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Uma nova invasão Argentina

Luis Gusmán lança antologia com 27 autores de seu país

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2010 | 00h00

O êxito póstumo do escritor chileno Roberto Bolaño (1953- 2003), que figurou em todas as listas dos melhores do ano de jornais e revistas brasileiros, talvez explique o lançamento de duas antologias dedicadas ao mundo literário latino, embora elas dispensem tal justificativa. Para saber a razão desses simultâneos lançamentos, basta ler ambos: Os Outros - Narrativa Argentina Contemporânea (Editora Iluminuras, organização de Luis Gusmán,) e Antologia Pan-Americana (Editora Record, organização de Stéphane Chao). São duas antologias que servem de guias literários e trazem nomes tão bons como Bolaño. Na primeira, Gusmán privilegiou a nova geração de escritores argentinos. Na segunda, Chao reuniu autores já consagrados de toda a América de língua espanhola, ao lado de outros mais novos.

Tanto a antologia argentina como a pan-americana reúnem contos, considerando que, no primeiro caso, comparecem outros gêneros como a crônica, a prosa poética e o diário. Na antologia dedicada a escritores de vários países da América do Sul, Central e Antilhas, o francês Stéphane Chao, agente de autores brasileiros, chega a uma lista eclética, colocando o badalado dominicano Junot Díaz, de 42 anos, autor do premiado A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao (Pulitzer de 2008), ao lado do veterano argentino Juan José Saer (1937-2005), talvez o mais próximo de Bolaño, não só por seu autoexílio, mas pela variedade de gêneros que experimentou.

Geografia. O escritor e psicanalista argentino Luis Gusmán, com livros publicados no Brasil (o mais recente, Pele e Osso, de 2009), teve muito trabalho para organizar sua antologia de 27 escritores contemporâneos, muitos deles desconhecidos no País. Deveria escolher apenas escritores argentinos como o veterano Roberto Raschella ou autores que adotaram a língua espanhola como pátria literária? Para escapar a uma ordem arbitrária, seu critério de seleção acabou sendo geográfico, mas não no sentido físico de fronteira.

A exemplo de Stéphane Chao, Gusmán optou por uma geografia literária, incluindo em sua antologia escritores como a nipo-americana Anna Kazumi Stahl. A seleção de Chao é ainda mais abrangente, trazendo autores americanos (Richard Ford, Jonathan Franzen) ao lado de haitianos (Dany Lafferière), jamaicanos (Olive Senior) e até um representante de Trinidad e Tobago (Rabindranath Maharaj).

A primeira característica que chama atenção na nova geração de escritores argentinos - Pablo Katchadjian, de 33 anos, Martín Kohan, de 33, ou Juan Becerra, de 45 - é a erudição. Há o caso, por exemplo, de Carlos Eduardo Feiling (morto precocemente, aos 36 anos, em 1997). Feiling traduziu o Finnegans Wake de Joyce em parceria com o editor e crítico Luis Chitarroni, de 42 anos, outro nome presente na antologia de Gusmán. Feiling, no conto O Escolhido, fala de jovens, mas não de garotos comuns. Seu eleito é Sebastian, que ouve vozes o tempo todo, odeia o rock argentino e ainda tem de enfrentar seu duplo, disposto a manipulá-lo como a uma marionete em sua sublime loucura. Automaticamente seu Sebastian evoca o personagem William Wilson, de Poe, lutando contra o destino que se impõe. Feiling gostava de Swinburne. Chitarroni, de Manley Hopkins. Viviam discutindo com outro grande escritor argentino morto em agosto último, Rodolfo Fogwill (1941-2010), quem era, afinal, o melhor, se Conrad ou Madox Ford, a maior influência de Ezra Pound. Feiling e Gusmán ficavam do lado de Conrad. Chitarroni mantinha a sua fidelidade a Madox Ford.

Exílio. Ainda para marcar a relação erudita dos jovens escritores com a tradição literária, outro nome que se destaca na antologia de Gusmán é Daniel Guebel, autor de O Nariz de Stendhal, sobre um episódio misterioso da vida do escritor francês, que, ajudante do general Michaud, em 1800, teria desaparecido a caminho de Roma em busca de um cirurgião plástico capaz de corrigir seu nariz, de descomunais proporções. Verifica-se em Guebel certo senso de humor muito próximo de Bolaño. Em tempo: Stendhal não fez plástica. Manteve seu nariz de batata até a morte.

Esse cosmopolitismo da nova geração argentina é analisado por Gusmán como um fenômeno da literatura atual, que teria se estabelecido "em outra espacialidade e outra temporalidade, que é produto de uma escritura descentrada". Para o escritor, "não há outro exílio senão o da própria língua", o que o fez montar sua antologia "como uma intriga e um mapa". Um mapa que começa com a viagem da escritora e crítica María Moreno no conto inaugural, Tenha Dó (Praça Miserere), em que analisa sua "mitologia suburbana", rememorando a infância numa praça do bairro Balvanera, em Buenos Aires.

Estação. Desse ponto partem todos, porque em Balvanera existe a estação de trem que dá nome à praça, Miserere, frequentemente trocado pelos frequentadores por Once, em referência à ferroviária próxima (chamada 11 de Setembro). "O que há de representativo nesta antologia é o seu caráter de diáspora", observa Gusmán, o que explica o já citado Chitarroni escrevendo no livro um conto russo (sobre um homem sem defeitos nem virtudes, dono de um casaco desfiado). Chitarroni pode posar de contista russo. Afinal, conclui o antologista, "ele viveu em Buenos Aires a experiência de ler Nabokov".

Gusmán, mais uma vez, está falando de uma fronteira que não é geográfica, mas linguística. Nesse particular, o texto que ilustra melhor esse dilema na antologia, o do escritor contemporâneo vivendo num mundo globalizado, é mesmo Interminável - Um Diário Íntimo, do mais conhecido entre os autores presentes no livro de Gusmán, Alan Pauls, nascido em Buenos Aires há 51 anos. Professor de teoria literária, ele é autor de O Passado, transformado em filme pelo diretor Hector Babenco há três anos, sobre um tradutor com amnésia, que perde sua capacidade de lembrar os idiomas que conhece. Rímini, o tradutor em crise com seu ofício, é o personagem central de Interminável.

Além de Alan Pauls, há na antologia outros autores publicados no Brasil, como Martín Kohan, de quem a Companhia das Letras lançou Ciências Morais (Prêmio Herralde de 2007), sobre uma inspetora de um colégio tradicional argentino que funciona como microcosmo alegórico do país, sempre oscilando entre a ordem e a bagunça.

TRECHO

"Podia escrever algumas coisas, mas outras não. Feliz de ser o filho do meu pai, feliz...

...de ter emigrado antes de nascer, feliz de contínuo desamor. Era certo que procurava uma pátria, uma verdadeira pátria, uma língua, uma verdadeira língua. Era certo que procurava a língua e a pátria no antigo tronco familiar, e o tronco aparecia despedaçado, o melancólico ramo materno de um lado, de outro a fúria da ordem paterna. Mas não eram pátrias semelhantes o país pequeno e a grande cidade?"

(Extraído de "Se Tivéssemos Vivido Aqui", de Roberto Raschella)

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