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Vanessa Barbara
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Uma ode às videolocadoras

Sinto falta das videolocadoras, que praticamente já não existem. Um dos meus esportes favoritos nos anos 90 e 2000 era descobrir um estabelecimento bem escondido e passar horas garimpando filmes antigos do acervo, pagando pela locação a módica quantia de R$ 1 ou, no máximo, R$ 2,50. Lembro de uma videolocadora em Santa Cecília que entregava em casa, e de uma outra que tinha convênio com uma pizzaria e usava o motoboy desta para vender um combo de calabresa e Por um Punhado de Dólares. Eu elaborava listas enormes dos títulos do acervo que queria alugar e depois telefonava pedindo umas sete fitas para devolver só depois do feriado.

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2016 | 02h00

 

Lembro de alugar orgulhosamente uma cópia em VHS de Momo e o Senhor do Tempo - junto com duas fitas do Elvis - numa locadora no Bom Retiro que também era salão de beleza, e de participar da promoção “alugue três filmes do catálogo e ganhe um design de sobrancelha”. Lembro de pegar emprestada uma cópia de A Noite Americana, do Truffaut, estranhamente dublada em inglês, e de perguntar na Blockbuster se havia Todos os Homens do Presidente, recebendo como resposta: “Não seria Todas as Garotas do Presidente?”. 

Minhas preferidas eram a HM de Higienópolis, com seu bonito acervo de musicais tolos, e a 2001 da Paulista. Na Faculdade Cásper Líbero também havia uma biblioteca que emprestava filmes aos alunos, e eu sempre entupia a mochila de fitas clássicas e apitava loucamente ao passar pelo detector da porta, para desespero das bibliotecárias que nunca sabiam bem como registrar tais empréstimos. Houve uma época em que eu só frequentava a faculdade para pegar novos filmes. 

Cheguei a mandar meu currículo para trabalhar na 2001, mas não me aceitaram. Meu modelo de vida era um amigo atendente de uma locadora em Blumenau; o salário era ultrajante, mas ele podia levar para casa quantos filmes quisesse. Na locadora, a gente se divertia tentando adivinhar os filmes que os clientes procuravam, tipo “um que começa com o mocinho indo almoçar e a repartição inteira sendo metralhada, com aquele ator que fez aquele outro filme lá”. 

Nunca gostei da Netflix, que em matéria de clássicos não é páreo nem para a finada Pacheco’s Vídeo, um lugarzinho escuro no Lauzane cuja atendente nunca se conformou que o Montgomery Clift era homossexual. 

Na Netflix, você digita Catch-22 e recebe como resultado Catch 44, um suspense policial de 2011 com o Bruce Willis; bota na busca “irmãos Marx” e recebe Marco Polo (2016), Miss Março (2009) e Marco Macaco (2012). Só há três filmes do Hitchcock, dois do Billy Wilder, dois do Kubrick, um do Orson Welles, nenhum do Kurosawa ou do Truffaut. (Há seis do Judd Apatow.)

Jamais conseguiria respeitar uma videolocadora, online ou não, que não tenha no acervo uma boa cópia carcomida de Momo e o Senhor do Tempo. 

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