Uma quase verdade punk

Peça revisita história de escritora que se fez passar por adolescente

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h08

Abandonado pelos pais, vítima de abusos, ele se tornou um viciado em heroína. Era apenas um menino e sua vida parecia estar perdida. Mas, então, ele encontrou no próprio sofrimento um meio de superação, fez da arte a sua redenção.

Muita gente acreditou na história de Jeremiah Exterminator LeRoy. Todo mundo queria crer nesse calvário com final feliz. Mas as coisas não aconteceram exatamente dessa forma. Novo espetáculo de Paulo José, JT - Um Conto de Fadas Punk repassa esse episódio que chocou o universo literário dos anos 2000.

A peça, que já passou por Brasília e pelo Rio, abre agora temporada no CCBB de São Paulo. Em cena, Débora Duboc e Natália Lage contam como uma mulher de 40 anos se fez passar por um adolescente de 16, escreveu livros que se tornaram best-sellers, tornou-se amiga de celebridades como Madonna, Dennis Hooper e Gus van Sant. "Eu me interessei por esse assunto porque estou cansado de bons sentimentos", diz Paulo José, que assina a direção ao lado de Susana Ribeiro. "O sujeito hoje quer ser vilão, que é simpático. Mas mau, pulha, canalha ninguém quer ser."

Houve quem se sentisse traído quando o repórter da New York Magazine desvendou o caso e tirou a máscara que JT Leroy envergou por dez anos. Por trás de sucessos editoriais como Maldito Coração estava Laura Albert. E sua história não era autobiográfica, mas pura ficção. "Através de JT eu pude expressar coisas que não conseguiria articular sozinha", disse a escritora norte-americana, em entrevista ao Estado. "Estava escrevendo sobre coisas tão dolorosas que elas só poderiam ser manuseadas com luvas de amianto, com algum tipo de revestimento protetor. É isso que JT e seu mundo eram para mim."

Escrito pela dramaturga Luciana Pessanha, JT - Um Conto de Fadas Punk retrata como Laura assumiu a persona de JT. Além de explorar sua relação com a música. Antes da literatura, Laura tentou ser vocalista de uma banda punk. No palco, os atores realizam números musicais, tocando instrumentos como guitarra, baixo e bateria. "O que me instiga nesse texto é justamente a atitude punk. Só isso explica o que ela fez", observa o diretor.

Assim como em seus trabalhos mais recentes, Paulo José utiliza aqui recursos audiovisuais para sustentar a encenação. São vídeos com supostos depoimentos de quem teria convivido com JT.

É Débora Duboc quem assume o papel da escritora. "É incrível a maneira como ela ficcionaliza a própria vida. Pirandello dizia que a arte não imita a vida, melhora. É isso que ela faz: Deixa a arte invadir tudo", acredita a atriz. Natália Lage contracena com ela interpretando Savannah Knoop - a cunhada de Laura que, durante anos, travestiu-se de menino para ser a face pública de JT LeRoy.

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