Uma nova ideia do sentir e pensar

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2011 | 03h08

Para ouvidos acostumados ao vocabulário iluminista, a expressão "filosofia espanhola" parece um paradoxo. Afinal, o mito da "lenda negra" conheceu sua formulação definitiva no século 18. Nessa época, o conjunto de opiniões desfavoráveis à cultura ibérica, difundido a partir do século 16, conheceu sua formulação definitiva na imagem da Inquisição, compreendida como obstáculo ao livre-pensar, e no sistema político das monarquias ibéricas, visto como o oposto do despotismo esclarecido. O círculo, portanto, fechou-se: às violências e arbitrariedades cometidas na conquista do Novo Mundo, somaram-se as arbitrariedades e violências contra os ideais iluministas de emancipação. E, ao contrário do fracasso de certo personagem machadiano, aqui as pontas foram atadas com êxito, cristalizando a imagem da "lenda negra".

O motivo atravessou os séculos e, em alguma medida, mantém-se atual. Em 1948, por exemplo, na obra-prima de Ernst Robert Curtius, Literatura Europeia e Idade Média Latina, o leitor encontrou um excurso sintomaticamente intitulado "O 'atraso' cultural da Espanha". Nesse caso, as aspas, cuidadosamente apensas à palavra, apenas confirmavam a percepção das culturas ibéricas como prisioneiras atávicas do passado. No juízo do romanista alemão: "Na Espanha, a literatura vulgar começa consideravelmente mais tarde do que na França. A cultura latina também chega ali com grande atraso. Por isso, a literatura espanhola conserva, até o fim do século 17, traços medievais que lhe emprestam uma fisionomia particular. Há ainda outros sintomas de 'atraso' cultural na Espanha".

Contudo, o elemento sempre mencionado referia-se ao conservadorismo do pensamento espanhol, isto é, à aliança da intelectualidade ibérica com a Igreja Católica. No secularismo dominante a partir do Iluminismo, tal associação tornava a possibilidade de imaginar a "filosofia espanhola" um autêntico paradoxo.

A força da "lenda negra" também pode ser avaliada pela repercussão literária do tema. Recorde-se a famosa parábola de Dostoiévski, O Grande Inquisidor. Trata-se de texto escrito pelo personagem Ivã e lido para seu irmão, Aliócha; sem dúvida, uma das passagens-chave não somente do romance, mas de todo o século 19. Qual o cenário escolhido pelo escritor russo para situar o inesperado reencontro do Cristo com a humanidade? Abra-se os Irmãos Karamázov no Livro V, capítulo V: "A ação se passa na Espanha, em Sevilha, na época mais terrível da Inquisição, quando todos os dias no país ardiam as fogueiras à glória de Deus".

Ora, onde mais? Naturalmente no país de Torquemada, o temido Inquisidor Geral dos Reis Católicos, pois, como o narrador esclareceu didaticamente: "O grande inquisidor mandara queimar uma centena de heréticos ad majorem gloriam Dei". A força da prosa de Dostoiévski tornou definitiva a imagem do "atraso" - embora a própria cultura russa tenha sofrido com o mesmo estigma!

Por fim, a longa ditadura do Generalíssimo Francisco Franco, que permaneceu no poder desde 1936, após depor o governo republicano, até sua morte, em 1975, tornou o motivo um lugar-comum difícil de ser superado.

Pois bem: a principal tarefa do leitor da Trilogia Inteligência Senciente, de Xavier Zubiri, aqui agora lançada, consiste em suspender todo juízo e reconhecer que o filósofo espanhol elaborou um dos mais rigorosos e originais sistemas filosóficos do século 20.

Não é um exercício simples sintetizar seu pensamento, porém, é possível apresentar as linhas de força de sua vida e obra, incluindo o desenvolvimento de um vocabulário próprio, na esteira de todo grande filósofo que sempre molda uma linguagem particular.

Aliás, poucos filósofos desenvolveram o duplo movimento que define o pensar zubiriano.

De um lado, o conhecimento sólido da tradição filosófica, obtido por meio da leitura sistemática dos clássicos. Leitura, contudo, orientada por uma perspectiva própria: ao mesmo tempo modesta, ou seja, a atitude do aluno que deseja aprender, e crítica, vale dizer, a postura do pensador quem nunca se submete ao modelo do discípulo reverente ao mestre.

De outro lado, o afã de manter-se atualizado com as novas correntes filosóficas das décadas iniciais do século 20, com destaque para a fenomenologia. De igual modo, Zubiri dedicou-se especialmente aos estudos de física, matemática e biologia, a fim de refletir radicalmente sobre a estrutura da realidade e de sua apreensão - temas centrais de seu pensamento.

Esse duplo movimento filosófico conheceu sua mais perfeita tradução no percurso existencial de Zubiri.

Avancemos passo a passo, já que a matéria é complexa.

José Francisco Xavier Zubiri Apalategui nasceu em 1898 na cidade basca de San Sebastián. Aos 17 anos ingressou no Seminário, familiarizando-se com a tradição escolástica. Porém o encontro ocorrido em 1919 com José Ortega y Gasset foi fundamental, pois lhe abriu os horizontes de uma nova orientação filosófica: a fenomenologia. Aos 23 anos, Zubiri já havia defendido duas teses de doutorado - em teologia, na Universidade Gregoriana de Roma, e em Filosofia, na Universidade de Madri, com um estudo sobre Edmund Husserl. De fato, em 1923, publicou o primeiro livro sobre o filósofo editado fora da Alemanha.

De 1928 a 1931, já como professor catedrático em Madri, Zubiri realizou uma série de viagens, a fim de estudar com os mais destacados professores e pensadores da época. Sua peregrinação provavelmente não tem paralelo no século 20: o futuro criador da "filosofia senciente" esteve, por assim dizer, sempre à frente de seu próprio tempo, num esforço transdisciplinar que se confunde com um exigente projeto de vida.

Zubiri estudou filologia clássica sob a orientação de Werner Jaeger. Interessado em fenomenologia, residiu em Freiburg, estudando com Husserl e Martin Heidegger. Ele ainda estudou física teórica, matemática e biologia com os mais importantes especialistas nesses campos. Por exemplo, conheceu os últimos avanços da física quântica com ninguém menos do que Erwin Schrödinger, prêmio Nobel em 1933. Em Berlim também conheceu outro prêmio Nobel, Albert Einstein. Posteriormente, de 1936 a 1939, durante a Guerra Civil Espanhola, além de lecionar em Paris, no Instituto Católico, estudou línguas orientais e os progressos da linguística moderna com os grandes nomes da época, como Émile Benveniste.

Esse percurso existencial e intelectual correspondeu ao projeto mais ambicioso de Zubiri: a produção de uma filosofia rigorosa com base na incorporação tanto das contribuições dos grandes filósofos quanto das novidades científicas das primeiras décadas do século 20. Suas reflexões culminaram na publicação de sua obra maior: a Trilogia Inteligência Senciente, que teve sua edição concluída em 1983, ano de sua morte, e é composta por Inteligência e Realidade, Inteligência e Logos, Inteligência e Razão. Quatro termos que revelam os problemas em torno aos quais gravitou a filosofia zubiriana.

A compreensão do neologismo "senciente" (em espanhol sentiente) permite ingressar no universo zubiriano. Aliás, o filósofo espanhol criou um rico vocabulário, expressando os avanços de sua pesquisa.

Dois paralelos ajudam a dimensionar a originalidade de Zubiri.

Immanuel Kant buscou renovar a filosofia através do cruzamento inesperado e produtivo da condenação da metafísica tradicional, feita por de David Hume, com os avanços da física, propostos por Isaac Newton.

Heidegger atribuiu-se a tarefa de recuperar a questão do ser do esquecimento que a tradição da filosofia ocidental teria promovido a partir de Platão e Aristóteles. Para tanto, retomou os filósofos pré-socráticos e situou a temporalidade no centro de suas preocupações.

A seu modo, Zubiri pretendeu radicalizar os dois projetos.

De um lado, tal como Kant, Zubiri associou a filosofia e a ciência contemporânea. Contudo, ele considerou que o filósofo de Königsberg cometeu um erro fundamental ao confundir conhecimento e intelecção. Ou seja, reduzir a tarefa do conhecimento à tradução de determinada forma das sensações numa determinação conceitual: em termos kantianos, traduzir intuições em conceitos, pressupondo uma separação real entre sentir e inteligir.

Para Zubiri, esse equívoco contaminou toda a filosofia ocidental, dificultando o entendimento tanto da estrutura da realidade quanto da forma propriamente humana de apreendê-la. Tal forma é senciente, isto é, possuímos "sentidos inteligentes". Nas suas palavras: "Uma coisa, diz-se-nos, é sentir; outra é inteligir. (...) Foi a tese inicial da filosofia desde Parmênides, que veio gravitando imperturbavelmente, com mil variantes, em torno de toda a filosofia europeia".

De outro lado, tal como Heidegger, Zubiri identificou o desvio de rota que teria contagiado o conjunto da tradição filosófica ocidental: para o filósofo alemão, o esquecimento da questão do ser, já para o filósofo espanhol uma concepção equivocadamente dualista entre sensação e inteligência. Desvio a que o próprio Heidegger não escapou. Ora, se a temporalidade tornou-se o horizonte mesmo da filosofia na época das descobertas da física, em particular, e das ciências, em geral, a radicalização do projeto heideggeriano exigia um entendimento igualmente novo da realidade, que se apreende através da "inteligência senciente".

Desse modo, Zubiri lançou as bases de uma filosofia radicalmente realista e aberta, cujo eixo assim definiu: "Penso que inteligir consiste formalmente em apreender o real como real, e que sentir é apreender o real em impressão". Daí, a força de uma citação sempre repetida: "Inteligir é um modo de sentir, e sentir é, no homem, um modo de inteligir". Portanto, a inteligência senciente busca estar à altura da complexidade característica da forma propriamente humana de constituir-se na e através da realidade. Por sua vez, a realidade possui algo que se pode chamar "de seu" - expressão fundadora do pensamento zubiriano. Vale dizer, algo que é próprio à realidade das coisas em seu aspecto físico. A inteligência senciente instala-se radicalmente nessa dimensão. Por isso, discutir as consequências epistemológicas do conceito zubiriano de realismo poderia ser um modo inesperado de renovar o exercício da crítica literária e cultural, por exemplo.

Uma palavra final deve ser reservada para destacar a qualidade desta primorosa edição da Trilogia Inteligência Senciente. Os volumes, cuidadosamente traduzidos por Carlos Nougué, são enriquecidos por valiosos prefácios de José Fernández Tejada, o autor da primeira obra escrita em português acerca do pensamento zubiriano, A Ética da Inteligência em Xavier Zubiri, livro que conta com um esclarecedor glossário dos termos-chave de sua filosofia. Nesse caso, portanto, os adjetivos não são excessivos, antes representam o justo reconhecimento pela iniciativa de oferecer ao público brasileiro a oportunidade de apreender um dos sistemas filosóficos mais importantes do século 20.

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