Eliana Aponte/Reuters
Eliana Aponte/Reuters

Uma nova Julieta Venegas

Mãe, confiante e mais exposta, cantora mexicana volta ao Brasil e se apresenta em festival no Jóquei

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2011 | 00h00

A terceira faixa do último e quinto álbum de estúdio, Otra Cosa (2010), transmite uma insegurança impensável da multipremiada Julieta Venegas. Em Debajo de Mi Lengua, ela canta: "debaixo de minha língua, se escondem palavras que revelam tudo de mim / Poderia dizer a você as minhas inseguranças, chego a me sentir pequena", numa balada que vai em voz e violão por 40 segundos. É confessional. Aos 40 anos e mãe de uma filha de um ano, Simona, a cantora e compositora nascida nos Estados Unidos, mas mexicana de "coração e alma", como ela diz ao Estado, encontra-se num momento de reflexão, de expor as suas fraquezas para, assim, crescer.

E é com esse sentimento que ela volta ao Brasil, depois de uma passagem por Porto Alegre, em maio deste ano, como a atração mais pop do festival latino-brasileiro Telefonica Sonidos, ao lado da colaboradora de longa data Marisa Monte. Os shows começam hoje e vão até domingo, no Jóquei Clube, com a apresentação do pianista de jazz cubano Chucho Valdés e o instrumentista brasileiro Hamilton de Holanda. A cantora mexicana se apresenta na sexta-feira.

A relação com Marisa Monte ganhou grandes proporções e se estreitou quando Venegas foi convidada para gravar o acústico MTV Unplugged. A brasileira participou cantando Ilusión. "É claro que vamos tocar essa música em São Paulo. Será incrível dividir o palco com ela. Ainda mais voltando ao Brasil. É um sonho. Não, não é um sonho mais, agora é uma realidade", diz.

À convite do Estado, Marisa Monte enviou perguntas para a futura companheira de palco. Dentre as questões, ela comenta sobre as possibilidade que as novas mídias sociais trazem aos artistas - na semana passada, a carioca transformou seu site oficial (www.marisamonte.com.br) num portal de informações sobre o seu novo álbum, ainda sem título, previsto para sair no final do ano. Marisa também questiona o paradigma feminino da sociedade contemporânea atual de se dividir entre o trabalho e a família. Venegas responde rápido, mas vacilante: "Eu acho que só o cotidiano pode dar a resposta. Com a minha filha, eu preciso pensar em novas questões. Como vou acomodá-la? A minha vida criativa fica em torno disso".

O fato de ser mãe trouxe, obviamente, novas perspectivas para a vida de Venegas. Abriu uma comporta de outras experiências que podem ser reveladas em seu próximo disco. "A criatividade vai ser afetada totalmente. Eu trabalho em ciclos, Quando estou em turnê, só faço isso. Quando vou gravar um disco, é a mesma coisa. Ainda não parei para compor desde que minha filha nasceu. Acho que quando eu começar, vai ser interessante."

São sete milhões de discos vendidos ao redor do mundo e seis prêmios Grammy (cinco latinos e um internacional) expostos na estante de sua casa, na Cidade do México. Ainda assim, ela não se considera uma artista pop latina. "Quando se fala isso, em ser pop, eu imagino alguém rebolando no palco e não cantando. Não concordo com isso. Eu gosto de música. Eu sou diferente disso tudo", afirma. Ela também recusa a responsabilidade de ser representante da música latina para o mundo. "Eu acho que não posso ser exemplo de nada. Eu sou, sim, latina. Sou mexicana. Tenho sorte de ser assim." Ela explica que o fato de ter nascido nos Estados Unidos vem do desejo dos seus pais de que ela morasse por lá. Algo que nunca aconteceu. "Isso era muito comum. As pessoas atravessavam a fronteira e iam ter os filhos na América", explica. A sua filha, por sua vez, nasceu na Cidade do México.

Seu último disco é reflexo dessa fase em que ela canta canções tão confessionais, de letras que expõem uma faceta frágil, mas, ao mesmo tempo, ela se diz mais segura do que nunca. O fato é que a maternidade mudou a forma de Julieta Venegas ver o mundo e como ela se insere nele. Durante a entrevista, ela revela que nunca esteve satisfeita com a sua voz. "Sempre me senti mais uma compositora do que uma intérprete. Não sabia como impor a minha voz para cantar. Isso é algo com que só consigo me sentir satisfeita agora", confessa. A Julieta Venegas que volta ao Brasil é outra: confiante, exposta, mãe.

Marisa Monte em conversa com Julieta Venegas

Marisa Monte: O que você pensa sobre as possibilidades que as novas mídias estão trazendo para nós, artistas. Como usa isso na sua carreira?

Julieta Venegas: Eu acho a internet ótima. Agora as músicas não são mais limitadas aos seus países de origem. As pessoas tem outras maneiras de conhecer novas músicas. O rádios não é a melhor opção. A internet acabou com as fronteiras da descoberta musical.

Marisa Monte: E como você vê a transformação da era digital na produção musical?

Julieta Venegas: Eu fiz o meu último disco em casa, por exemplo, onde eu posso experimentar o que quiser, sem a pressão do estúdio.

TELEFÔNICA SONIDOS

Jockey Club. Avenida Lineu de Paula Machado, 1.263. Mais informações: 4003-1212. Hoje a dom., a partir das 20h. R$ 60/ R$ 200.

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