Uma personagem na história de uma geração

Jill Clayburgh, que morreu no dia 5, iluminou sua vida e a de milhares de espectadoras com Uma Mulher Descasada

Janet Maslin, The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Na mais famosa cena do mais determinante filme de Jill Clayburgh, sua personagem reagia à notícia de que seu marido pretendia deixá-la. Erica, interpretada por Jill, reagia com tal naturalidade, confusão e orgulho ferido que a atriz tomou conta da imaginação de uma geração.

"Quando Jill interpreta esta cena, tem-se a visão de todas as coisas que, na vida, podem ser destruídas em menos de um minuto, desde paisagens e navios, até reputações e...casamentos perfeitos", escreveu Vincent Canby sobre o filme, em 1978. "Mas Jill provou que uma reputação pode ser construída em menos de um minuto, também."

Terá a carreira de algum ator sido afetada com mais força por um simples prefixo? Foi o "des" de "descasada" que marcou o poder criativo de Jill Clayburgh, que morreu no dia 5, aos 66 anos, em sua casa em Connecticut, depois de 21 anos convivendo com uma leucemia crônica.

O papel das mulheres vinha mudando de modo definitivo, e essa nova autoafirmação estava sendo estabelecida e compreendida. Mas os roteiros nessa época eram sobre a busca das personagens femininas pela independência e poder. As heroínas se rebelavam. Elas se punham de pé e saíam de casa. E partiam para a ação. Não se deixavam influenciar.

Os seus papéis, com frequência, eram bem definidos. Mas o papel de Erica não. O roteirista e diretor do filme, Paul Mazursky, tinha uma amiga divorciada que se descrevera como "uma mulher descasada" ao fazer um pedido de hipoteca. Numa extrapolação desse fato, ele então concebeu a história de uma mulher casada de Manhattan que se separa e fica confusa diante da vida. Mas a criação dessa mulher por Jill Clayburgh foi inteira e indubitavelmente sua, do mesmo modo que o impacto do filme sobre as plateias femininas foi universal. E a sua interpretação natural, sem afetação, foi a marca distintiva do filme.

Um dom. Ela não tinha os tiques de Diane Keaton, a dureza de Jane Fonda, a determinação de Sally Field, a assombrosa capacidade de adaptação de Meryl Streep. Simplesmente tinha o dom de parecer uma pessoa real que passava por uma situação que mudaria sua vida. No papel que a marcou, isso foi suficiente.

"Paul Mazursky escreveu um papel maravilhoso para a atriz, portanto acho que não é injusto o fato de ele depender dela para o sucesso do filme", escreveu o crítico Vincent Canby. E ela contribuiu decisivamente para o sucesso.

A atriz Jill Clayburgh fez cinema e teatro durante uma década antes dessa interpretação definitiva. Mas o fato é que, no início, ela foi descartada para o papel. Era loira, esbelta e bonita, mas não era como uma Carole Lombard, quando James Brolin era Clark Gable (Os Ídolos Também Amam, 1976). Sem o filme Uma Mulher Descasada ela talvez jamais tivesse encontrado seu nicho.

Mas quando encontrou, foi como um relâmpago. Interpretou uma estrela de ópera no filme La Luna, de Bernardo Bertolucci (1979), que deixou todos mudos quando foi apresentado na abertura do Festival de Cinema de Nova York.

Inteligências. Ela atuou em muitas comédias sobre mulheres inteligentes, interessantes (Encontros e Desencontros, de 1979, e Esta É a Minha Chance, de 1980). Chegou a estrelar um filme sobre a Suprema Corte (Um Juiz Muito Louco, de 1981), uma presença agradável mesmo em circunstâncias bastante improváveis. "O FBI está errado ao informar aos senhores que não tenho filhos", ela disse aos senadores no filme. "As ideias são meus filhos e eu tenho centenas delas."

Mais tarde, Jill e o marido, o dramaturgo David Rabe, tiveram filhos reais, Lily e Michael. E embora continuasse trabalhando, sua presença em público ficou mais intermitente, os papéis em filmes mais maternais ou excêntricos. (Jill atuou numa versão em 2005 do filme de Augusten Burroughs, Correndo com Tesouras). Ela ficou tão esquecida que qualquer aparição mais importante era qualificada como um retorno (duas séries de TV no final dos anos 90, e a peça Descalços no Parque na Broadway, em 2006), mas os papéis que seriam bem acolhidos praticamente não existiam mais.

Jill continuou uma mulher elegante, adorável e tão reconhecível que se acostumou a ser tratada como um avatar. "Meu Deus, você definiu minha vida inteira por mim", disse chorosa uma fã de Uma Mulher Descasada, em 2002, e essa era uma situação aparentemente não inusitada para ela. Quando ela e Lily, uma atriz, moraram juntas em Manhattan em 2005, quando ambas se preparavam para estrear peças na cidade, uma jornalista do The New York Times visitou Jill e ainda a via como a inesquecível "persona" do filme.

"Jill Clayburgh parece hoje uma Jill Clayburgh moderna", escreveu Nancy Hass. "Uma mãe agitada, mas decidida, que foge da confortável vida de casada no campo para dividir um minúsculo apartamento em Manhattan com a voluntariosa filha que aspira a carreira teatral. Conflitos, alegria e depois, naturalmente, a realização pessoal." No caso de Jill Clayburgh, tanto na vida como no trabalho, foi exatamente isso o que ocorreu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FILMOGRAFIA

2011 Bridesmaids (inédito)

2010 Love and Other Drugs

2006 Running with Scissors

2001 Coisas do Amor

1997 E Agora, Meu Amor?

1997 Indo Até o Fim

1993 Nu em Nova York

1992 Le grand pardon II

1992 Rich in Love

1992 Gemidos de Prazer

1990 Oltre l''oceano

1987 Gente Diferente

1986 Where Are the Children?

1983 Hanna K.

1982 I''m Dancing as Fast as I Can

1981 Um Juiz Muito Louco

1980 Esta É a Minha Chance

1979 Starting Over

1979 La Luna

1978 Uma Mulher Descasada

1977 Semi-Tough

1976 O Expresso de Chicago

1976 Gable and Lombard 1974 The Terminal Man

1973 The Thief Who Came to Dinner

1972 Portnoy''s Complaint 1969 Festa de Casamento

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.