Uma questão de identidade

Grandes casas estão em busca de um estilista, em especial a Dior, e da definição de uma imagem poderosa

Suzy Menkes, International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2011 | 00h00

A linha de frente das celebridades já indicava que se tratava de um desfile de Givenchy. Nenhuma loura à vista no grupo que incluía a mascote da casa, Liv Tyler, Nicole Richie e o guitarrista Ronnie Wood, cuja fisionomia melancólica se harmonizava com a pantera que rugia na trilha sonora e que foi transposta, em imagem, para as roupas.

Em seus mais de cinco anos na casa, o estilista Riccardo Tisci criou uma imagem como algo noturno envolvendo-a - e atraindo clientes corajosos o bastante para usar um suéter com a imagem de Pettie Page, dos anos 50, ou vestir uma saia reta transparente das coxas até os joelhos. Acrescente um chapéu com orelhas de gato e óculos com armação de pele, formando um look que exige uma atitude audaciosa.

Mas Tisci teve mais sucesso do que muitos estilistas jovens ao transformar a sua visão de moda na da própria casa. Sem dúvida, havia vibração de Gianni Versace dos anos 80 nas roupas, com seu grande volume na parte superior, estreitando embaixo, e nas estampas audazes, algumas delas dramaticamente florais.

O ostensivo erotismo do estilo - como o símbolo antigo da prostituta usando uma pulseira metálica no tornozelo - tornou Givenchy novamente uma marca atrevida. Cortes bem definidos e uma visão concisa contribuem para dar uma imagem poderosa para ideias mesmo limitadas, causando um forte impacto.

A procura de uma identidade está no cerne da questão quando tantas casas - em especial a Dior - estão em busca de um estilista.

Stella McCartney pelo menos é a essência da sua marca e ela parecia determinada nos bastidores quando carregava uma criança nas cadeiras e respondia a perguntas sobre a parte mais larga e mais magra do seu desfile. "Suponho que seja masculina e feminina", respondeu, quando indagada sobre as roupas agarradas no corpo.

O desfile pareceu mais uma caricatura de uma história de "pequeno e grande" que Stella pode ter lido para os filhos. Os vestidos da abertura do desfile traziam plissês no estilo de Issey Miyake com grandes formas de corpo e mangas ainda maiores. Em seguida, ela mostrou os modelos em tamanhos grandes, como nos anos 80 - paletós com formas retangulares, que pareciam as dos palhaços.

Em seguida, depois de todas essas silhuetas grandes, um novo "Team Stella" surgiu na passarela - e parecia que seus membros tinham sido esculpidos na academia, exibindo a linha esportiva de Stella McCartney para a Adidas. Que se traduziu, primeiro, em roupas justas no corpo, com tops de corrida, e vestidos com fendas de um lado.

A nova loja em Paris de Giambattista Valli parece ter feito maravilhas para a confiança do estilista e a sua variedade de produtos. Vendo as modelos em suas elegantes túnicas de tecido tecnológico, com um simples bordado no ombro, era de imaginar que o grupo de jovens elegantes na primeira fila é que iriam desfilar, com sapatilhas e roupas simples. Embora a mudança do dia para a noite, do modesto para o decorativo e das sapatilhas para as botas de salto alto possa ter sido óbvia demais, um desfile é sempre um teatro de ideias.

Nos bastidores, Valli disse que as estampas de frutas e flores foram inspiradas nos mestres flamengos. Foi uma mudança do barroco romano, mais familiar ao estilista, e deu sensação de realismo.

Hannah MacGibbon, estilista da Chloé, deveria passar algum tempo nas butiques ou ruas de Paris para entender por que não basta bancar o encantador de serpentes para trazer os anos 70 de volta. A serpente dominou o desfile e as cores pareciam ter sido tiradas de um catálogo de 1977.

O problema é que Hannah não sabe como dar o famoso "toque francês". Suas modelos pareciam inglesinhas desanimadas que tiraram as roupas do guarda-roupa da mãe, mas não sabem como lhes dar um aspecto de século 21. Talvez o diretor executivo da Chloé, Geoffroy de la Bourdonnaye, esteja esperando dar novo impulso para a marca. Anunciou na segunda a chegada de Laure de Sade, estilista que trabalhou com Isabel Marant, para a linha See by Chloé.

O mais surpreendente no desfile de Emanuel Ungaro foi o fato de o seu estilista Giles Deacon ter se afastado. Numa temporada em que o paletó é rei e a roupa exterior é a vedete, uns poucos casacos de pele em turquesa e rosa brilhante bastam para um guarda-roupa moderno? Deacon aproveitou o comentário de Ungaro, de que sua tendência era vestir amantes em vez de esposas, e se pôs a trabalhar nisso. Só Deus sabe o que sua mulher vai fazer com seus colares estilo coleira de cachorro, espartilhos visíveis, terninhos de couro preto, as saias curtas ou rendas negras transparentes. O uso do couro parece ter saído do controle nesta temporada. Hoje essas são peças comuns e não parecem específicas do legado de Ungaro.

Deacon é um estilista sério e conceituado. Mas se ele não sente essa sensualidade de um famoso estilista de alta-costura do século 21, como pode a marca Ungaro construir o seu futuro?

O curto e romântico desfile chamado "Vintage Galliano" esteve envolvido numa sexualidade provocativa, que é a essência do estilista. Não houve surpresas - exceto talvez as bem-feitas roupas de dia - nessa minicoleção, exibida particularmente depois da saída de John Galliano, que deu parte da sua alma romântica para a Dior, mas essa minúscula apresentação foi um resquício da luz do estilista. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

DESTAQUES

Stella McCartney

Vestidos com plissês à la Issey Miyake e mais a linha esportiva.

Giambattista Valli

Variedade de produtos e bom uso da inspiração em mestres flamengos.

John Galliano

Apresentação de minicoleção que deixou ver um resquício de luz do estilista.

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