Uma obra genial com mais perguntas do que respostas

Em Cópia Fiel, Abbas Kiarostami mostra que pode perfeitamente fazer cinema em alto nível, mesmo fora do seu país e trabalhando com outras culturas e idiomas. Sem por isso fazer um desses "produtos globais", sem cheiro e nem cor, que pululam por aí. Há um substrato humano comum, que transcende as particularidades de cada cultura e se funde no universal, sem por isso perder aquilo que faz a identidade profunda de cada povo. Kiarostami demonstra também (como fosse necessário) que emoção e reflexão podem fazer boa rima e andarem juntas na mesma obra. Não se excluem; ao contrário, potencializam-se mutuamente.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2011 | 00h00

Desse modo, em Cópia Fiel, temos um olhar que, antes de iraniano, é apenas universal. Reúne um personagem inglês e uma francesa numa localidade italiana. E essa história fala a todos nós, independentemente de qual seja a nossa cultura e o horizonte das nossas coordenadas mentais.

Os personagens são um escritor inglês, James Miller (William Shimmell), e Elle (Juliette Binoche), dona de galeria que vive há anos na Itália. Miller está lançando um livro que tem exatamente o título do filme, Cópia Fiel, no qual discute se uma boa cópia pode valer tanto, ou mais, que o original. Estamos no universo das artes e, portanto, da sempre problemática autoria. De certa forma, todo o trabalho do filme será mirar, de diversos ângulos, essas questões: o que é o original, o que é a cópia? Como um se distingue da outra, se é que isso é possível? Como ir as coisas mesmas, para além das aparências? O valor da arte está na obra, em si, ou no olhar de quem a contempla e com ela se emociona?

Ao passear pelo universo das artes, Cópia Fiel não deixa de transitar no não menos cediço terreno dos sentimentos humanos. Em que um sentimento real se distingue de um imaginário? Conseguimos, de fato, fazer a distinção? Ou vivemos a vida num mundo de espelhos, no qual a ilusão de estar apaixonado pode muito bem equivaler a se apaixonar de fato?

São questões que vão surgindo e se expondo à medida que os dois personagens se deslocam pelo interior da Itália. Elle leva Miller para conhecer a comuna de Lucignano, onde existe uma Gioconda local que depois se descobriu ser apenas cópia de um afresco, realizada por um falsificador napolitano. No entanto, a cópia é tão perfeita que o museu a exibe como se fosse... original. A certa altura, a dona de um café, onde Miller e Elle pararam para descansar, pensa que são marido e mulher. Um jogo se instala entre os dois. Ou não seria jogo? Onde o real e onde a representação? A instabilidade do espectador é total. Ele não sabe o que vê. Um casal maduro que rumina as ruínas do seu relacionamento? Um par de desconhecidos que finge ser um casal? No fundo, que importa, se a emoção está toda lá? E, lá estando, entre eles, a nós se transfere, e de forma irremediável.

Podemos ver este filme uma, duas, várias vezes e sairemos sempre com mais perguntas do que respostas. Somos também essa sucessão interminável de cópias de nós mesmos, tentando, desesperadamente, parecer-nos com um original que tampouco sabemos se existe. Diabólico Kiarostami. Bendito Abbas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.