Uma nova obsessão

Diga-me o que comes e eu te direi quem és, disse famosamente o gastrônomo do século 19 Brillat-Savarin. Se isso for mesmo verdade, então a obsessão selvagem por comida e culinária que se apossou da América é muito reveladora.

LEE SIEGEL, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h12

Nos últimos dez anos, aproximadamente, cada aspecto do consumo de alimentos foi hiper-racionalizado. Há dezenas de reality shows concorrentes associados a aspirantes a chefs, chefs celebridade aparecendo inesperadamente num restaurante decadente para salvá-lo, um chef celebridade abrindo uma escola de culinária e pondo seus alunos à prova. Há o Cake Boss que acompanha a vida diária de uma família que possui uma confeitaria em Hoboken, Nova Jersey. Há uma coisa chamada The Chew, em que o participante que fizer uma imitação mais perfeita de Julia Child vence.

Ademais, há os livros. Centenas de livros. Há livros que nos dizem como comer de maneira saudável, como comer de maneira elegante, como preparar uma grande variedade de peixes, como assar pão, como cozinhar para seu (sua) amado (a), como cozinhar quando se é um atleta, como cozinhar quando se é solteiro (a), como cozinhar um jantar em 20 minutos... Há memórias na forma de livros de culinária: Como eu parei de amar demais e comecei a comer bem, Como cozinhei para 25 diferentes namorados, Como preparei comida francesa enquanto aprendia sobre pintura impressionista. (Todas invenções minhas, só para dar uma ideia). Há livros que nos ensinam como cultivar a própria comida, livros expondo as práticas desumanas e anti-higiênicas da indústria alimentícia, livros classificando cada tipo de substância comestível conhecida como saudável ou não.

E há o movimento do alimento orgânico. Ele começou com um estilo consciencioso de alimentação saudável, em que os alimentos eram cultivados de acordo com critérios rígidos que excluíam pesticidas e herbicidas. Ele ainda é isso, mas também foi assimilado por corporações gigantes do ramo alimentício que aplicam o rótulo "orgânico" em tudo, até onde a categoria orgânico não faz sentido, como "batata chips orgânica". Ao mesmo tempo, as corporações alimentícias estão introduzindo cada vez mais alimentos artificiais na categoria orgânica. Elas podem fazê-lo porque a agência do governo que supervisiona a produção de alimentos - a Food and Drug Administration - ainda não determinou precisamente o que "orgânico" realmente significa. Enquanto isso, nas mercearias, nos supermercados, e nos mercados de produtores rurais por todo o país, a busca pela comida perfeita continua.

Há duas tendências nacionais que a obsessão por alimentos incorpora. A primeira é a transformação do lazer em mais uma forma de competição. O que pode ser mais agradável e gratificante que uma bela refeição? A cozinha sempre foi o centro da vida familiar. A sala de jantar sempre foi o centro da vida social. Agora, cozinhar, comer e servir comida foram arrastados para o mesmo reino competitivo de fazer carreira ou ganhar dinheiro. As pessoas costumavam ir do trabalho para casa e espairecer na cozinha. Agora, as pessoas voltam para casa para um outro tipo de trabalho, enquanto chefs celebridade, escritores sobre culinária, e gurus da saúde espreitam por cima dos seus ombros enquanto elas cozinham.

A razão de fazer da culinária uma arte sempre foi transformar a necessidade em prazer; enfatizar o lado agradável de nossa natureza animal, em vez do duro lado da sobrevivência. Agora, porém, nos Estados Unidos, o lazer de cozinhar e comer bem virou a luta darwiniana pela supremacia: ser o "melhor" cozinheiro, comer a "melhor" comida, ter o "melhor" físico, e assim por diante. Perdi a conta das vezes em que me sentei para jantar num restaurante em Nova York enquanto meu acompanhante de jantar exibia sua robustez física para mim comendo cada item empanturrado de gordura do cardápio.

A outra tendência nacional é o controle. Seja porque as pessoas se sentem cada vez menos no controle de suas vidas, seja porque a mágica nova tecnologia as encorajou a sentir que administração de seu ambiente está ao alcance, os americanos parecem acalentar a ilusão de controle total. Boa parte disso se manifesta, como já escrevi anteriormente, na ânsia de micro-gerir as vidas de nossos filhos, e também no prevalecimento da escrita sociobiológica, que promete aplicar uma fórmula pró-ativa de existência. Mas o ato de comer agora foi trazido também para a obsessão pelo controle. É como se pela racionalização de cada aspecto do consumo de alimentos nós pudéssemos começar a consertar a própria moralidade. Afinal, nenhuma atividade de lazer está tão conectada às fontes da vida como o comer.

Há anos que se fazem comparações entre os Estados Unidos e a Roma antiga, na maneira como os EUA conduzem suas relações exteriores, na ascensão de uma casta plutocrática, na decadência da cultura. A mim me parece que essa analogia está completamente errada. Enquanto seu império se expandia a ponto de ruptura e depois começava a ruir, os romanos se entregavam ao prazer. Os americanos estão abandonando o prazer para trabalhar, na medida em que cada aspecto da vida é racionalizado e transformado em algum tipo de competição. Pouco importa o que você come. Diga-me o que pensa sobre comer, e eu lhe direi se você é saudável ou não.

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