Uma Osesp convincente

Sua música não foi tocada no concerto de anteontem, na Sala São Paulo, mas o nome de Gustav Mahler deve ter vindo várias vezes à cabeça de muitos dos que lá estiveram. As três obras mais extensas, distribuídas num arco histórico entre 1939 e 1989, beberam bastante das sonoridades e orquestração daquele que, certamente, foi um dos que puseram em música da maneira mais impactante a reflexão sobre vida e morte. Justaposição de tuttis com momentos camerísticos, solos distribuídos entre o spalla, as madeiras e os metais - tudo sob o reino da ambiguidade. Afinal, quem poderia responder efetivamente às perguntas sobre a morte? E pelo instinto destruidor do ser humano, particularmente sangrento nas dezenas de guerras do nosso tempo?

O Estado de S.Paulo

28 Julho 2012 | 03h11

De fato, fica - e sempre ficará - sem resposta a genial pergunta que Charles Ives faz por meio do trompete "invisível", que o quarteto de cordas aflitiva e inutilmente tenta responder seis vezes, sob um colchão de cordas em pianíssimo (aliás, a Osesp conseguiu fazer um pianíssimo de arrepiar). A pergunta sem resposta, de 1906, instaura, em definitivo, e em apenas seis minutos, os termos do jogo musical - e também político, econômico, ideológico - do século 20 e de nossa realidade hoje. Desistimos já das respostas e muitas vezes sequer temos ânimo para fazer as perguntas essenciais.

Desde Caetano, é proibido proibir. Por isso, foi equivocado proibir aplausos entre Ives, O Enfermeiro de Guerra, de John Adams, e a Sinfonia de Réquiem, de Benjamin Britten, as três peças da primeira parte do concerto. Em situação de concerto, não se pode tirar do público o único gesto que lhe é hoje permitido - o aplauso. Isso teria evitado, por exemplo, que o excelente barítono Nathan Gunn ficasse feito estátua, inútil, durante meia hora, assistindo à sinfonia de Britten. Do jeito que ficou, virou quase um ritual fúnebre - e isso afugenta, em vez de atrair, o público. Quem sabe espalhar as três obras trágicas por concertos diferentes teria dado mais impacto a cada uma delas. Juntá-las só diminuiu a força de cada uma.

As obras exigem muito do maestro e da orquestra, em todas as suas seções. Carlos Kalmar tem uma regência clara. Construiu interpretações competentes, o que não é pouco, neste caso específico. Muito bom o barítono Nathan Gunn, de voz leve, porém suficiente para sobrepor-se à orquestra (mérito de Kalmar). E a Osesp correspondeu a esses bons fluídos com uma performance empenhada, convincente.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

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