Uma paulistana no Cirque du Soleil

Eles são saltimbancos, levam a vida na estrada, mas estão longe de ser artistas de um circo qualquer. Compõem o staff de uma empresa com 2.300 funcionários em todo o mundo, dos quais cerca de 400 brilham no picadeiro. São estrelas do Cirque du Soleil - a companhia canadense de entretenimento criada em 1984 por Guy Laliberté que revolucionou a arte circense. O que começou com um pequeno grupo de artistas, virou uma grande organização cultural que já excursionou pela Ásia, Europa e Estados Unidos, onde mantém espetáculos fixos e itinerantes, e cobra até US$ 120 o ingresso. Juliana Neves, 30 anos, paulistana da Mooca, acaba de voltar de uma temporada de três anos e meio no Cirque du Soleil. Especialista em acrobacia aérea, Juliana vai voar enroscada em tecidos nesta quarta-feira à noite, em um espetáculo exclusivo para convidados da Volkswagen. Da casa onde cresceu, em São Bernardo do Campo, a dez minutos da fábrica onde fará sua apresentação, Juliana concedeu esta entrevista, na qual revela seu caminho até chegar ao Soleil - e quais ainda pretende percorrer. Agência Estado Você foi uma das primeiras brasileiras a integrar o elenco do Cirque du Soleil. Como isso aconteceu? Juliana Neves - Fui a primeira paulistana a entrar para o circo, já que no mesmo ano, em 98, quatro cariocas foram selecionados para o espetáculo La Nouba, em cartaz na Disney, em Orlando, onde estão até hoje. O Soleil fez uma audição no Rio e outra em SP, em dezembro de 97. Eu e meu marido (o também acrobata Guto Vasconcelos) ajudamos a organizar a audição - e eu participei da seleção. Entrei e comecei a trabalhar no circo em 98. Quantos brasileiros fazem parte do Soleil? Hoje o Soleil tem uns 12 brasileiros. Acho que todos os brasileiros que vão para o Soleil têm a moral alta, eles valorizam a criatividade dos artistas daqui. Muitas vezes, os artistas chegam lá para fazer uma pequena participação e acabam ganhando destaque, como ocorreu com o Wellington, por exemplo, que esteve na apresentação do Oscar. Ele está entre os melhores do melhor circo. Quando você viu o circo pela primeira vez imaginou estar lá um dia? A primeira vez que vi um espetáculo foi em 93, em Nova York. Lógico que imaginei como seria legal trabalhar lá, no fundo tinha aquele sonho, mas era isso. Um sonho. Como você virou uma artista de circo? Sou ginasta e bailarina, fiz 14 anos de balé classico. Com 21 anos entrei no Circo Escola Picadeiro, onde tive aulas com os integrantes do Acrobático Fratelli, e acabei participando da fundação da Nau de Ícaros, onde trabalhei seis anos. Sou a segunda geração formada em circo sem precisar acompanhar um circo. Antigamente não havia escola de circo, era algo passado de pai para filho. Hoje em dia triplicou o número de alunos de circo, mas até hoje o Brasil ainda é carente de professores, precisamos de mestres russos, chineses para reciclar mais. Quando você foi para o Soleil? Ao sair da Nau fui para a Quasar, companhia de dança e de lá para o Soleil. O motivo que me fez sair do circo foi o mesmo: senti falta da dança. Quero aliar o conhecimento de acrobacia aérea que tenho com dança contemporânea. Você não vai voltar ao Soleil? Saí temporariamente. Fiz exatas mil e uma apresentações do Dralion, o espetáculo do Soleil que une a tradição do oriente com o ocidente. O show continua nos EUA, mas eu precisava relaxar. Às vezes o artista estrangeiro vai fazer parte do trupe da casa, acaba sendo mais um entre 40. Consegui participar da criação do meu número. E acredito que vá fazer um espetáculo novo com eles no ano que vem. Como se vive no Soleil? A gente vive em flats e as temporadas são de no mínimo cinco semanas. Em Nova York, por exemplo, ficamos 3 meses. O melhor da vivência é a possibilidade de conhecer pessoas do mundo inteiro e aprender outras línguas. Eu, que só falava inglês, aprendi a falar francês, espanhol e chinês. Para ser um artista do Soleil é preciso ser um profissional que canta, dança e atua? O Cirque du Soleil quer pessoas diferentes. A base são acrobatas russos, em sua maioria. Eles acabam carreira de ginastas com 17, 18 anos, e vão para o circo, que abriu um grande mercado de trabalho. O Soleil mantém oito espetáculos, quatro rodando os Estados Unidos, três fixos, e um na Europa. E ganha-se bem? Trabalha-se muito, fazemos dez shows por semana. Moradia e comida estão incluídas e ainda ganhamos uma diária por semana, pela folga. Não temos é tempo de gastar! Lá há contratos diferentes, alguns altíssimos. Um artista convidado, que chega com o número pronto, ganha US$ 600 por show. O salário mais baixo, de um iniciante, é de US$ 90 por show. Qual o principal problema enfrentado lá? As pessoas se machucam muito. Os atletas estão preparados para dar o máximo em uma competição, não de ser excepcionais dez vezes por semana. Quem fica fora ganha 75% do salário. Dei muita sorte, perdi somente quatro shows. Quais são os planos agora que você está fora do Soleil? Daqui estou indo para a França fazer um trabalho de pesquisa com o coreógrafo Phillippe Decoufle, com espetáculo no final. Quando fui para o Soleil era para trabalhar com ele, mas a negociação entre ele o circo não deu certo. Agora vou realizar meu sonho de juntar o circo com a dança, de uma maneira inteligente como Decoufle faz. Você acredita que Soleil virá ao Brasil para uma temporada? Eles têm idéia de vir para o Brasil em 2006, mas só virão se puderem trazer toda a estrutura que representam. Para ir ao México, o custo da turnê é de US$ 10 milhões, para manter a política de altíssimo padrão de qualidade. Até por isso os ingressos custam entre US$ 50 e US$ 80. Os ingressos vips chegam a US$ 120.

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