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Uma questão de cor

Se dependesse do Vinicius (só dele?), nossa bandeira não teria o verde e o amarelo

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2019 | 03h00

Vinicius de Moraes tinha por seu país um amor desfraldado, mas pela bandeira, que hoje se comemora, apenas um afeto a meio pau. Fazia a ela uma restrição, no quesito cromático. Chegou a confessar, na contramão do mel até enjoativo de “Pátria minha”: “Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!), tão feias, / de minha pátria”. Quantos, além do poeta, não desejariam mudança na paleta cívica? 

Castro Alves não chegou a tanto, embora tenha batido pesado na bandeira nacional. Mas não por motivos estéticos, como o confrade Vinicius. O condoreiro vate baiano venerava o “auriverde pendão de minha terra,/ que a brisa do Brasil beija e balança” – tanto que não suportou vê-lo a tremular no mastro dos navios que traziam escravos da África: “Antes te houvessem roto na batalha”, esconjurou, “que servires a um povo de mortalha!”.

Foi ainda ao tempo do Império – e já estava ali “o verde-louro desta flâmula” que bem mais tarde iria drapejar no Hino Nacional. E é possível que já se houvesse disseminado o equívoco respectivo: nada a ver com o ouro das entranhas brasileiras e com o verde de nossas matas. Não foi por isso que as duas cores tingiram a bandeira imperial. O verde entrou para evocar a Casa de Bragança, à qual Pedro I pertencia, e o amarelo, a Casa de Habsburgo-Lorena, de sua mulher, a imperatriz Leopoldina. 

A República, em 1889, não foi radical o bastante para mexer nas cores da bandeira, escolhidas pelo jovem monarca no calor da Independência, em 1822. Como para lembrar aos basbaques de hoje que o afã de macaquear os Estados Unidos é muito anterior à Era Trump, nos primeiros momentos da República o verde e o amarelo foram usados numa cópia servil da bandeira americana, com listras e as 21 estrelas que tínhamos então. Não vingou, sendo substituída pela atual, que voltou não só à paleta como ao design do Império, do qual aproveitou o losango amarelo sobre o campo verde. A República se limitou a encaixar o círculo azul estrelado e a faixa branca com os dizeres Ordem e Progresso. A propósito, na divisa positivista havia mais: “O amor por princípio e a ordem por base, o progresso por fim”. Alguém deve ter achado que o amor contava menos que a ordem e o progresso. 

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Não sei o que o Vinicius, crítico da bandeira, achava do Hino Nacional Brasileiro, outro símbolo que está longe de suscitar aplausos unânimes. Sua história é curiosa. Na proclamação da República, não havendo produção nacional para saudar sua chegada, recorreu-se a hino alheio, o francês A Marselhesa. Talvez vexado, Deodoro da Fonseca tratou de promover um concurso – mas por algum motivo o vencedor, com música de Leopoldo Miguez e letra de Medeiros e Albuquerque, acabou não emplacando. Em lugar da peça vencedora, decidiu-se desempoeirar um velho hino composto pelo maestro Francisco Manuel da Silva na abdicação de Pedro I, em 1831, e que desde então tivera sucessivas letras, ao sabor das circunstâncias político-institucionais. Como se vê, o Brasil de Deodoro já era o Brasil da gambiarra: regime novo, mas hino do regime velho. E ainda assim aos solavancos: primeiro, adotou-se apenas a música de Francisco Manuel da Silva, que só em 1909 ganharia letra, do poetastro Joaquim Osório Duque Estrada, autor de um Dicionário de Rimas Ricas que, aliás, lhe terá sido da maior utilidade ao rechear o hino de esquisitices e pomposidades. Da poesia de Duque Estrada, a posteridade não guardou mais que os tortuosos versos do Hino Nacional, terror de quem esteja condenado a decorá-los. Deve ter nascido com eles o recurso, que jamais saiu de moda, de apenas mover os lábios, fingindo cantar o Virundum, na esperança de que vozes outras encubram a envergonhada ignorância. Nesse particular, mais sorte tiveram nossos compatriotas entre 1890 e 1909, período em que não existia ainda o impávido colosso a ostentar o lábaro estrelado enquanto erguia contra o inimigo a clava forte da justiça. 

A velha música de Francisco Manuel da Silva ganhou letra, mas, como nessas uniões em que tarda a ida ao cartório, foi preciso esperar até 1922 para que o conjunto viesse a ser oficialmente adotado como hino nacional. Quando isso aconteceu, já havia pelo menos uma gravação, a primeira, de 1917. Imagine a pátria mãe na voz de Vicente Celestino, do Coração Materno

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Finalizado o concurso de 1890, Deodoro deve ter coçado a presidencial cabeça: o que fazer com a obra de Miguez e Medeiros, que venceu mas não levou? Mais gambiarra: alguém teve a ideia de convertê-la, a título de consolação, em Hino da Proclamação da República – aquele do qual uns raros brasileiros conhecem o estribilho, e olhe lá: “Liberdade! Liberdade!/ Abre as asas sobre nós./ Das lutas na tempestade,/ dá que ouçamos tua voz.”.

Letra mais tragável e cantável, em todo caso, que a de Duque Estrada para o Hino Nacional, versalhada em decassílabos cuja estrutura parece ter sido feita para destroncar a inteligência do cidadão. Este cronista não esquece a perplexidade que experimentava, em menino, diante de ribombos verbais que lhe soavam como “Herói Cubrado” e “dos filhos deste Solesmãe”. Mais adiante, gargalhou ao se inteirar de uma divertida empreitada de Lago Burnett para tornar inteligíveis os primeiros versos do Hino Nacional. Ao cabo de quatro tentativas, o jornalista maranhense conseguiu decifrar o que quis dizer naquela quadra o Duque Estrada: “O imperador Pedro I proclamou a independência do Brasil às margens do Ipiranga, em São Paulo, tornando o país, a partir desse instante, liberto de compromisso para com a Corte de Portugal”.

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Como homenagem à bandeira cujas cores desgostavam o poeta Vinicius, até que não estamos malservidos com o hino para ela composto por Francisco Braga e Olavo Bilac, especialmente se o comparamos aos já citados. Pena que não se saiba o nome do bem-humorado espírito de porco que descobriu que a letra do Hino à Bandeira cabe perfeitamente na música de Ai, Que Saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago, assim como a do samba na composição de Francisco Braga. 

Não se acanhe em fazer a prova. 

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