Uma oportunidade de ver trabalhos sem espaço no circuito

ANÁLISE: Festival traz produção contemporânea de diversos países e faz cinéfilo sair da mesmice

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2012 | 03h06

O Festival de Cinema Latino-americano é a oportunidade anual para o cinéfilo sair da mesmice. Como o circuito exibidor pouco se ocupa em divulgar as obras do cinema latino-americano, é preciso esperar o evento anual para se deparar com títulos tão curiosos como o cubano Juan dos Mortos, o argentino Um Mundo Misterioso ou o uruguaio Artigas - La Redota, para ficar em três títulos, entre os cerca de 75 que serão exibidos ao longo do evento.

Juan dos Mortos é algo como você nunca viu. O diretor Alejandro Brugués faz o primeiro filme de mortos-vivos ambientado em Havana. A história segue o modelo do gênero, com os zumbis tomando conta da capital cubana depois que uma estranha epidemia se abate sobre a cidade. Com óbvias alusões políticas, é também divertido e escrachado - como, mais uma vez, convém ao gênero, até então estranho ao cinema cubano.

Muito mais cool é o argentino Um Mundo Misterioso, de Rodrigo Moreno. Aqui, a trajetória é a de um jovem aparentemente sem rumo, Boris, que depois de romper um casamento, vive à deriva em Buenos Aires. Um filme de silêncios e emoções contidas, usando longos planos parados, mostra a capacidade do cinema argentino de comunicar-se por elisões e frases entrecortadas, por tudo aquilo que deixa por conta da imaginação do espectador. É um contraponto para narrativas às vezes muito óbvias e redundantes que contaminam o cinema brasileiro.

Já o uruguaio Artigas - la Redota é um bom exemplo de recuperação de uma figura histórica desconhecida (ao menos no Brasil). Artigas é um dos heróis do país vizinho e recebe aqui tratamento sóbrio de César Charlone, uruguaio radicado no Brasil e fotógrafo de vários filmes de Fernando Meirelles. Charlone dirigiu O Banheiro do Papa, uma das melhores produções uruguaias dos últimos anos. Com seu Artigas, Charlone estará na mostra competitiva do Festival de Gramado, que se realiza em agosto.

Há também os brasileiros ainda inéditos no País. Talvez o mais esperado seja Augustas, do cineasta paulistano Francisco César Filho, o Chiquinho, como todos o conhecem no meio cinematográfico. O filme é baseado no livro A Estratégia de Lilith, de Alex Antunes, e mergulha no mundo boêmio do Baixo Augusta, com Mário Bortolotto e Caroline Abras no elenco.

Também participa da mostra Hoje, de Tata Amaral, que venceu o Festival de Brasília do ano passado e até agora não foi lançado comercialmente. Um bela interpretação de Denise Fraga, com a personagem que recebe uma indenização pelo desaparecimento do marido durante a ditadura militar e precisa conviver com seus fantasmas. Pelo trabalho, Denise recebeu a estatueta de melhor atriz em Brasília.

Rânia é outro filme brasileiro que terá pré-estreia no festival. Dirigido pela brasileira radicada na Holanda Roberta Marques, fala de uma garota cearense dividida entre os apelos da vida noturna e a disciplina exigida por sua vocação, a dança. Filme interessante por seu frescor.

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