Uma profecia para a ânsia de poder

O neofascismo, ao contrário do nazi-fascismo, não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer. A maioria dos cidadãos, por natureza, nunca consegue descobrir por si mesma o que é certo ou errado, e seu dever cívico consiste em prestar obediência; a tarefa dos governantes da República consiste em inculcar nesses cidadãos as crenças "corretas", isto é, crenças que promovem a estabilidade do Estado, pois o que importa não é tornar os homens sábios, mas apenas obedientes - a grosso modo, essa é a ideia básica da República de Platão.

Rubens Rusche, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

Em O Grande Inquisidor, o porta-voz de uma espécie de utopismo autoritário, herdeiro ideológico direto do utopismo platônico, é um cardeal católico do século 16, chefe supremo da Inquisição espanhola. Seu principal argumento é simples: o homem é uma criatura fraca e deplorável, incapaz de alcançar a paz ou a felicidade, a não ser submetendo-se ao governo de alguns poucos seres humanos superiores, no caso o clero, capazes de lhe determinar o seu destino social. Se, por um lado, Dostoievski pretendia, ao escrever, no fim do século 19, a lenda do Grande Inquisidor, fazer uma crítica à Igreja católica, que para ele não passava de um ateísmo disfarçado e motivado apenas por uma incessante vontade de poder, por outro lado, tratava-se de um alerta e de uma antecipação dos regimes totalitários que, em nome da felicidade humana, constituiriam o principal conflito ideológico do século 20.

Nesse sentido, O Grande Inquisidor, aparentemente uma inocente paródia religiosa, é na verdade um provocador discurso político, uma confrontação alegórica entre duas ideologias opostas. Acima de tudo, está em debate a questão central da liberdade humana, e essa pequena obra-prima de Dostoievski se transformará no protótipo de todos os futuros Big Brothers da literatura e da história, antecipando e profetizando os verdadeiros formigueiros humanos em que se transformariam as sociedades contemporâneas, com seus cidadãos infantilizados e "ovinos" e seus governantes paternalistas que, sob o pretexto da felicidade humana e do bem-estar da maioria, almejam tão somente uma única coisa: o poder.

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