Uma obra propícia a ser vertida para o cinema

Há 67 menções a Ernest Hemingway no site IMDB (International Movie Data Base), especializado em cinema. Isso não significa que 67 filmes tenham sido feitos a partir de suas obras, porque entre elas há muitas repetições. Alguns dos seus textos foram adaptados várias vezes, como Os Assassinos, tanto para as grandes telas como para a TV. Mas, entre várias versões, a que temos de reter é a de 1946, um dos mais perfeitos exemplares do cinema noir.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2013 | 02h14

Existe, assim, um conjunto de filmes bastante sólido, construído a partir de obra que parece bastante propícia a ser vertida. Basta lembrar títulos como Adeus às Armas (1932), Por quem os Sinos Dobram (1943), Uma Aventura na Martinica (1944), As Neves do Kilimanjaro (1952) ou O Velho e o Mar (1958) para comprovar que o cinema e Hemingway nasceram um para o outro.

Não que todos esses filmes sejam obras-primas. Não são. Pelo menos, nem todos. Mas respiram aquela ambiência que o escritor conseguia criar em sua literatura. Um clima másculo, intenso, envolvente, como se viver fosse de fato algo mágico, mesmo nas condições mais adversas. Não importa a situação descrita. Podia ser uma lembrança de guerra autobiográfica como a de Adeus às Armas. Ou levemente fantasiosa e romântica, como em Por quem os Sinos Dobram, evocação da Guerra Civil Espanhola. Ou a voz interior de um escritor que relembra sua vida enquanto agoniza na África, como em As Neves do Kilimanjaro. Ou o encontro entre um casal mítico - Humphrey Bogart e Lauren Bacall numa situação de perigo como em Uma Aventura na Martinica. Ou ainda a comovente, e inútil, batalha de um pescador cubano, Santiago, contra um tubarão em O Velho e o Mar, livro que deu o Nobel ao escritor e cuja venda de direitos forneceu-lhe os meios para comprar sua chácara em Havana, a famosa Finca Vigía, hoje um museu.

Qual o melhor Hemingway nas telas? Claro, a resposta depende do gosto do freguês, e também do seu conhecimento do cinema. Há quem prefira o tom meloso e algo romântico de Por quem os Sinos Dobram, de Sam Wood, com o trágico namoro entre Gary Cooper e Ingrid Bergman nas linhas de resistência às tropas fascistas. E, críticas à parte, quem resiste a Katina Paxinou como Pilar, personagem decalcada de Dolores Ibarrúri, La Pasionária? Mas há o toque inigualável de Howard Hawks em Uma Aventura na Martinica. Sem contar que se trata da estreia de uma deusa, Bacall, que, durante filmagens envolveu-se com Bogart, início de um casamento que durou até a morte dele. A dramática beleza de O Velho e o Mar, de John Sturges (narração de Spencer Tracy) não deixa ninguém indiferente.

Mas existe quem ponha acima de todos Assassinos, de Robert Siodmak, um dos mais significativos exemplares do cinema noir. O drama é bastante misterioso em seu princípio. Mostra um homem esperando passivamente por seus assassinos. No desenrolar da trama, um corretor de seguros tentará decifrar seu enigma. No elenco, a dupla Burt Lancaster e Ava Gardner, num clima noir como poucas vezes se viu no cinema. O interessante é que este filme de 103 minutos foi obtido a partir das poucas páginas de um dos mais breves relatos de Hemingway.

Esses filmes, muito diferentes entre si, expressam a adequação do texto de Hemingway para a adaptação cinematográfica. Todo mundo conhece aqueles breves preceitos do escritor a respeito da arte de escrever: ater-se ao ponto e cortar todo o resto; fazer do texto um iceberg do qual apenas 10% aparecem na superfície, os outros 90% ficando por conta da imaginação do leitor. Tanto a concisão como esse espaço concedido à recriação fazem desses textos excelentes matérias-primas para o cinema. Além de serem, é claro, ótimas histórias.

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