desejaria que seus dois filhos, hoje com 11 e 14 anos, lutassem por Israel um dia se o país se visse novamente envolvido numa guerra. “Sim, eu desejaria que sim”, disse ele.

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2012 | 17h43

Fiquei horrorizado. Disse-lhe que, se um dia meu filho - hoje com 5 anos - quisesse muito combater, eu o sedaria e o levaria de carro até os mais longínquos rincões do norte do Canadá, onde o manteria prisioneiro (num hotel cinco estrelas) até ser capaz de convencê-lo a desistir da ideia. Eu e meu amigo não nos falamos desde então.

Hoje em dia, Israel tem ocupado os pensamentos de muitos americanos. Isto decorre em parte daquilo que parece ser a determinação do premiê do país em bombardear as instalações nucleares do Irã. E decorre também da recente publicação de um livro intitulado The Crisis of Zionism (A Crise do Sionismo), escrito por um jornalista chamado Peter Beinart. O livro faz uma dura crítica a Israel por sua ocupação da Cisjordânia e pelo tratamento dado aos palestinos, e cobra do país a responsabilidade de ter permitido que o sionismo político erodisse os alicerces da democracia israelense.

The Crisis of Zionism enfureceu muitos judeus americanos - ao mesmo tempo encorajando muitos outros -, mas, para mim, seu principal problema está no autor. Um pedaço de papel higiênico lançado num tornado teria mais consistência de direção do que o “pensamento” de Beinart na última década. Ele chegou a escrever um livro defendendo que a invasão e subsequente ocupação do Iraque seria a “boa luta” que honraria o liberalismo americano. Quando a guerra se revelou uma catástrofe de proporções épicas, ele escreveu outro livro defendendo que a guerra fora um erro e que a retirada de todos os soldados americanos do Iraque seria, sim, uma maneira de honrar o liberalismo americano. Vários anos atrás, ele escreveu que o assassinato de 5 mil civis afegãos consistiria num dano colateral aceitável. Agora ele demonstra sua preocupação com os palestinos. Qual a razão de tamanha guinada?

É simples. Beinart mudou-se de Washington para Nova York, onde a cultura jornalística e intelectual é totalmente liberal. As novas relações profissionais trouxeram uma perspectiva completamente diferente.

É isso que me deixa perplexo e irritado no discurso que envolve não apenas Israel como também a questão de intervir na Líbia ou, mais recentemente, na Síria. Falar é muito fácil. Mas todos os discursos vazios parecem nobres porque se equilibram em princípios elevados e no sentimentalismo. É possível parecer um herói sem jamais arriscar um fio do próprio cabelo, nem do cabelo das pessoas queridas. Podemos mudar de posição num instante sem arcar com nenhum tipo de consequência.

Devo dar algum crédito ao meu amigo porque, por mais que sua resposta tenha me parecido monstruosa, ele ao menos se mostrou disposto a expor seus preciosos filhos ao risco para defender seus princípios. Duvido que Beinart esteja disposto a sacrificar seu cartão da academia de ginástica por algum ideal.

Isso não quer dizer que discordo dos argumentos apresentados por ele em seu livro. Costumo me lembrar das palavras do grande estudioso judeu, Gershom Scholem, que emigrou da Alemanha para a Palestina em 1923, anos antes de Hitler e do Holocausto. Scholem amava Israel, mas sentia-se desesperado ao analisar seu rumo. Ele escreveu: “Entre Londres e Moscou, perdemo-nos no deserto da Arábia no nosso caminho ao Sião, e nossa própria arrogância bloqueou a trilha que leva ao nosso povo”. Scholem era um sionista cultural, e não um sionista político. Ele sentia o coração dilacerado ao ver judeus lutando com árabes nas areias do Oriente Médio. Aquilo lhe parecia historicamente bizarro.

Parte de minha família foi assassinada na Ucrânia pelos Einzatzgruppen de Hitler. Fui assombrado na infância e na juventude pelas atrocidades indescritíveis cometidas contra os judeus na Europa, durante o Holocausto e nos séculos que o antecederam. O antissemitismo é uma abominação. Um refúgio judaico a salvo dos terrores da história é algum tipo de milagre.

Mas o refúgio foi manchado pelo poder e pelo nacionalismo, pela paranoia e pela histeria. Para mim, Israel e os judeus se tornaram duas categorias diferentes. Nas décadas que antecederam o Holocausto, os judeus foram tachados de “cosmopolitas sem raízes”, e parece que este comentário preconceituoso foi internalizado como justificativa para uma pátria judaica.

Mas não há nenhum tipo de falta de raízes na minha vida, nem no meu cosmopolitismo. Passei a vida nos Estados Unidos, e moro numa cidade entre vizinhos e amigos. Um ataque israelense ao Irã, cujas consequências seriam incalculáveis, pode pôr em risco tudo isso.

Talvez meu amigo, que não passou mais do que algumas semanas em Israel como turista, não enxergue a terrível ironia de uma eventual luta travada por seus filhos naquele país. Eles estariam lutando pelo lar de outras pessoas, e não pelo seu. Se ocorresse o pior, eles morreriam sem raízes. Criados como americanos cosmopolitas, eles morreriam em nome de um tribalismo inútil.

Como judeu americano, a questão de Israel se tornou simples para mim. Em se tratando de laços de sangue versus cultura, escolho os laços de sangue, sem titubear. Tenho orgulho em dizer que meu judaísmo e meu cosmopolitismo se tornaram uma coisa só.

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