Uma obra libertária e próxima do cinema

Ao redigir o texto publicado ao lado, Hanif Kureishi - que acaba de ganhar o prêmio Pen/Pinter, conferido a escritores e jornalistas identificados com a defesa da verdade - certamente estava pensando na corrida de obstáculos que teve de enfrentar com sua família para publicar o que escreve desde a adolescência. "Como sempre, há certas ideias que são proibidas ou freadas nas famílias", observa Kureishi, acusado pela irmã e a ex-mulher de alta traição por expressar o que pensa sobre o pai, o casamento e a paranoia fomentada pela família nuclear, que identifica o perigo em tudo fora desse núcleo - o que explica o racismo, a intolerância e as guerras. "Portanto, os escritores devem perguntar a si mesmos se serão capazes de suportar isso", recomenda o autor inglês, filho de um funcionário público paquistanês que escrevia nas poucas horas de folga e jamais publicou um livro. Kureishi se encarregou de desfazer esse ineditismo, usando fragmentos desses escritos no autobiográfico No Colo do Pai.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Antes de lançar esse livro, híbrido de memorialismo e ensaio, escrito sobre os romances inéditos do pai, Kureishi concedeu uma entrevista em que revelou ter inventado uma família fictícia para escrever sobre a verdadeira, de tão opressora que era a vida no subúrbio de Londres - a família era discriminada por ser de origem paquistanesa (o ficcionista nasceu em Bromley, ao sul da capital britânica, filho de uma inglesa com um paquistanês). Ele lembrou do pai, às 6 da manhã, de terno e gravata, encaminhando-se para o pequeno escritório da casa, em que escrevia religiosamente por duas horas, antes de sair para o trabalho. "Escrever era, suponho, uma obsessão que o mantinha incompleto mas, ao mesmo tempo, o empurrava para a frente." Aos 60 anos, Rafiushan, o pai de Kureishi, já havia escrito cinco livros, inúmeros contos e algumas novelas de rádio - sistematicamente recusados pelos editores.

Certo dia, em Paris, Kureishi foi a um restaurante com o tio, irmão de seu pai. Bebeu para tomar coragem e revelou a ele que estava na cidade para aprender a ser escritor. "Quem você pensa que é, Balzac?", ironizou, para sua decepção, o tio predileto, continuando a pregação: "Você é um tonto e seu pai mais ainda por encorajá-lo a seguir adiante." Mais tarde, Kureishi escreveria: "Talvez meus tios e até meu pai considerassem excêntrica essa paixão pela escrita em imigrantes asiáticos vivendo na Inglaterra." Justificável: quando criança, Kureishi via imagens aterradoras de esfomeados indianos e paquistaneses na televisão, enquanto seus vizinhos ingleses estavam comprando refrigeradores e máquinas de lavar.

Essa obsessão por máquinas de lavar fez com que ele escrevesse aquele que viria a ser seu roteiro mais popular, o do filme Minha Adorável Lavanderia, dirigido por Stephen Frears em 1985, que lançou a carreira de Daniel Day-Lewis. A lavanderia, no caso, servia como metáfora para lavar a roupa suja da Inglaterra durante o período em que a dama de ferro Margaret Thatcher, então primeira-ministra, mandava no país. O filme trata justamente dessa época violenta, dos conflitos de rua entre jovens ingleses punk e imigrantes asiáticos, vistos pelos primeiros como agentes da injusta concorrência com a mão de obra local. Os protagonistas do filmes são Omar (Gordon Warnecke) e Johnny (Daniel Day-Lewis), ex-colega de escola do jovem de origem asiática, agora vagabundeando como punk pela ruas de Londres. Omar, filho de um jornalista paquistanês alcoólatra e em fim de carreira, é ambicioso e procura o tio, traficante de drogas, para financiar seu projeto de montar uma lavanderia. Convence também seu amigo Johnny a entrar de sócio. Os dois se tornam amantes. A lavanderia progride e cresce também a ambição de Omar, que começa a desprezar o namorado inglês, pouco materialista.

Kureishi evita o dualismo rasteiro. A avidez descontrolada de Omar é punida pelos ex-amigos punks de Johnny, que o agridem por apoiar membros da comunidade paquistanesa. A sequência final é de uma selvageria comparável a uma partida de futebol perdida por fanáticos hooligans. Resta aos parceiros limpar mutuamente as feridas desse conflito racial que não acabou na era Thatcher, mas prossegue em marcha acelerada por toda a Europa. Dois anos depois de Minha Adorável Lavanderia, o roteirista Kureishi e Stephen Frears voltariam à carga com Sammy e Rosie (Sammy and Rosie Get Laid, 1987). Rosie é inglesa, Sammy é da Índia ou do Paquistão - Kureishi e Frears não deixam isso claro. Ao contrário do casal gay do filme anterior, eles vivem numa casa confortável, aparentemente numa zona fora do perigo. Formam, enfim, um casal orientado levemente por ideias esquerdistas até que os conflitos de rua batem à porta de casa e o pai de Sammy chega para uma visita. Para resumir: numa sequência em que a tela vira um tríptico horizontal com três cenas acontecendo ao mesmo tempo, Londres é vista como palco de uma guerra étnica, cenário punk-futurista e templo da liberdade sexual.

Sexo, aliás, domina grande parte da obra de Kureishi - a literária e a cinematográfica. Talvez a mais escandalosa obra nesse sentido seja o livro Intimidade, que atraiu para o autor a ira da ex-mulher, assim como O Buda do Subúrbio. Transformado em filme, esse Buda provocou desconforto entre os familiares - a irmã de Kureishi acusou-o de pintar um retrato distorcido da família, especialmente do pai. Intimidade foi filmado há nove anos pelo francês Patrice Chéreau. Se o autobiográfico O Buda do Subúrbio (1990) relata as experiências do jovem suburbano Hanif Kureishi por uma Londres pop e efervescente, Intimidade conta como o escritor abandonou mulher e filhos para viver um caso extraconjugal.

O Buda do Subúrbio é igualmente pródigo em autocitações. Kureishi é um pouco como o personagem Karim Amir do livro, um cruzamento de continentes e diferentes tipos de sangue que esquentam a noite londrina, embalada no filme pela trilha pop de David Bowie, ex-colega de escola do escritor. Jovens, corriam atrás de encrenca ou agitação, como todo garoto de subúrbio. Kureishi tomava o trem para Londres, enchia a cara, fumava maconha e acabava na cama de desconhecidos - de ambos os sexos, ao que sugere o livro. Norman Mailer, impressionado, definiu o estilo de Kureishi como "nada comedido, nada sentimental". Salman Rushdie foi ainda mais enfático: "Kureishi é irreverente ao extremo e descaradamente impróprio, mas também comovente e verdadeiro."

Isso pode ser comprovado nos sete livros publicados pela Companhia das Letras. Pode-se começar com O Álbum Negro, que se passa em 1989, ano da condenação de Rushdie por Os Versos Satânicos, quando o escritor indiano foi ameaçado com a fatwa pelo governo iraniano. O livro fala de um jovem estudante paquistanês em crise, buscando uma identidade, nem que isso signifique adotar o fundamentalismo, tema de outro livro do escritor, My Son the Fanatic (1994). Como se vê, há tempos o autor, formado em filosofia, se preocupa com o assunto. Tanto quanto o erotismo. Kureishi começou a carreira escrevendo livros pornográficos. Tem muito a ensinar.

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