Uma nova via, um novo feito

Na herança de Lula, destacam-se os números.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Nunca antes na história deste País, o aumento do emprego com carteira assinada, das reservas, do salário mínimo e das bolsas de assistência social foi tão relevante.

Nunca antes na história deste País, diminuiu o gap entre pobres e a classe média, venderam-se tantos carros e produtos da linha branca.

Graças ao crédito fácil, a classe C adquiriu TV de tela plana, celular, notebook, DVD, micro-ondas, e teve a chance de ir ao trabalho num "pois é" flex.

Nunca antes na história deste País, pagou-se a dívida externa, e o investimento externo e o mercado interno garantiram imunidades num cenário de recessão mundial catastrófico.

Nunca antes na história deste País, um presidente operário fora eleito e ainda se deu ao luxo de sair com um índice de aprovação elevado. Sem contar o prestígio internacional, que só foi abalado quando "o cara", num erro estratégico e pretensioso, chocou o Ocidente ao apoiar regimes considerados problemáticos e perigosos para a paz mundial, e a sobrevida das democracias.

Talvez seus erros tenham sido prejudiciais às pretensões de ser premiado com um Nobel da Paz (dizem que estava perto de ganhar, até apoiar o Irã, e arrumaram um Barack Obama em cima da hora) ou chegar à presidência da Assembleia Geral da ONU (se é verdade que postulou).

Sua postura aparentemente inerte diante dos casos escandalosos protagonizados por seus companheiros mais íntimos (Zé Dirceu, Genoino, Palocci, Gushiken), e a roubalheira do Mensalão, pode ter manchado a imagem de fundador de um partido que propôs, em sua fundação, fazer política sem abrir mão dos ideais, e de moralizá-la.

Mas, pensando bem, todos os envolvidos foram imediatamente afastados do governo. Lula não empurrou com a barriga ou escondeu atrás de si aqueles que foram pegos com o abuso de autoridade nos dedos.

E até órgãos da imprensa que o combateram durante oito anos admitem no apagar das luzes: sim, foi um grande estadista. Conseguiu governar sem traumas institucionais, o que é algo nunca antes conquistado na história deste País.

Porém, não vi um analista citar o seu maior feito, o de respeitar as regras do jogo. Pois nunca antes na história deste País um presidente cumpriu o seu mandato seguindo o que manda a Constituição.

E olha que a pressão para que Lula criasse as bases para um terceiro mandato foram lançadas. Poderia enviar ao Congresso uma lei facilmente aprovada. Havia apoio popular para um "fica companheiro". Movimentos sociais chegaram a promover a ideia, que mancharia a Carta e a história da nossa democracia esquizoide.

No entanto, foi ele, Lula, quem os demoveu da proposta, diferentemente do seu antecessor, FHC, que inventou uma reeleição que não estava escrita e manipulou o Legislativo para mudar as regras do jogo, num período em que se suspeitou que houve barganha e compra de votos.

Como o anterior havia feito, Lula poderia também ficar mais quarto anos. Mas não. Afirmou em bom tom: se a lei me oferece a chance de ter dois mandatos, por que eu teria três?

Arriscou tudo, plantou a semente de uma candidatura em que poucos acreditavam e ganhou a eleição democraticamente, elegendo sua sucessora.

Nunca antes na história deste País, as regras eleitorais foram enfim cumpridas. Collor não completou o seu mandato. Sarney estendeu o seu. Assim como o ditador da "abertura", general Figueiredo. Jango não concluiu o seu. Nem Jânio. Nem JK, que foi bombardeado por uma tentativa de golpe, nem Getúlio, que desabou com uma bala no peito.

Lula inaugurou uma nova era no País. A de que, independente da popularidade, existem limites para o Poder, e de que a democracia exige alternância, pois só assim ela sobrevive.

***

Na chegada de Dilma, destacam-se as surpresas.

Sua candidatura sofreu altos e baixos - como a revelação dos escândalos da quebra de sigilo de dados da Receita e, especialmente, da Casa Civil, cuja sucessora e família foram acusadas de praticar tráfico de influência, a metros do gabinete do cara.

O governo, ao invés de defender a transparência, acusou a imprensa e a oposição de tumultuarem a campanha. Para, semanas depois, exigir um controle maior dos dados da Receita e demitir a ministra.

A repercussão se deu nas pesquisas. Serra subiu. Marina mais ainda. O eleitor mais progressista se chocou com as declarações antiaborto e casamento gay de Dilma, tática para abocanhar o voto religioso.

Dilma caiu em todas as regiões e especialmente em estratos sociais mais altos. Não levou no primeiro turno, irritando o seu mentor. O que antes parecia uma barbada, tornou-se uma emocionante corrida cabeça a cabeça na reta final.

Até ela disparar nos últimos metros.

No dia seguinte da vitória, apareceu outra Dilma numa entrevista ao vivo no Jornal Nacional. Sem a máscara criada por marqueteiros. Sem o discurso controlado e tenso da véspera. Dona do cargo e legitimada pelo voto, Dilma passou a ser Dilma, não mais a criatura moldada para ganhar a eleição e reconduzir um projeto a todo custo.

Já de cara mostrou que mudaria os rumos da política externa, a micose do governo Lula, ao demitir Celso Amorim e nomear um diplomata para despolitizar a pasta. Reconduziu Palocci para o cargo de superministro, quadro idolatrado pelo mercado.

Tirou as manguinhas do seu tailleur de fora e nomeou Iriny Lopes titular da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que declarou, provando que vivemos, sim, num Estado laico, que o aborto é uma decisão pessoal: "Não vejo como obrigar alguém a ter um filho que ela não se sente em condições de ter."

Dilma, eleita, prova ser diferente de Dilma candidata. Então, sim, os meios justificaram o fim: ganhar a eleição, mesmo que, para isso, sejam defendidas propostas que fujam de suas convicções.

Muito está por vir. A violência urbana é uma epidemia que não combina com o sucesso econômico, cuja marca é a distribuição de renda, e o crack é a doença que não pode ser varrida para debaixo do tapete.

Ainda temos o juro mais alto do mundo, a telefonia mais cara e ineficiente, uma reforma política e tributária a serem feitas, uma Previdência falida, uma infraestrutura inoperante que atravanca o crescimento, aeroportos lotados, estradas federais esburacadas, transporte público medíocre, déficit habitacional, Código Penal anacrônico, um sistema penitenciário que não recupera, problemas que em 16 anos não foram resolvidos.

Quem sabe, agora rola? Afinal, o otimismo é como um carro zero: todos gostam de ter, com a esperança de se livrarem dos mecânicos.

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