Uma nova voz à frente do Madredeus

Festival Mimo traz ao Brasil festejado grupo português, que tem a jovem Beatriz Nunes no lugar de Teresa Salgueiro

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2013 | 02h21

O som do mar deveria ser brisa, nunca tempestade. Viria como um lamento dos cantos mais frios da alma e, mesmo quando se alegrasse, jamais abriria um sorriso de mostrar dentes. Uma mulher cantaria tudo usando a língua portuguesa e, junto aos homens que a acompanhavam, seguiria algumas espécies de mandamentos: 1) Tocar em espaços públicos como praças, ruas, castelos e igrejas de Lisboa; 2) Não cair em tentações do mundo pop, como frequentar programas de TV de variedades pelo simples prazer da fama. A música estaria à frente de tudo; 3) Investir em muitas canções próprias para criar repertório; 4) Viajar muito, incansavelmente, fazendo concertos pelo mundo todo até que todos entendessem que eles eram grandes.

O projeto Madredeus deu certo, mas pagou o preço. Em 27 anos de estrada, visitou mais de 42 países e lançou 14 discos. Dos músicos que estavam na criação, no entanto, sobrou apenas o violonista Pedro Ayres Magalhães. Quem se atrevia a ter projeto paralelo colidia com a energia inesgotável de um trabalho que jamais saía da estrada. A maior baixa veio em 2007, quando a cantora Teresa Salgueiro, voz e espírito do grupo, anunciou sua saída para se jogar em outras aventuras. Pedro Ayres pensou em pendurar as violas, mas logo decidiu criar a Banda Cósmica, mudando a formação consagrada do Madredeus. Ao sentir o chamado para voltar às origens, abriu temporada de caça a uma nova voz feminina e a achou. Agora, com nova cantora e a ajuda de um festival brasileiro, ele se sente como nos dias em que tudo começou.

O Madredeus estará no Brasil em agosto para se apresentar no Mimo, o festival anual que acontece em Paraty (RJ), Ouro Preto (MG) e Olinda (PE) entre 23 de agosto e 8 de setembro. Ao saber da proposta do projeto de usar igrejas e espaços públicos para abrigar shows, Pedro Ayres se empolga. "Era justamente este o propósito do grupo quando o criamos. Não sei se vamos tocar na igreja do Aleijadinho, mas seria um prazer." Vai sim. O primeiro concerto do grupo será ao ar livre, no palco da Praça da Matriz, em Paraty, dia 25 de agosto. E o segundo, dia 30, na igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto, o templo de 1766 desenhado pelo artista barroco, considerado uma de suas grandes obras.

A ausência de Teresa começou a ser preenchida em 2011 com a descoberta da bela e jovem Beatriz Nunes. "Fizemos audições e a achamos entre várias cantoras. Ela já estava pronta. Passamos as partituras e pronto", diz Pedro Ayres. Então com 22 anos, mais nova do que a existência do próprio grupo, Beatriz foi admitida em setembro e entrou em estúdio para gravar o disco Essência, que celebraria os 25 anos do Madredeus em novembro. "Eu ainda era uma criança quando meus pais iam ver Madredeus aqui em Lisboa, em um bairro também chamado Madredeus", diz ela ao Estado, por telefone.

É em Beatriz que os focos miram. Não por acaso, o grupo a coloca à frente e com destaque entre todos, como comprova a foto ao lado. Eles querem afirmá-la, virar a página da fase Teresa Salgueiro e começar uma nova época de colheita, o que não é fácil. "Existe uma comparação (com Teresa) que é legítima, mas tento não levar o peso da herança e ver a música como algo universal. Não me sinto presa", diz ela, hoje com 24 anos.

Sobre a alta demanda de shows imposta por Pedro Ayres, Beatriz confirma. "A energia dele não é desse mundo. É uma força da natureza com a qual só tenho a aprender." Em altas temporadas, nos anos de 1995 e 1996, o Madredeus chegou a cumprir uma agenda de 300 shows. Hoje, eles ficam entre 70 e 80 por ano. Antes de conceber o grupo camerístico, que ainda lida com o equivocado rótulo de fadista, Pedro foi um respeitado roqueiro em Lisboa. Criou uma das primeiras bandas punk de Portugal, a Faísca, e depois formou o Heróis do Mar, ainda em atividade. E como é que um punk de Lisboa foi criar o delicado "som do mar"? "O Madredeus tem a essência punk. Veja que não queríamos nos apresentar na TV, ceder à cultura da imagem. Gostamos sempre do lado independente."

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