Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Uma orquídea do rio para Itamar

Zélia Duncan lança álbum dedicado ao compositor paulista com músicos cariocas e seis canções inéditas

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h08

Zélia Duncan cantando Itamar Assumpção: isso dá repercussão. Com seis canções inéditas e sete reinterpretações de outras menos visitadas do compositor, a cantora contribui mais uma vez - e definitivamente - para tirar dele o rótulo de "maldito" e "difícil" em Tudo Esclarecido. O álbum estará à venda a partir do dia 27 em três versões (CD normal, digipack e deluxe, com livreto de 40 páginas) e futuramente em vinil.

Nesse papel de, digamos, "popularizar" Itamar Assumpção (1949-2003), não quer dizer que seja um álbum determinado a moldar o gosto ou dar lições sobre ele. "Esse disco é meio como fiz com Eu Me Transformo Em Outras, não segue uma linha de nada, sem vontade de ser didática. Não estou querendo dizer que sou especialista em Itamar", esclarece Zélia. "Fiz o disco porque amo esse cara e me alimentei da música dele a vida inteira. É legal pensar que é simplesmente a continuação de um caminho."

De volta à gravadora Warner Music, em parceria com o selo Duncan Discos, ela teve a primeira música de trabalho, Tua Boca, distribuída para as rádios na semana passada, e o CD todo pode ser ouvido a partir de hoje em streaming no site http://sonora.terra.com.br. Todo gravado ao vivo em estúdio, sem firulas, o álbum teve os arranjos feitos em conjunto com Kassin (que dirigiu a produção), Zélia e os músicos Marcelo Jeneci, Pedro Sá, Stephane Sanjuan, Thiago Silva e Christiaan Oyens.

Fluminense de Niterói, quando morou em Brasília, a cantora sentiu à distância o baque estético da chamada vanguarda paulista. Uma vez assimilada a linguagem, passou a alimentar o desejo de se tornar uma das "pastoras" de Itamar, como foram Suzana Salles, Virgínia Rosa, Vânia Bastos, Vange Milliet, Tetê Espíndola e outras, nas bandas Isca de Polícia e Orquídeas do Brasil.

Sem nunca integrar nenhuma das bandas ("era meu sonho de garota"), ela, no entanto, já dividiu o palco. "No dia em que ele saiu do hospital, teve um show no Sesc Pompeia em que estávamos Cássia Eller, Tetê, Ná Ozzetti, eu e uma galera. Ali, junto com elas, fui vocalista dele por um dia", lembra. "Mas eu me sinto sempre uma cantora dele." A cantora o encontrou em outras ocasiões (o encarte traz foto dos dois juntos) e ganhou dele diversas gravações demo, entre as quais uma feita para ela, a inédita Zélia Mãe Joana,

Tendo Ney Matogrosso e Martinho da Vila como cantores convidados, o que Zélia sugeriu primeiramente a Kassin era que eles fizessem um disco "delicioso de se ouvir". O resultado é nítido, obtido intuitivamente. "A sombra de Itamar quase o estigmatizou. Ao meu ver é uma sombra linda, profunda, mas ficou um pouco com aquela cara de difícil. Só que o que eu canto de Itamar vejo todo mundo cantando comigo", diz Zélia, que já tinha gravado 11 canções dele em outros discos. "A ideia era fazer isso 13 vezes juntas. Queria um Itamar solar, obviamente sem tirar as sombras. Não sou tão solar assim, não tenho um trio elétrico."

Nesse aspecto, foi fundamental ter feito o disco no Rio. "Meus últimos álbuns todos foram gravados e mixados em São Paulo, porque aqui é justamente o Brasil, onde encontro todo tipo de gente maravilhosa." Porém, a curiosidade está aí, já que Itamar e a turma da geração Lira Paulistana sempre tiveram os campos de repercussão limitados por soar a muitos forasteiros demasiadamente "paulista".

"Acho que essa foi uma sacada importante. Claro, tem o Jeneci e o Christiaan, que chegou a ser parceiro de Itamar em uma canção por minha causa", conta Zélia. "Kassin tinha uma certo conhecimento da obra porque é pesquisador. Os outros músicos não o conheciam, não endeusam Itamar. Então lidaram com a música dele com muita sem-cerimônia. Teve a surpresa da descoberta, de como ele com quatro acordes fazia coisas incríveis, a riqueza de seu jogo de palavras."

Nomes cults. Como no antológico espetáculo To Tatiando, só com canções de Luiz Tatit - que segue em turnê pelo Brasil e em breve vai sair em DVD e CD -, Zélia deu maior relevo às letras de Itamar e Alice, que assina um texto no encarte do CD. Nas impressões de Alice sobre Zélia, ressalta-se a "generosidade e (mais uma vez) coragem, por investir em nomes cults, sem se importar em 'correr o perigo' de frustrar expectativas pops que possam ter sobre seu sucesso largamente conquistado".

Outro desses "nomes cults", Arrigo Barnabé diz que "mais do que uma homenagem, este é um trabalho de afeição, de amor". "De uma intérprete com a empatia necessária para compreender o sofrimento, as dificuldades, as idiossincrasias e os defeitos, os erros e os acertos, e a extrema sensibilidade, a aguda, delirante e dilacerante sensibilidade de Itamar Assumpção."

Zélia confirma: "A minha sorte, tanto no Tatit como no Itamar é ser genuíno o meu amor por esses trabalhos." Demorou para ela conquistar Itamar e para ele entender "que aquilo tudo era genuíno", mas depois de certo tempo, os dois ficaram muito amigos, cantaram juntos várias vezes. Numa dessas ocasiões de conversas musicais, ele disse a ela: "Se um dia você cair eu te seguro".

Para Zélia foi "uma das maiores dores" quando ele partiu. "Eu disse: caramba, e agora, quem é que me segura? Ele continua me segurando, a música dele tem me segurado esse tempo todo. Pode até parecer que eu boto uma luz no trabalho dele, mas a verdade é que ele fortalece o meu discurso, me fortalece como artista."

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