Uma nova maneira de dizer o óbvio

Como um roteiro de Charlie Kaufman, Almas à Venda fala de segunda chance

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

     

 

 

Paul Giamatti. Como ele mesmo, um ator em crise de inspiração, na hora de interpretar sua versão da peça de teatro Tio Vânia

 

 

 

Parece um roteiro de Charlie Kaufman e o cinéfilo vai pensar principalmente em Quero Ser John Malkovich, que virou filme de Spike Jonze, sobre um sujeito que descobria passagem para a mente do conhecido ator. A francesa Sophie Barthes toma outro atalho e, para sua estreia na direção - ela também é roteirista do filme -, imagina um Paul Giamatti em crise, impossibilitado de entender, ou de dar a devida dimensão, à tragédia chekhoviana de Tio Vânia. Em pleno processo de bloqueio criativo, Giamatti, ele próprio, descobre - na revista The New Yorker - um anúncio sobre transmigração de almas. E começa seu pesadelo em Almas à Venda.    

 

 

Trailer trailerVeja cenas do filme Almas à Venda      

 

 

Não se trata bem de transmigração. O que o anúncio promete é a possibilidade de as pessoas se desvencilharem de suas almas e armazená-las em lugar seguro. Mas a verdade é que o consultório de luxo gerenciado pelo médico David Strathairn não é tão seguro assim. Ele tem uma associação com os russos e eles traficam as almas. Por exemplo, ao perceber que se livrar do peso de sua alma atormentada não lhe tornou mais fácil a tarefa de dar vida no palco a Tio Vânia, Giamatti vai reclamar sua alma de volta, mas ela foi enviada para a Rússia, por meio de uma "mula". O dr. Strathairn lhe oferece então a possibilidade de uma alma alternativa. Ele escolhe a de um poeta russo, mas a interpretação não melhora, porque o cara é muito "intenso".

Almas à Venda cria novos parâmetros para adjetivos como "estranho" ou "bizarro", que o cinéfilo costuma ver associados a autores como David Cronenberg ou David Lynch. O filme de Sophie Barthes será rotulado como diluição desses diretores, e também de Charlie Kaufman. Pode até ser, mas o filme é suficientemente curioso para merecer uma análise. E, depois, já que se trata de uma conexão russa, Sophie talvez não esteja clonando Kaufman - cuja inventividade, um tanto limitada, consiste em bater sempre na mesma tecla, em todos os seus roteiros - e sim, indo a uma outra fonte. Nos idos de 1840, o escritor russo Nikolai Gogol foi pioneiro ao escrever Almas Mortas, no qual um aristocrata comprava as almas dos criados que trabalham para ele.

Aperitivo para aguardar Jolie. A maior curiosidade do filme que estreou ontem é fornecer um álibi antecipado para o que parece a grande fraqueza de Salt, o super thriller (violento) com Angelina Jolie, apontado para estrear dia 30. Em Salt, o diretor Phillip Noyce explora a velha paranoia norte-americana, por meio de espiões russos infiltrados na vida norte-americana. O espectador, desconcertado, pensa estar assistindo a um daqueles clássicos da Guerra Fria - Fui Um Comunista para o FBI, de Gordon Douglas -, ou então a um produto perdido da era George W. Bush, ressurgindo inesperadamente sob a presidência de Barack Obama. Que nada - uma rede de espiões russos acaba de ser desbaratada nos EUA e Almas à Venda agora revela que os russos, sempre eles, depois de "comerem criancinhas" sob o comunismo, viraram esses mafiosos que comercializam almas.

Logo no começo, uma citação de René Descartes localiza a alma numa glândula próxima ao cérebro. A de Paul Giamatti, quando extraída, possui o formato de um grão de bico. Nada disso faz muito sentido - exceto como metáfora -, mas pode ser interessante para apreciadores da arte dramática ver um ator do porte de Giamatti, fazendo o próprio papel, discutir a alma com David Strathairn como se fosse algum apêndice do corpo humano. Descontados o estranhamento, ou a bizarrice, o drama é bastante tradicional.

Sophie Barthes está contando a história de um homem que precisa perder a alma para se dar conta do seu valor - e para tentar, desesperadamente, recuperá-la. É um novo revestimento para o conhecido tema da segunda chance, que, com o retorno ao lar, fornece o básico da cinedramaturgia de Hollywood. Não é sempre que se vê atores tão bons - Giamatti, Strathairn, Emily Watson - discutindo tanta "bullshit". Por tudo isso e algumas cenas bem resolvidas, a diretora "quase" capta a essência sofrida de Chekhov e assina um filme realmente bom.

ALMAS À VENDA

Nome original: Cold Souls, Direção: Sophie Barth. Gênero: Drama (101 min.). Censura: 10 anos.

 

 

 

 

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